Levanto a bunda do banco de pedra para coçá-la. Hemorróidas. Os dedos doem. Reumatismo. Tusso como um cachorro tuberculoso, mas dou mais uma tragada. Peido. Fungo. Fedo. Enojo.
Existo.
Infelizmente.
Os anos se passaram, e nada realmente mudou. Aparelhos eletrônicos e roupas diminuíram com o mesmo ritmo de sempre. O mundo não acabou, como esperado. Nem o petróleo, ou a crise. E eu persisto aqui, sentado nesse banco de pedra no meio da noite, observando o deprimente trottoir dos travestis da praça. Sou uma estátua deprimente. Sou ponto de referência duvidosa. Sou mau exemplo a novas e novas gerações cada dia mais ignorantes. Sou fruto degenerado do século XX que insiste em permanecer vivo, mesmo odiando tudo, mesmo sendo igualmente odiado, um estorvo, um entrevero, uma hemorróida nos anais da humanidade.
Tusso novamente, e escarro algo marrom. Quase acerto o pé de um transeunte, que nem comenta nada, tão assustado está por ainda permanecer naquele bairro fétido àquela hora. Minha cara enrugada se retorce num esgar desdentado. Acho que ainda posso chamar isso de sorriso.
Resmungo para os zumbidos elétricos dos automóveis híbridos que reverberam em meu cérebro. Gemo para o swish-swish dos sapatos de polímeros macios, e bato os pés de chinelo no chão de pedra até meus joelhos reclamarem. Reclamo uma reclamação sem sentido a um garoto que estaciona seu carro ouvindo uma paródia de algo que já se chamou música, enquanto negocia o rabo peludo que irá foder naquela noite. Isso não mudou. Isso nunca vai mudar. Como eu. Sou como a sodomia patológica da humanidade. Eterna, por mais incômoda que seja, não interessa o liberalismo que vivamos. Sou um pau no cu, nada mais que isso.
Os anos passaram lentos demais, e tudo que fizeram foram encarquilhar esse corpo descuidado. Mas não morro. Não, não me é permitido esse alívio. Pois vim aqui para sofrer, para amargar uma existência longa e inútil. Sou uma ironia à geração saúde. Persisto, persevero, permaneço.
Lembro que durante um tempo escrevi um blog. Para alguém. Quem? Com certeza um inútil que a esta altura já morreu faz tempo. Nossa, blog, que coisa velha! Mas sou velho, sou antigo, sou ultrapassado constantemente pela vida. Não sei por que parei de escrever nele. Talvez porque tenha virado uma obrigação. Talvez tenha perdido o sentido. Talvez precisasse dele para alguma coisa, mas esta coisa se perdeu na névoa de minha mente entulhada de tumores e aneurismas. O raciocínio migrou para o intestino grosso e hoje cago idéias, mas só falo merda.
Sou um velho inútil, quase mendigo, sentado num banco de pedra de uma praça cheia de travestis, curtindo a coceira das hemorróidas e a ausência de nostalgias.
Meu Deus, por que eu não morro?
26.9.05
Eu, Velho Maldito
Esporrado por Zebedeu às
08:33
|
16.9.05
Estuprando Paris Hilton
Doutor,
vez ou outra nos deparamos com uma figura emblemática na mídia, daquela que qualquer gesto mundano é narrado, descrito, destrinchado e analisado como se fosse algo de suma importância para as vidas de nós, reles desconhecidos da massa plebéia, nessa cultura de idolatria à fama que importamos de nossos brothers.
Já temos nossas versões nas terras abaixo do equador. O nascimento de Sasha e Joaquim. Casamentos e divórcios relâmpago. Flagras de famosos em situações que beiram o ridículo. Xerecas de Piovanis ou Beijos de Buarques, apenas para citar dois.
A bola da vez (ou do dia), é a magricela-sem-sal-mas-com-muito-dinheiro Paris Hilton, que está de passagem pelo Brasil, que talvez só tenha vindo pensando se tratar de um safári na Rain Forest.
Nascida cagando dinheiro, Paris não fazia parte do Time "A" das celebridades até mostrar aquele vídeo horrível dela sendo enrabada por um ex-namorado, num pseudo pornô-gonzo que envergonharia Seymour Butts. De repente, a riquinha sem graça virou socialite. Só se falava nela. Reality shows, celulares hackeados, filmes ruins e muita, mas muita fofoca, transformaram a sonsa em estrela.
Para mim, ela poderia ser comparada a uma mistura da Sasha com o Chiquinho Scarpa, tamanha a futilidade que essa criatura bisonha evoca. Forma e conteúdo passam longe, mas mesmo assim é só ela coçar a bunda ou deixar o decote cair para mostrar os peitinhos muximbas e espocam flashes e matérias bombásticas. E a tudo ela ri, exibindo aqueles olhos meio blasè, meio chapados de crack, como uma Diana antiga riria dos mortais que a idolatravam.
Por que eu perco tempo pensando nisso, doutor? Porque sou um desocupado, um nada, um cocô de cachorro pisado por uma alpercata surrada. Então eu acabo sendo uma das vítimas do bombardeio cretino. Não dá pra abrir um site de notícias, entrar numa banca de jornais ou mesmo andar num ônibus fedorento sem ser atingido. E incomoda, principalmente porque eu faço uma questão absurda de pensar, de analisar, de entender.
Mude de canal, diz você. Não compre a revista, sugere. Entre em outro site, recomenda.
Não é o que eu quero. Alienação não é opção. Não há para onde fugir! Minha única e triste opção é descarregar os cachorros neste blog, mesmo sabendo que isso simplesmente não resolverá nada. Mas vale a tentativa.
Quero que ela morra pobre. Que coma a dieta dos Maluf-na-Cadeia pro resto de seus dias. Que caia no esquecimento tão rápido quanto virou celebridade. Que implore entrevistas em programas evangélicos. Que termine uma puta drogada num dos quartos do hotel do papai. Que apenas veja novamente os holofotes e os flashes quando for flagrada dando a bunda em troca de um brilho, toda gorda, asquerosa e berebenta. Que sofra. Muito.
Ah, se ela caísse na minha mão...
Infelizmente, mesmo que tudo isso aconteça a ela, em segundos outra figura semelhante surgiria renascida das merdas, espelhando as aspirações da classe miserável com sorrisos e excessos. E a massa os consumindo como se fosse um narcótico, uma saída para a própria existência ralé, até exaurí-los completamente. Aí, o ciclo recomeça. Suas vidas já são tão medíocres e miseráveis que nada que eu faça ou rogue irá piorá-las, e isso me consola um pouco.
Que nem você, seu sugador de vidas patéticas, súcubo de tragédias pessoais, parasita de neuroses.
Esporrado por Zebedeu às
10:56
|
6.9.05
Dez Reais
Doutor,
estava eu caminhando sob o clima instável, com as mãos no bolso e os olhares no asfalto velho e quebradiço como meu raciocínio vespertino, negro e sujo como a alma que eu sabia não ter, e pensava no recheio magro de minha carteira. Dez reais. Os últimos da quinzena que acabara de começar. O pouco que reservei para mim de meu surrado ordenado. Decidi usá-los para mim. Dez paus ávidos por preencher alguma boceta capitalista faminta, eu só ainda não sabia qual.
Caminhei pelo centro. Tinha fome, mas não queria gastar o dinheiro com comida. Não, não, comida não. Eu queria alguma coisa nova, uma experiência, uma inspiração, um acontecimento. A isso eu daria de bom grado tudo o que eu tinha: os dez paus. Os onze, até.
Mas a rua era chata. Pessoas chatas, olhares severos mirando o nada especulativo de suas existências medíocres. Ruas sujas e abandonadas por algum político miserável e pela população descrente. Trombei com um executivo apressado. Olhei para ele nervoso. Posso assustar quando faço minha cara de nervoso, pode acreditar. Não foi o caso, pois o babaca nem olhou para mim. Resmungou algo que poderia ser tanto um pedido de desculpas quanto uma blasfêmia cabeluda entupida num ralo moralista, e foi embora junto com a torrente humana de fim de expediente, ávidos para chegar em casa e estender suas vidas patéticas mais um dia.
Eu não. Eu procurava vida no ambiente ermo e estéril da cidade grande. Eu tinha dez paus, dez falos rígidos e pulsantes esperando para serem extenuados. Eu flanava como a porra de uma alma penada depenada de suas asas de anjo, incapaz de deixar esse mundo imundo. E não tinha onde gastar meu último dinheiro.
Começou uma garoa, e a vazão humana aumentou de ritmo. Eu não, fiquei me molhando miseravelmente, misantropicamente, enquanto os ratos se protegiam sob toldos amarelos e passarelas de neon. Ri, cuspindo gotas de chuva que escorriam dentro de minha boca. Minha camisa se encharcou e transformou minhas costas numa cachoeira até meu rêgo, e não era um regato, era uma cavidade anal. Minha calça se encharcou na minha bunda e nos tornozelos, mas ficou seca no meio, e a chuva, acho que num espasmo estético, achou legal e parou de me molhar.
Continuei andando pelas ruas semi iluminadas por postes com sensores apressados, talvez contagiados pela turba que agora diminuia. De canto de olho via uma bunda passando por mim, e acompanhei-a. Dez paus, moça, só isso, tudo isso, só tudo. O que consigo de você com isso? Um joelho? O canto de um seio? Um sussurro safado em meu ouvido? Ela anda com pressa culpada, eu a sigo com pressa ansiosa. Sabe andar de salto alto. São poucas assim hoje em dia. É uma arte perdida. Tec-tec-tec, equilibrando-se habilmente no asfalto irregular. Imagino-a nua, apenas de saltos altos, pois ela não seria ela se os tirasse. Seria mais uma. Não valeria meus dez paus. Sigo-a pelas ruas. O décimo primeiro acorda, eu ajeito seu pescoço despudoradamente. Ela está a três metros, mas anda como se estivesse numa marcha atlética, os braços junto ao corpo agarrados a uma bolsa de vinil barata, a bunda alternando a altura das bochechas como se fossem pistãos de um motor bem lubrificado. Dez paus duros valem uma volta naquela máquina?
Aí ela entra numa igreja, e os dez paus broxam. Pensei em segui-la para dentro, mas seria por teimosia. O tesão morreu. Ela não vale meus últimos trocados. Não vale nem um minuto. Não vale uma desculpa para entrar na merda de uma igreja.
Do lado do templo velho e sujo de fuligem, outro resplandecia a neon. Era um estúdio de tatuagem. Na porta uma moça magra, com cabelos negros chanel, fumava um cigarro com cara de saco cheio. Top preto, barriga de fora, umbigo perfurado por uma jóia grande. Me vi imaginando em que outros lugares haveriam jóias naquele corpo. Ela me viu. Deus, devo estar parecendo um mendigo! Olhos bonitos escondidos por miligramas excessivos de maquiagem feia. Não sei porque entro. Em meio a gravuras, caveiras e pastas de plástico tem um careca. Sua nuca parece um gibi pulp. Tem mais metal naquela cara que o necessário. Imaginei ele entrando num banco ou aeroporto o trabalho que não daria. O careca sorriu pra mim um dente de ouro.
- E aí, o que vai ser? - ele perguntou, acho que pra me zoar.
- Um Ele-Fante. Na minha bunda. Vai se chamar John.
- Um elefante?
- Elefante não. Ele-Fante, John. Te dou dez paus por ele.
- Vai custar mais que isso.
- Tá. E se eu trocasse por um velho diabético cego e sem as pernas numa cadeira de rodas?
- Mais caro ainda.
Saí de lá para a rua. A morena chanel tinha desaparecido. Azar dela. Perdeu meus dez paus. Nem vai saber, a piranha. Deve dar pro careca, a vaca. E ele só tinha um, com certeza supervalorizado pelo mercado especulativo.
Continuei vagando sem rumo até cansar. Não consegui ordenar a mente o suficiente para saber onde gastar a porra dos dez reais, então os entreguei a um mendigo, que quase me beijou ao ver a nota. Mandei-o tomar no cu e fui pra casa. Uma punheta me esperava. Depois de um copo de leite, não sei bem por quê.
Esporrado por Zebedeu às
07:01
|
1.9.05
A Puta da Vida
Doutor,
eu estava num bar perto de casa, enrolando numa cerveja de pobre e contando rachaduras do balcão, quando ouvi uma voz:
- Oi?
Era uma mulher. Maquiada. Decotada. Aloirada.
- Hrmmm?
- Posso sentar do teu lado?
Minha resposta foi uma bicada na minha cerveja morna.
Ela sentou.
- Tudo bem?
- Tava ótimo. Agora não sei.
- Me paga uma bebida?
- Não tenho nem pra pagar a minha direito. Se vira.
Ela pediu uma coca light.
- Tá sozinho?
- Infelizmente, não mais.
Aí eu me liguei.
- Você tá me cantando?
- Hum-hum...
- Ou você é louca, ou é puta.
- Não sou louca...
- Caralho...
- Não tá a fim de companhia?
- Não. Tô duro.
- Essa é a idéia.
Os nós dos meus dedos esbranquiçados de tanto apertar aquele pescoço curto...
- A gente podia ir pra um lugar mais calmo, se conhecer melhor.
- Quanto?
- Hein?
- Ô cretina, quanto é?
- Duzentos, mas pra você faço por cento e cinqüenta.
- Prefiro bater uma punheta pra um cadáver.
- Posso me fingir de morta, se é o que você curte.
Com uma faca cega eu abro os pontos macios daquela pele, e me lambuzo com sangue venal...
- A noite tá fraca, é? Vai encher o saco de outro, piranha do caralho.
- Hum, gosta de falar palavrão? Eu também gosto...
- Vai tomar no cu.
- Aí é mais caro.
Com a faca afiada eu tiro a pele de seu rosto, e visto-a no meu como uma máscara. Obrigo-a a ver-se como uma criatura de fim de festa de carnaval...
- Sabe, eu gostei de você. Se for bonzinho, posso fazer até por cem.
- Ai meu saco.
- Chupo tuas bolas, também. E engulo tua porra.
Ela engasga com sangue e esperma. Aproveito e cago na sua boca. Ela chora. Sangue...
- Se você fosse esperta, ia procurar alguém que te queira. Eu tô fora.
- Não sou bonita?
- Parece que pegou fogo e apagaram na tamancada. Mas já comi coisa pior.
- Tenho uma amiga que ia topar fazer um bem bolado.
- Ô puta estúpida! Não tenho dinheiro pra uma, quanto mais pra duas! Vai se foder.
- Prefiro você.
Quebro a janela, jogo os cacos em cima do colchão, deito ela de bruços em cima, e fodo seu cu com um cabo de vassoura...
- Não te comeria nem de graça. Sai fora.
- Você tá de pau duro?
Duro, forte rijo e pulsante. Como nunca esteve antes. Dói.
- Some, ô vagaba de quinta! Caralho, a gente não pode nem beber em paz? Vai te foder!
- Você tá a fim, que eu sei. Vamo lá...
Deixo ela deitada no próprio sangue um dia inteiro. Depois lambo suas feridas coaguladas e purulentas. Bato uma punheta e esporro na tua cara deformada...
- Não.
- Quer ver meus peitinhos?
- Quero, mas não vou pagar nada por isso.
- É cortesia. Olha.
- Feio. Caído. Estrábico. Mamilos nojentos. Estrias nojentas.
- Você também não é nenhum Brad Pitt.
- E você não é ninguém. É menos que ninguém. Nem me disse teu nome.
- É Jennyfer. Com Y.
Que nem o corte do legista no teu tórax.
Levantei.
- Onde você vai?
- Embora. Não transo pseudônimo.
Antes de sair, ainda ouvi ela dizer: "Pisseudômino? Isso eu nunca fiz."
Agora esqueçamos o que deveria ter sido, e vamos aos fatos.
A mesma cena. Eu no bar. Cigarro com gosto de esterco. Cerveja pior que mijo.
- Ei, bonitão, tá a fim de um programa?
Sacudo a cabeça de um lado para o outro e estico o polegar apontado pra baixo.
- Tomar no cu, só tem duro nessa merda?
E foi embora.
Doutor, a vida seria muito mais interessante se tivesse roteiro pré estabelecido.
Esporrado por Zebedeu às
21:55
|
25.8.05
Sobre Medíocres e Bobos
Doutor,
muitas vezes, durante nossas conversas, tratamos sobre méritos e realizações, objetivos e metas, e todas essas merdas motivacionais que você recita de cor e salteado que nem um papagaio de piada. Algo até dá pra aproveitar, mas a maioria é lixo puro. Papo manteiga de babaca iludido. Cretinice pseudo-nova-era-pós-yuppie-suicida.
A maioria de nós quer realizar algo na vida. Para alguns, é formar uma família, com filhos, bichos, remelas, fraldas sujas, dívidas e carnês das Casas Bahia. Para outros é ser ricaço, viver num loft na Paulista, ter um carro alemão ou um italiano (que não seja um fusca ou uma Romisetta), comer modelos anoréxicas, andar com roupas caras e trecos tecnológicos inúteis, como palms e celulares que cantam, dançam e fazem café (alguns, segundo ouvi falar, até pagam um boquete, mas os créditos acabam rapidinho...).
E tem os que querem mudar o mundo, seja através de uma obra filantrópica qualquer, seja através da arte. Sempre começam humildes, juntando uma dúzia de felinos gotejados tão idealistas como ele, e levantam uma bandeira qualquer, dispostos a dar a vida pelo seus ideais ou por sua mensagem.
Não, não tenho nada contra eles, doutor. Cada um faz o que quiser do próprio rabo. É tudo parte dessa massa caótica que se auto intitula humanidade. Não, não ligo para nenhum desses. Poderiam todos morrer numa explosão vulcânica que eu não soltaria um único suspiro de espanto. Talvez torcesse o canto de meus lábios num sorrisinho sardônico, mas só isso.
O problema não é começar um movimento. O problema é acreditar que, já que você o começou, e acabou crescendo, virou verdade absoluta. É aí que a ideologia vira dogma, e todo dogma é um lance perigoso. Sim, se seguirmos meu silogismo, todo ideal é perigoso. É simplista, mas é isso aí.
A maioria dos que começa algo vê seus sonhos desabarem rapidamente, e em breve já estão prontos para outra (pois para estas pessoas, a vida nada mais é do que segurar uma bandeira rasgada ao vento, nem que seja em defesa dos direitos dos leucócitos do macaco azul da Tanzânia, cuja extinção não afetaria nem um culhonésimo da evolução darwiniana). O problema está nos que são bem sucedidos. Não tem jeito, o sucesso sobe a cabeça, que fica inchada e prepotente. Pode ser que o tal projeto não signifique nada de útil (e, em sua imensa maioria, é o que acontece, pode acreditar). Mas o babaca acha que é um fodão, pois se ele tinha razão a respeito de uma coisa, tinha a respeito de tudo.
Aí aparecem os lambedores de cu de plantão (na maioria, pessoas que tentaram e não conseguiram). E a idéia vira militância. Vira piquete. Vira fanatismo cego. Vira curso imersivo em hotel-fazenda. Vira livro, revista, jornal, brinde, remédio, gibi, fantasia, e toda merda de merchandise que se possa imaginar. E o ego do iniciador cresce cada vez mais. Ele vira um emblema, um símbolo, uma realidade própria, cujas vontades rapidamente se tornam verdades indiscutíveis e pelas quais todos devem lutar, sob a penas de serem deixados de lado na "revolução".
Mas, invariavelmente a casa cai. Ninguém é unanimidade, nada é eterno. Nem Jesus, seu católico de merda! Buda, em comparação, é bem maior, e ambos já tem o barbudo-de-turbante no calcanhar. Aliás, o Jesus católico foi uma criação de um idealista, igual aos que eu descrevi acima. O gordinho e o barbudo-de-turbante também. E um dia, todos eles irão desabar, principalmente se surgir outra ficção atraente o suficiente para magnetizar as mentes fracas dos lambe-cus de plantão.
Bom, fugi do assunto. O lance é que, quando a ideologia cai, o criador (ou seus seguidores mais próximos) é o que leva o maior tombo. Ele percebe que sua torre de marfim nada mais era do que uma palafita de junco. E percebe que não só ele se deu conta disso, mas também todos os seus pretensos "fiéis seguidores", que rapidamente debandam como ratos de navio adernando, à procura de outro trouxa para ser sugado (sem conotações sexuais na maioria dos casos).
E o tombo é feio. Poucos sobrevivem. No final apenas restam tentativas patéticas de reacender a glória perdida, tal qual um viciado em heroína atrás de seu barato inicial. É triste, é desolador, é ridídulo. Depois vem os ataques gratuitos, numa metralhadora desregulada disparando balas de merda. E a cada nova manobra, mais o puto afunda.
É de morrer de rir.
É por isso que eu não dou a mínima. Não levanto bandeiras, não sigo pessoas nem seus ideais. Fico na minha, sentindo meus órgão decaírem paulatinamente, esperando o fim dessa existência inútil. O mundo pertence aos idealistas. Que façam ótimo proveito, cada um no seu tempo ou todos juntos, numa guerra-santa-ideológica-ganaciosa-ridícula.
Não, doutor, esse texto não é sobre o PT (apesar de se aplicar como uma camisinha japonesa). O senhor sabe o que penso de política.
Não, esse texto é para você, cara. É, você mesmo, que está bisbilhotando meu texto neste momento.
Pensa nisso, mas não me venha encher o saco para fundar uma Igreja Depressiva do Pensamento Cínico, pois senão eu crucifico sua mãe de ponta cabeça, empalo tua irmão com uma tora e explodo tuas negas na seção de legumes de um supermercado lotado.
Entendeu agora, doutor?
Esporrado por Zebedeu às
10:44
|
19.8.05
Ora, Marshmallows!
Doutor,
o relato a seguir é baseado num relato que se diz baseado em um estudo sério. Desta maneira, pode crer que é bobagem. Das grossas. Mas mofifiquei-o de acordo com minhas noções deturpadas de realidade.
A experiência era a seguinte: em um ambiente controlado foram isoladas 10 crianças. Na frente de cada uma delas foi colocado um pedaço de marshmallow. Aí as crianças foram instruídas: caso comessem o marshmallow, não receberiam outro. Se conseguissem controlar-se, em pouco tempo teriam o dobro de marshmallows. Caso contrário, ficariam só com um.
Dito isso, os enjalecados saíram do aposento, tais quais Heisenbergs ou Pavlovs contemporâneos, e começaram a monitorar os fedelhos. Quatro crianças nem pensaram duas vezes, e engoliram o marshmallow quase sem mastigar, suspirando de prazer. Um até arrotou. Três controlaram-se por alguns minutos, e em seguida comeram os seus doces. Um deles roubou o doce do outro (que teria conseguido se controlar, caso não fosse roubado), que começou a chorar. Apenas um conseguiu controlar-se e não comeu seu doce. Ele e o ladrão comeram mais um após o retorno dos monitores.
Vinte anos depois, foram atrás das crianças (agora adultos), e abaixo o que aconteceu com eles:
- Dos quatro que comeram sem pensar, o que arrotou morreu de obesidade mórbida (que nem o Papai Noel da Xuxa), dois viraram pessoas completamente medianas, e um foi morto por uma bala perdida (mas, de acordo com os parentes, ele não era conhecido pela inteligência, mas pelas pinturas abstratas, que valorizaram horrores após sua morte).
- As três que se controlaram parcialmente se uniram anos depois e montaram uma banda de punk rock. O baixista se apaixonou pelo baterista, e juntos eles assassinaram o vocalista, que se achava o dono da banda. O baterista foi morto na ocasião da prisão, pois ficou indeciso demais para saber se se rendia ou revidava aos tiros. O outro, por mais que declare-se macho, já rodou na mão de meio presídio, e está em fase terminal de AIDS.
- O que teve o marshmallow roubado sofre com bulimia. Se sente indigno de comida. Duas vezes por semana ele visita um psicanalista, que sempre o convence a não se matar pelo menos até a próxima sessão. Vomita até antidepressivos.
- O que roubou o marshmallow vive atualmente em local desconhecido. Foi eleito para o congresso, e fugiu quando descobriram seu desfalque. De acordo com a Interpol, vive tranquilamente nas Ilhas Canárias, provavelmente cercado de espanholas de bikini.
- O único que resistiu foi expulso da escola na 5ª série depois de acobertar o crime de um colega (por coincidência, o congressista ladrão de marshmallows), e hoje é frentista. Seu vocabulário se resume a "Quanto, doutor?" e "Posso checar o óleo?". Não consegue tomar uma decisão audaciosa, pois morre de medo de quebrar regras estabelecidas.
Morais da História Cretina:
- Comer Marshmallows não faz a menor diferença para sua vida futura.
- Inteligência Emocional é uma asneira sem tamanho que deveria se abolida junto com acupuntura e homeopatia.
- Ladrão vem do berço. E o crime compensa, sim.
E eu, doutor?
Bom, eu não gosto de marshmallows.
Esporrado por Zebedeu às
21:05
|
15.8.05
Esperança
s. f., ato de esperar;
tendência do espírito para considerar como provável a realização do que se deseja;
a segunda das virtudes teologais;
o que se espera;
expectativa;
suposição;
probabilidade;
Zool., inseto ortóptero locustídeo de cor verde;
estar de -: estar no período de gravidez;
dar -s: dar mostras de vir a ser distinto em alguma coisa.
Tá, e daí, você me pergunta, doutor. Bom, sinceramente, não sei.
Não sei o que esperar mais da vida.
Quando a gente entra numa certa idade, já sabe que a partir dalí é ladeira abaixo, como uma montanha russa cujo final é uma barreira de explosivos. É uma metáfora idiota e batida, mas nada se aproxima mais da verdade. Levamos anos para chegar ao topo, o vagão fazendo tlec-tlec-tlec, e a gente com um sorriso bestalhão de espectativa na cara, pois nos dizem durante toda a subida que quando chegarmos ao topo tudo será melhor, diferente. Pois bem, eu cheguei ao topo, e sinceramente não gostei nada do que vi. E garanto que 99% das pessoas igualmente não apreciam, apesar de que destas, 90% esboçam um sorriso amarelado, e não perdem a tal da "esperança", mesmo sabendo que em momentos os trilhos entrarão em uma rota descendente vertiginosa, e tudo o que eles fizeram pra chegar até ali será esquecido numa fração de momento.
A cada ano os anos passam mais rápido. Já elaborei uma teoria a esse respeito (eu elaboro teorias demais): quando temos 2 anos, 1 ano é a metade de nossa vida. Quanto temos 10, a proporção já é de um décimo. Aos trinta, um ano não passa de 0,033333335 de vida. E contando. Entramos na fase dos anos dizimados.
Nunca vou ganhar um Nobel por essa teoria de merda.
É isso que eu percebi. Que quando chegamos ao topo e não achamos nada, perdemos a esperança. Eu cheguei ao meu topo. Daqui pra frente, nada mais. Não vou ficar rico, a não ser que eu ganhe na loteria, mas sou muito alto para isso. Não vou encontrar o amor da minha vida, pois ela já deve ter perdido a paciência de esperar que eu aparecesse e já está fodendo com outro. Sexo, a partir de agora, só por pena ou com prejuízo monetário. Filhos? Pra quê? Por que eu seria tão calhorda ao ponto de jogar mais inocentes nessa montanha russa sem sentido? Aliás, qual o sentido de uma montanha russa?
Não. Acabou. No meu caso, a esperança não é mais o que o dicionário prescreve.
Tirando, é claro, o inseto ortóptero locustídeo de cor verde, que deve ser massa.
Queria esmagar um desses com uma sandália havaiana surrada. E cuspir em cima do exoesqueleto.
E daí sairia na janela e gritaria: "Eu matei a porra da esperança que invadiu meu quarto!"
Deixaria o cadáver no batente da janela.
Como um aviso para que outras esperanças nem ousem se aproximar de minha vida.
Doutor, se vier com papinhos consolatórios e positivistas, solto um arroto de feijão no seu nariz e um peido quente no seu divã.
Esporrado por Zebedeu às
07:28
|
3.8.05
O Velho Bêbado
Doutor,
ontem, quando saí do trabalho, estava com uma vontade louca de encher a cara. Não, sem nenhum motivo além do habitual. Só estava a fim de me entorpecer, de entrar num estado de "foda-se" geral. E, não sei por que, não estava a fim de fazê-lo sozinho em casa. Por isso caminhei pelo centro até encontrar um bar. Não demorou muito.
O bar era também um restaurante, mas nada chique, pelo contrário. Era velho e novo. A parte dos fundos era velha e acabada. Tinha cara de pub, mas um pub que nem irlandês em dia de São Patrício gostaria de entrar. A parte da frente era nova. Tinha um balcão e tamboretes brilhando de novos, e a parede de ladrilhos brancos e pretos como num tabuleiro diagonal contrastando com a pintura verde-ânsia descascando dos fundos. Na frente, um monte de pós-yuppies afogando suas depressões em shakes de frutas e sanduíches de atum. No fundo, apenas um velho sentado numa banqueta. Sua posição era estratégica para assistir um tape de uma luta de boxe que passava na televisão pendurada na parede, mas ele não parecia realmente interessado nela. À sua frente, no balcão de madeira velha, uma garrafa de vinho tinto, um copo meio vazio, um maço de cigarros amassado e um cinzeiro lotado. Sentei ao seu lado. Cumprimentei-o com um grunhido vago. Ele, sem me olhar, resmungou.
Pedi ao garçom uma cerveja para começar. Ele me trouxe, mas antes de sair deu uma olhada meio furiosa ao velho. Devia estar lá há tempos. O velho não pareceu se importar.
- Quem está lutando? - perguntei, nem sei por que. Não gosto de boxe e nem de conversas. Mas aquele velho, não sei, parecia atrair um papo.
- Algum mexicano alucinado contra algum queixo de vidro do Brooklyn.
- Meu nome é Zebedeu.
Ele finalmente me olhou depois dessa. Seu rosto era marcado, rústico, quase deformado pelas rugas e cicatrizes de acne, que nem a barba de uma semana conseguiam esconder. Os olhos estavam embaciados e ébrios, mas ao mesmo tempo mostravam uma lucidez assustadora, mesmo atrás de um par de óculos muito grossos.
- Hank - grunhiu ele. Não apertamos as mãos.
- Gringo?
- Yeah, baby.
Agora eu notara o que ele estava fazendo. Com uma bic ele escrevia algo num guardanapo.
- O que é? - perguntei, apontando o guardanapo com o queixo.
- O Poema.
- Posso ler?
- Não.
- Por quê?
- Ainda não está bêbado o suficiente.
- Ah...
Virei a cerveja, e mandei trazer uma dose de uísque. Não, o mais barato, isso. Sem gelo.
- Agora eu gostei - disse o velho.
Tomei de um gole. Uísque vagabundo, desceu que nem uma gilete. Chamei outro.
- É escritor? - perguntei.
- Sou.
- Famoso?
- Pode crer.
- E o que você escreve?
Ele parou o Poema para pensar a respeito. Largou a caneta e coçou a barba. Depois entornou o resto da bebida e encheu novamente o copo.
- Contos. Romances. Poemas. Ah, e já escrevi o argumento de um filme.
- Hollywood?
- Yeah, baby.
- Sucesso?
- Poderia ter sido melhor.
- Qual o nome?
- A Dança de Jim Beam.
- Nunca vi.
Ele deu de ombros.
- E sobre o que você escreve?
Eu o importunara o suficiente para que ele desistisse do Poema. Retirou os óculos e esfregou os olhos enrugados.
- A vida, cara. A porra da vida. A minha vida.
- Eu também...
- É escritor?
- Não, mas escrevo sobre minha vida. Mas para ninguém ler, além do meu terapeuta.
- Nunca escreva para leitores. Escreva sempre para você mesmo. Leitores são todos uns imbecis que fodem com o pau dos outros. E por que você faz terapia?
- Ordem judicial.
- Putz. Eu preferia a cadeia.
- Tem dia que eu também...
Voltamos às nossas bebidas.
- Já fui poeta - eu disse. - No colégio.
- Dos bons?
- Não. Medíocre.
- Bom...
- Por que?
- Os grandes poetas morrem em penicos fumegantes de merda.
- Você é um poeta...
- Não. Eu apenas batalho O Poema. Me impede de enlouquecer.
Eu já estava começando a sentir os efeitos do álcool. Meu rosto estava amortecido, meus olhos enevoados. Pedi mais uma dose, quase engasgando com minha língua enrolada. Ele acendeu mais um cigarro. Na televisão mudaram o canal para o depoimento de um deputado numa comissão de algum tipo. Ele reclamou, mas foi ignorado.
- Merda de política. É o mesmo que foder cu de gato.
- Bebamos a isso!
Viramos nossos copos. Ele tornou a encher o dele. Eu abanei o garçom, acho que pedindo mais uma.
- Você não está no lugar errado para escrever?
- Como assim?
- Sei lá, parece estranho...
- Aqui tem bebidas?
- É um bar...
- Então é o lugar certo.
Passamos quase duas horas assim. No final estava tão bêbado que qualquer descrição minha seria imprecisa. Não que tivéssemos exatamente tido uma conversa realmente construtiva. Na verdade, mais bebemos do que falamos. O estranho é que ele emborcava uma atrás da outra, e sua garrafa nunca esvaziava. Mas eu posso ter ficado tão alterado que nem percebi o garçom trocando as garrafas. Sei lá. Lá pela meia noite saímos, um apoiando no outro. Paramos na porta. Ele me chamou um táxi. Perguntei se ele queria dividí-lo.
- Não, obrigado. Minha mulher está vindo me buscar. Ou assim espero.
- O Poema...
- Hum?
- Já estou bêbado o suficiente para ler o Poema?
- Meu amigo, você ainda tem muitos copos a beber antes de conseguir lê-lo. Eu que sou alcóolatra há uma vida inteira ainda não consigo completamente...
- Você os escreve...
- É. E eles são bons, pode acreditar. Mas é por isso que eu batalho neles. Você, bom, você ainda não está pronto. Volte pra tua terapia. Volte a escrever em teu computador. Quem sabe um dia?
- Velho filho da puta...
- Com um puta orgulho.
E assim foi. Fiz um monólogo ébrio ao motorista do táxi, que me deixou em casa sem dizer palavra. Subi para meu apartamento e caí na cama. Hoje, dor de cabeça e cabo de guarda-chuva.
E a sensação que eu desperdicei uma oportunidade de ouro. Não sei por quê.
Esporrado por Zebedeu às
07:57
|
1.8.05
O Encontro
Doutor,
eu subi por um elevador do tamanho de uma cabine telefônica. Espelho de um lado, câmera do outro, e eu no meio sem saber onde não olhar. Respirei aliviado quando a porta abriu e eu saí. No minúsculo saguão havia quatro portas. Toquei a campainha de uma delas. Um cachorro estridente disparou. Alguém grunhiu dentro do apartamento, xingou o cachorro, e destrancou a porta. Duas voltas. Abriu. Me reconheceu na hora. Era a primeira vez que eu o via.
Acho que passamos um minuto parados. O cachorro perdeu a paciência e disparou em direção à minha perna, mas apenas para cheirá-la. Olhei para baixo.
- Caralho, você tem um POODLE?
- É uma longa história - respondeu ele, aproveitando a quebra do anti-clímax. - Você quer entrar?
Dei uma sacada nele antes de entrar. Era alto. Devia ter um e noventa. Os cabelos longos rebeldes lutavam contra um elástico em sua nuca. A barba era de três dias, no mínimo. A barriga de trinta anos. A bermuda parecia uma relíquia oitentista. Estava descalço. Entrei.
O apartamento era pequeno, mas era novo, como o prédio. Pequeno burguês. Paredes cor de creme. Móveis pequenos para caber no espaço desproporcional ao habitante.
- Você mora sozinho? - perguntei, nem sei por que.
- Não. Minha mulher tá no quarto, dormindo...
- Puta que o pariu. Você é CASADO?
- Sou. Senta. E por favor, fala baixo. Minha filha pode acordar...
- Você tem FILHA? Merda, me arruma uma bebida!
Ele foi pisando pesado até a cozinha. Pegou duas latas de cerveja. Eu ia abrir a minha quando uma sombra caiu no meu colo. Quase vomitei as tripas. Era a porra de um gato.
- Um GATO PRETO? Cacete, isso aqui é um zoológico?
- É uma gata. Deixa que eu pego...
- Pode deixar. Só não deixa esse poodle chegar perto.
- OK...
Bebi a cerveja. Estava com um gosto estranho. Ele também achou. Levantou a lata e olhou o fundo. Xingou e levantou-se de um pulo.
- Tá vencida. Desculpe. Não costumo beber em casa...
- Você NÃO BEBE EM CASA?
- Não normalmente. Mas eu tenho uma garrafa de Chivas fechada. Vou pegar uma dose pra gente.
- Faz isso.
Ele foi, andando do jeito estranho dele. Era desengonçado com aquele tamanho todo. Cintura muito larga, ombro muito estreito. Parecia uma pêra gigante. Um pouco corcunda. Nada do que eu imaginava. Perguntou se eu queria gelo, e respondi que sim, uma pedra. "Que nem eu", reconheceu. Voltou em dois minutos com os copos. Dei uma bicada. Coisa boa.
- E aí? - perguntou ele, depois de também dar uma bicada.
- Eu que pergunto. E aí? Que história é essa?
- Não sei. Acho que eu te chamei...
- Não, eu só vim pra cá. Nem lembro como. Só lembro de ter aparecido na tua porta. O que isso significa?
Ele deu mais um gole: - Não sei bem. Pode não significar nada. Pode significar um monte de coisa...
- Puta que o pariu...
- Tá, desculpe. Sei que você não gosta de nada dúbio.
- Cara, eu sou a dualidade em pessoa. O Homem Dialética! E esse lance em si tá parecendo esquizofrênico demais, até mesmo para mim. Como é que nos encontramos, e por que?
- Como eu não sei. Por que? Talvez tenhamos atingido essa maturidade. Você, pelo menos. Talvez seja a hora.
- Para um ateu cético você parece ter um monte de explicação mística.
- Não se aplica a este caso. Pergunta pro teu analista.
- Pode deixar.
Dei mais um gole, e curti a queimação do malte em minha garganta. Cacete, não tomava um uísque decente fazia alguns anos. E aquele filho da puta ali, com uma garrafa inteira parada...
- Meu, eu só quero entender uma coisa - respirei. - Por que?
Ele pensou por alguns minutos. Suspirou, e quando o fez o peito de galinha se estufou um pouco.
- Não sei. Aconteceu um dia. Chamo isso de espasmo. Acontece de vez em quando, e não dá pra controlar. O problema é que na maioria das vezes acontece no trânsito, ou no trampo.
- Que é que você faz da vida?
- Eu faço programas...
- O QUÊ?!?
- ... de computadores. Não acredito que você caiu nessa piada.
Dei um riso. O primeiro da noite.
- O pior está por vir, e não é piada: trabalho numa seguradora.
Aí eu ri de verdade.
- Então é isso? Eu sou apenas uma válvula de escape pras tuas frustrações?
- Sim, no início. Foi por isso que não divulguei pra ninguém no começo. Depois, bom, depois virou um passatempo. Agora, já nem sei mais. E acho que é por isso que você está aqui.
Sacudi o gelo em meu copo. Ele entendeu a deixa e me serviu mais uma dose.
- Acho que não - disse eu, depois de mais um gole. - Acho que é outra coisa.
- Pode ser. Ou pode ser os dois. Você claramente assumiu uma proporção que eu nunca imaginei. Talvez esse seja o motivo de sua vinda. E, bom...
Ele respirou fundo.
- Depois o enrustido sou eu... - alfinetei.
- É, que moral eu tenho?
Virei o uísque e me levantei. Ele me acompanhou.
- Já vai?
- Já. Deu no saco. Cara, vou te confessar uma coisa: odiei te conhecer. Você é o maior babaca que eu já vi, e olha que a lista é grande. Sei lá, você me dá nojo.
Ele baixou os olhos.
- Bundão do caralho. Se tem alguma coisa a fazer ou dizer, por que não vai lá e faz ou diz?
- Olha quem fala...
- Se eu não falo, se eu sou uma granada de rancor e depressão com o pino encravado, é tudo sua culpa. E você, que desculpa tem?
- ...
- Vai se foder!
Saí pela porta cor de creme e entrei no elevador-paranóia. Não olhei para trás.
Doutor, o que isso significa?
Esporrado por Zebedeu às
08:28
|
28.7.05
As Vozes da Experiência
Doutor,
desde quando quebrar a cara é ruim? Desde quando aprender com os erros se tornou errado?
A gente aprende de pequeno, antes de qualquer coisa, o NÃO dos pais. NÃO põe a mão aí, moleque! NÃO faz isso, pô! NÃO faz aquilo, saco! NÃO mente! NÃO chora! NÃO caga! NÃO enche!
Quebrar a cara é a mais rica das experiências individuais. Aprendemos mais com isso do que com duzentos conselhos enxeridos. Ela fica marcada a nanquim e suco de manga no cérebro. Os neurônios se juntam, se mesclam, se excitam, e formam a Voz da Experiência.
Acontece que a coisa não pára aí. Vai crescendo, vai se transformando, e vemos o surgimento de dois fenômenos correlatos: a Voz da Experiência Compartilhada e a Voz da Experiência Traumática.
A Voz da Experiência Compartilhada é o tal conselho. É mais difícil de assimilar, mas aos poucos ela vai envenenando a Voz individual, e termina se agregando a ela, como um cancro duro num pau mole.
A Voz da Experiência Traumática é pior. É a Castradora Universal. Somadas, as três vozes produzem um encolhimento escrotal progressivo. O resultado é a Carapaça Impenetrável. Fechamos vidros, janelas, portas, olhos, mentes, e cus pro desconhecido, pro novo, pro diferente. O cérebro abre uma filial no umbigo. Nos forçamos a acreditar que vivemos em uma poça de areia movediça faminta, onde o menor movimento pode nos condenar. Ignoramos o fato que, se não nos mexermos, nunca sairemos dela. Mas, no medo de arriscar, ficamos estáticos, afundando lenta e inexoravelmente para o mesmo fim.
Eu costumava dizer que trauma é coisa de viado. Mas me nego. Para ser viado em uma sociedade homofóbica (mesmo com paradas arco-íris e o caralho) tem que ser muito macho. Tem que ser foda.
Não tenho moral nenhuma para fazer avaliações de caráter, e tampouco darei conselhos que contradizem minha linha de raciocínio. Se quiser conselho, vá enriquecer um escritor de auto ajuda.
Ou parta pro pau e quebre a cara. Brigar e perder é sempre melhor do que arregar.
E foda-se o filtro solar.
Esporrado por Zebedeu às
13:17
|
27.7.05
À puta que o pariu!
Doutor,
cansei de frescura. Cansei de meias palavras ou asneiras inteiras. Cansei de cu sujo e papel higiênico perfumado.
Chega uma hora que a gente precisa colocar certas coisas em perspectiva. Que coisas eu não sei, mas alguma coisa tem que ficar mais distante que a outra, no túnel retangular infinito da nossa vista prismática. Epifania. Pedofilia. Idolatria. Baixaria. Putaria Puritana e Feijoada Macrobiótica não descem nem com farofa de saquinho.
Cansei de ligar o rádio e ver político se explicando. Cansei de comentaristas explicando as explicações do político para nós, as bestas roubadas. Cansei de jingles inesquecíveis e tv's em pânico. Certo está o Trump, que esculacha, demite e ainda caga em dólar. O sonho do Justus não pode ser confundido com o sono dos justos.
Infame, sim, e daí? Pau no seu cu. Cansei de psiquiatras, que acham que são os guardiões da sanidade, e se masturbam com menininhas de meias três quartos. Cansei de divãs acolchoados e música new age. Tá louco? Vai pro tronco. Quinze chibatadas muçulmanas na bunda. Não melhorou? Apanha até o cabra parar de reclamar.
Todo mundo se acha deprimido. Todo mundo vive em crise existencial. Todo mundo cata meleca no trânsito, e esconde a catota embaixo do banco. Todo mundo diz que quer sexo, mas na verdade só quer comer a mãe. Freud era um bosta. Jung outro. Deviam ser amantes numa sessão espírita comandada pela mulher do Conan Doyle, só para serem espinafrados pelo Houdini.
Todo mundo quer ser rico. Eu não. Quero ser sustentado, só isso. Não quero ter que acessar banco pela internet. Não quero ver cifrão. Quero ver produto. Quero ter vontade de comprar uma televisão só pra quebrar, e não me preocupar com o preço. Nem com o babaca que estiver na trajetória dela quando atirar os escombros pela janela.
Quero parar na frente da gostosa da empresa, sacar o pau e grunhir como um macaco. E que ela levante a saia e me deixe enrabá-la sem vaselina ou KY ("Kié Ysso?", perguntou a bunduda). E iria gozar em quinze segundos, sem ter que me preocupar se ela também gozou ou não. Cansei de ritual de acasalamento. Cansei de me preocupar.
Cansei de chefe careca que compensa a vida brochada dando uma de Homem Caralho de Gravata. Vai foder sua avó. Vai tomar nas bolas. Amo o que faço, mas não faço o que amo. Na verdade, não amo. Amor, só de mentira. Amor é desculpa esfarrapada pra justificar o ritual anti-natural do casamento. Casamento é a morte do amor. A morte é uma solução viável. Covarde, mas os corajosos são uns idiotas. Gandhi? Otário. Dalai Lama? Cretino. Mandela? Preto velho de terreiro de macumba.
O que é que um macumbeiro pensa? Que um espírito pinguço vai ajudar? É a mesma coisa de dar a chave do carro prum mendigo, e ainda ter esperança de que ele te leve pra casa. Matar galinha preta em encruzilhada é racismo? Já enchi a cara com pinga de macumba, e vomitei nas velas. Sacrilégio de cu é rola.
Deu pra perceber que as férias acabaram?
Esporrado por Zebedeu às
10:55
|
12.7.05
Uma questão de semântica
Doutor,
sinto muito, mas desta vez a mensagem não é para você. Sim, é estranho, mas é isso aí.
O lance é que tenho recebido alguns e-mails a respeito deste blog. Já reclamei anteriormente sobre pessoas que vinham aqui apenas para beber um pouco de meu sofrimento testemunhal traduzido em frases mal construídas, mas aparentemente fui ignorado. Desta maneira, ao invés de lutar contra, vou responder à altura.
Recebo 2 tipos de resposta aos meus posts: elogios e reclamações. Como sou chato, primeiro responderei às reclamações. A maior delas é o uso da minha língua, digo, no sentido léxico. Dizem que abuso de palavrões desnecessários, que aparentemente são ofensivos demais para seus olhos e ouvidos puritanos. Assim, vou responder de uma maneira que vocês compreendam:
Prezados Srs.,
não se passa um dia sem que eu seja interpelado por Vossas Senhorias com críticas sobre a natureza perniciosa de meus escritos, assim como o tom vulgar e de baixíssimo calão empregado. Não vou me ater ao fato de que estamos em um regime democrático, e que apenas exerço meu direito de livre expressão, pois esta argumentação me parece deveras pedante e burocrática, e não pretendo incomodá-los ou ofender vossas inteligências simplesmente repetindo o óbvio. Vou, isto sim, declarar que, como já expresso anteriormente, este diário binário (binary log, ou blog) é destinado a documentar experiências extra-consultas com meu mui caro terapeuta, cujo nome abstenho-me de citar, por motivos éticos, sendo os textos de cunho pessoal, e protegidos pelo sigilo médico.
Expressa a natureza da citada mídia, é de estranhar que uma pessoa como vossa senhoria (sim, você mesmo) sinta-se ofendido com o conteúdo, visto que ele em momento algum foi criado para vosso deleite pessoal ou voyerístico. Não me interessa, em nenhum momento, analisar as causas que levaram vossa senhoria a adentrar meu singelo espaço, mas quero dizer que está o fazendo totalmente por vossa conta e risco, e à minha completa revelia. Desta feita, gostaria que vossa senhoria limitasse seus comentários a sua vida medíocre, e se preocupasse unicamente em resolver vossos próprios problemas.
E, se possível, vocês poderiam também inserir, com pouca delicadeza, seus respectivos falos em suas próprias cavidades anais. E também, se possível for, banhar-se em seus próprios excrementos e lavar o rosto em esperma.
Sem mais,
Zebedeu, aka Psicopata Enrustido
Agora, para os elogios:
Puta que o pariu, vocês são do caralho!
Doutor, semana que vem eu escrevo mais um capítulo de minha vida miserável para o senhor e para quem mais estiver a fim de compartilhá-la. Ou não.
Pau no cu.
Esporrado por Zebedeu às
17:13
|
8.7.05
Duzentos gramas
Doutor,
é, eu sei, dei uma desaparecida. A razão disto é inédita até para mim: estou de férias.
Sério! Não sei se quando eu voltar meu emprego ainda estará lá, mas a verdade é que eu estou há 2 semanas coçando o saco violentamente. Já encheu, sabe? Não que eu goste do trabalho, longe de mim, mas ficar sozinho por 14 dias tem sido um suplício. Já disse anteriormente: nem eu me agüento.
A boa notícia é que com o abono que eu recebi, deu pra acertar a conta telefônica. Agora tenho internet em casa, não preciso ficar pulando de cyber café a LAN House, nem disputar micro com nerd pobre.
E por que não escrevi nada até agora? Bom, porque só agora estou cansando um pouco de pornografia. Sério, doutor, foram quatorze dias de pau na mão. Visitei sites e mais sites de sacanagem de todo tipo. Gravei até um CD com o filme da Paris Hilton mandando ver no namorado. Sei que o doutor curte magricela que nem ela. Eu não gostei, pode ficar. Não que tenha recusado a punheta, mas não foi grande coisa. Valeu só pela sensação de invasão de privacidade (se bem que eu duvido que isso não tenha passado de um golpe publicitário da vaca...).
E o que me levou a escrever justo hoje? Bom, aconteceu uma coisa estranha de manhã, e acho que o doutor deveria saber. Sei lá, pra girar mais um eixo no cubo de Rubrik. Ou porque eu não tenho mais ninguém pra falar a respeito.
O lance foi o seguinte: acordei com um ímpeto de ir ao mercado. Não, não estou de brincadeira, é verdade. Eu tava começando a me achar um inútil de cuecas (o que não deixa de ser verdade) e tive um raríssimo impulso consumista. Queria comprar alguma coisa, só não sabia o que ainda. Então decidi ir ao mercado. Não, no shopping eu não vou. Aí é pedir demais.
Para mim, mercado é igual banho no frio. A gente nunca quer ir, mas quando está lá, até que se diverte. Gosto do cheiro do corredor de produtos de limpeza, meio pinho, meio cânfora, muito cloro. Gosto do corredor de papelaria, mais por impulso incompreensível do que realmente interesse. Não gosto do corredor de dietéticos, mas é lá onde encontramos as peruas mais gostosas. Nem chego perto da sessão de hortifruti. Não gosto de feira.
Pois eu estava comendo um pastel de 1 real horroroso, quando alguém gritou:
- Zebedeu?
Ignorei, é claro. Quem em sã consciência iria me cumprimentar com tanta felicidade?
- Zebedeu! - continuou o cara. - É você mesmo! Meu, a quanto tempo!
Aí não dava mais pra ignorar. Virei, e de cara reconheci o figura. Era um chato do meu tempo de colégio. Oitava série, se não me engano. Qual era seu nome? Não tinha envelhecido um dia. Devia ser assíduo do corredor de dietéticos. Respondi com minha habitual simpatia:
- Hummm...
- Cara, quanto tempo! Você não mudou nada! - mentiu. Odeio esse tipo de papo.
- É...
Ele aparentemente entendeu meu desprezo como um convite. Encostou o carrinho do meu lado, e sentou no banco. Não pediu pastel. Não ofereci um teco do meu.
- E aí, o que conta? - perguntou ele, empolgado demais. - O que você anda fazendo?
- Escorrendo a porra da vida, gota a gota.
- Ahahaha! Você continua o mesmo! Ainda está escrevendo?
- Só pro meu psicanalista. E eventualmente um e-mail de reclamação.
- E-mail?
- É. Você sabe. Correio eletrônico.
- Desculpe...
- Esquece. E você, o que tem feito? - perguntei, nem sei por quê.
- Não muito. Sabe como é, depois do que aconteceu...
- Não, não sei. O que aconteceu?
- Não te contaram? - sacudi a cabeça. - Fui assassinado. No dia seguinte à formatura.
É mesmo. Não lembrava disso. Foi num assalto neste mesmo mercado. O babaca tentou argumentar com os bandidos. Recebeu duzentos gramas de chumbo na cabeça como resposta.
- Sinto muito.
- Não, não sente.
- Verdade. Desculpe.
- Não precisa...
Era só o que me faltava. Encontrar um fantasma no mercado. Esse é o resumo da minha vida social, doutor.
- Sabe - começou ele - eu te admirava muito.
- Arrã...
- Sério! Eu adorava ler teus poemas. Eles tinham um toque imaturo, mas ao mesmo tempo eram cínicos e profundos. Lembro que não faltava em um de seus recitais. O que aconteceu com o povo que ia nos recitais do grêmio?
- Morreram todos. Bala na cabeça num mercado de bairro.
Ele riu.
- Você não muda...
- E isso é bom? Se for, você está ótimo. Continua por aqui, empurrando esse carrinho com, deixa ver, Amendocrem?!?, por quanto tempo?
- Doze anos. Mas eu não me arrependo. Sabe por que eu fui conversar com o bandido?
- Imbecilidade crônica?
- Não. Quando estava no chão com o resto dos clientes/reféns, pensei: "É isso! É essa a razão de toda a sua vida. Você precisa deter esse assalto, mas não como um herói de filme americano. Não, você vai iluminar a mente destes pobre-coitados com suas palavras".
- Pra você ver como funcionou. Virou estatística.
- É o que eu imaginei que você faria. Não me olha assim, é verdade! Eu tinha seus versos em minha mente. Sabia que seu cinismo, sua morbidez, eram apenas para escancarar o que há de ruim no mundo. No fundo, seus versos deixavam uma mensagem otimista. Você acreditava no mundo.
- E o mundo, o que fez? Revidou. E você morreu. Não, cara, esse lance é coisa de moleque. Eu dava uma de poeta pra conseguir mulher. Não tinha nada de profundo. Era merda, pura e simples.
- Triste ouvir isso. Tenho certeza que você queria mudar o mundo com seus versos, mas no final tua ironia acabou envenenando teu cérebro. O cinismo abstrato se tornou concreto.
- É. Não penso muito a respeito, e nem com essa profundidade, mas é isso aí. E você ajudou muito nisso.
- Desculpe.
- Foda-se.
Levantei e fui embora. Não comprei nada (apesar de ter ficado curioso se eles ainda vendiam Amendocrem) e vim pra casa.
Doutor, será possível que aqueles duzentos gramas de chumbo tenha matado duas pessoas ao invés de uma?
Se for assim, que vantagem tenho em estar vivo? O cara (que eu realmente não lembro o nome) pelo menos tem algo a se orgulhar, mesmo morto.
E eu?
Não, doutor, não vou levar nenhuma poesia na próxima sessão. Pode esquecer!
Esporrado por Zebedeu às
12:44
|
20.6.05
Pesadelo Prosaico
Doutor,
como prometido em nossa última sessão, aqui está uma descrição menos balbuciante de meu sonho (a fala seria uma forma perfeita de comunicação, caso houvesse uma tecla BackSpace):
Estava ela na minha frente. Não Ela, mas uma mulher genérica. Uma mistura de todas as mulheres que conheço ou conheci. Tenho certeza que minha mãe estava lá (pausa para duas piruetas suas, seu freudiano de merda!). Ela estava vestida. Não me peça para descrever, porque não saberia. E não interessa. O importante é que ela estava vestida. E eu nu.
Meu pau estava duro, numa ereção grotesca. Músculo, prepúcio, cabeçorra e veias pulsando assustadoramente, como um alienígena preso à minha virilha. Tinha vida própria. E eu era apenas a extensão de sua existência, a base com pernas que o locomovia, impedindo-o de ser um pau duro prostrado.
Ela olhava para ele, e sorria. Meio excitada, meio histérica, totalmente assustadora. De novo, não tinha nada a ver com a risada d'Ela. Não era escárnio. Não era desprezo. Era uma risada de antecipação. Ela QUERIA ser arrombada por aquela criatura cilíndrica de carne. Queria sentir suas entranhas preenchidas por ela, recebendo seus sucos no colo de seu útero, beijá-lo e engoli-lo com seus grandes lábios.
De repente ela estava nua. E a ereção se tornou dolorosa. Comecei a gritar quando ela tocou meu membro com seus dedos (unhas compridas, pintadas de vermelho. Clichê, não?). E eu não estava mais a fim. Estava doendo demais. Mas eu era um escravo daquele monstro. Eu não tinha vontade própria. E ele cresceu ainda mais.
E ela riu. Sua boca abriu num ângulo antinatural, como a de uma jobóia, e abocanhou meu pau como se fosse um bezerro. Sua cabeça se deformou inteira graças a isso. Sua expressão multifacetada se tornou uma caricauta, um arremedo humano, uma paródia com olhos injetados. E ela sugou avidamente. E eu já não tinha mais controle nenhum. A dor era imensa, mas a excitação também. Senti nojo de mim mesmo por me excitar com aquilo, mas como já disse, não tinha controle.
De repente a sucção parou. Ela retirou a boca, mas sua cabeça manteve a deformação, como se meu pau tivesse alargado seu crânio irremediavelmente. E ela veio, lentamente, lambendo meu corpo. E eu tremia. Quando sua imensa cabeça enluarada e disforme se aproximou de meu rosto, eu sabia o que aconteceria. A boca escancarou-se, mostrando uma mistura de saliva e secreções penianas pré-ejaculação. A língua era uma pústula verruguenta, e dançava ávida entre seus dentes. Aquela boca cobriu a minha cabeça inteiramente, e a língua pincelava meu rosto. Senti ânsias. Senti nojo.
Fiquei mais excitado.
Meu pau já estava maior que eu. Ele pulsava como um imenso coração, cuspindo porra de seu ventrículo encefálico. Ela tirou a língua, e me envolveu em seus peitos imensos. Eu, lambuzado de saliva, escorregava para cima e para baixo. Tentei me livrar daquele esmagamento, mas meus braços eram pequenos e inúteis como os de um tiranossauro. Tentei curvar o corpo, mas meus músculos estavam rijos e tensos demais.
Subitamente ela me libertou. Abri os olhos, apenas para ver que eu já não era mais um homem com pênis. Era um pênis com homem. E meus braços haviam sido transferidos para ele, que agarrou a mulher e puxou-a para si. Vi sua buceta imensa e alagada de secreções se abrir. Mais rápido do que eu pudesse imaginar, fui envolvido por ela.
Caos completo. Vai-e-Vêm na escuridão absoluta. Claustrofobia e afogamento.
Um choque elétrico percorreu todo meu corpo.
Não agüentando mais, vomitei.
Porra.
Foi quando eu acordei. Suado, gozado e tremendo.
Pronto, doutor, mais material para sua tese.
Divirta-se.
Esporrado por Zebedeu às
08:32
|
13.6.05
Interlúdios Noturnos
Eu sentei no canto da cama. Era madrugada. Estava quente. Tirei a cueca empapada de suores e sucos penianos. Sonho pornográfico, como sempre. Peguei meu pau novamente flácido e sorri para ele, que, exausto, ameaçava se esconder na mata pubiana de minha virilha.
A janela estava aberta, e o ar frio da noite poluída invadia minha privacidade. Gostaria de dizer que apenas as estrelas e a lua haviam sido as testemunhas de minha polução e de minha nudez, mas estaria sendo desnecessariamente poético. Mesmo porque não havia lua nem estrelas no céu poluído. Não, ninguém havia presenciado meu tesão noturno. Nem mesmo eu, que na verdade já esquecia o sonho como se ele fosse apenas uma névoa de bituca em meu cérebro. Não que fizesse diferença, era mais um sonho, como tantos outros.
Meu corpo estava amortecido o suficiente para que eu não pensasse nele. Minha boca entreaberta não dizia palavra. Estava seca como minha alma perdida. Meus olhos estavam tão remelentos que era uma esforço mantê-los abertos, mas em meu torpor não me importei. Era um cadáver insone.
Sem razão aparente, caí num choro agoniado. Apenas meu rosto se franziu com o irromper das lágrimas. O corpo permaneceu imóvel, exceto pelos espasmos pulmonares necessários para emitir gemidos angustiados. Não queria cobrir meu rosto. Não tinha vergonha de minhas lágrimas, pelo contrário, queria espalhá-las ao mundo, como uma chuva de canivetes agridoces. Queria que cada alma, cada condenado, cada filho da puta desse mundo recebesse uma gota dela. Que as ruas se inudassem de minha tristeza sem nome ou razão, mas nem mesmo consegui inundar meu próprio colo.
As lágrimas secaram, mas eu insisti no choro seco. Com a unha do polegar apertei a pele branca de minha coxa, até que ela se rompesse e o sangue fluísse. A dor foi excruciante, maldita, divina, libertadora. As lágrimas voltaram a correr por alguns segundos, mais pela dor física do que emocional, mas secaram novamente logo em seguida.
Espalhei o sangue que escorria pela perna. Era pouco, mas suficiente para tingir minha pele com um tom inicialmente róseo, e depois escarlate coagulado. Com a mão ainda suja usei-o como tinta para uma máscara de palhaço. Pintei cruzes sobre meus olhos, e um grande sorriso sangrento emoldurando minha boca.
O sangue parou de jorrar pela ferida. Era superficial e insignificante como minha angústia sem objetivo. Ergui-me.
Deixei o vento noturno lamber meu corpo, secando suor, sangue, lágrimas e porra numa casca impenetrável, uma armadura biológica para quaisquer males que venham de fora. Era minha concha, minha carapaça, minha crisálida com cara de palhaço. E eu era um Louva a Deus ateu, esperando a decapitação pós-coito que nunca virá.
Doutor, eu odeio o dia dos namorados.
Esporrado por Zebedeu às
09:30
|
6.6.05
Matinais
Sabe, doutor...
Você não sabe nada.
Eu não sei se você sabe que não sabe nada, ou somente é um ser safardana que só se sai sem sutilezas.
Hoje estou cheio de esses.
E efes.
Foda-se o fodido do fulambento do falsário que ferrou a fumbica do fumeta.
A vida é um sufixo lento e repetitivo, sem artigos ou preposições.
Sem sentido? Foi foda.
Você entendeu?
Eu não tenho remédio.
Apenas frases ambíguas.
Quer saber?
Estuda.
Esporrado por Zebedeu às
10:46
|
27.5.05
Sexta Feira do Escritório do Bem e do Mal
Doutor,
faz tempo que não escrevo nada, não é? Pois é, como eu disse pra sua secretária quando cancelei a consulta desta semana, o trampo engrossou. Trabalhei mais nas duas últimas semanas que nos últimos dois anos.
O que aconteceu? Bom, pra começar houve dança das cadeiras na diretoria, e tá todo mundo querendo provar serviço pra fugir de um possível corte. Eu inclusive. Não gosto desse trabalho, preferia ter outro meio de me sustentar (como viver de pensão do governo ou de uma mesada de uma velha rica), mas não é o caso, e eu tenho que acompanhar o ritmo, senão vou pra rua. E já foi difícil encontrar uma empresa que me suportasse (costumo dizer que não confio em empresas que me contratam).
Mas se fosse só por isso, até que estava tudo bem. Trabalhando sem parar livra a mente de pensamentos mórbidos. E eu estou até dormindo bem. Mas desgraça nunca vem desacompanhada, não é? Pois bem, vamos a elas:
Primeiro, a chuva da quarta feira. Ô dia pra me foder! Precisava entregar duas dúzias de serviços que realizei (mal e porcamente, mas e daí?), e cai aquela chuva. A garagem do meu prédio alagou. Meu carro virou navio de aquário. Acho que vai ser perda total. Deu o maior desespero ver ele boiando na garagem. Só parou de navegar quando bateu num pilar, amassando toda a lateral. Chamei o porteiro pra perguntar por que não haviam me avisado, para que eu pudesse retirá-lo a tempo, e ele disse que tentou, mas ninguém atendeu o interfone.
É claro que não atendi! Meu interfone está quebrado há 6 meses! E toda vez que peço pra consertarem, eles dizem que irão "naquela semana", e nunca aparecem! Ah, mas desta vez eu tiro o sangue do condomínio! Eles que esperem o oficial de justiça. Ou um gato morto pregado na porta do síndico.
Não consegui nem sair de casa naquela manhã. Meu quarteirão alagou inteiro. Voltei pra casa pra dormir mais um pouco, mas não consegui, pois meu supervisor foi o único a conseguir chegar no escritório, e ficou me telefonando até que eu pudesse sair, me xingando de um monte de coisa. Xinguei de volta o filho da puta! O que ele queria, que eu pegasse uma leptospirose só pra poder entregar o serviço a tempo? Ele que se fodesse!
Consegui chegar no trampo depois do almoço. De ônibus, pois meu salário não consegue pagar nem um táxi. Fiquei até as dez e meia no escirtório, e não consegui finalizar tudo. Meu supervisor foi pra casa às 18hs, e me ligou às 21hs, dizendo que se eu não terminasse tudo, teria que vir no feriado.
E estou aqui agora. Não quero trabalhar, por isso decidi escrever para você. Lá fora está fazendo um sol de fazer inveja a baiano. E meu supervisor deve estar em Angra, bebendo cerveja e olhando bundas de bikini. Filho da puta sem mãe...
Vou ficar por aqui, então se você ler isso, me dá uma ligada. Isso se você tiver tempo entre um chocolate quente e um uísque aí em Campos do Jordão, seu corno barrigudo.
Esporrado por Zebedeu às
13:40
|
20.5.05
Desabafo
Doutor,
hoje eu não estou legal.
Estou com vontade de quebrar tudo. Cometer uma chacina. Ficar sozinho numa loja de lustres com um pé de cabra. Encher de porrada o primeiro filho da puta que olhar na minha cara. Queria rasgar minhas roupas, ficar pelado que nem bicho, apenas sacudindo meu pau mole para quem quisesse ver. Me descabelar, rosnar, salivar, rolar na sujeira, encobrir meus feromônios com minhas próprias fezes.
Hoje eu dormi na cozinha. Por quê? Pra não me matar. A maioria dos suicídios ocorre no quarto. Outros tantos no banheiro. Alguns na sala. Mas nenhum na cozinha. A cozinha é o templo da sobrevivência. Dormi no chão frio, nu e desconfortável. Minhas costas vão se lembrar desta noite o final de semana inteiro. Foda-se. A dor é libertadora. Nubla a mente, elimina distrações, entorpece melhor que qualquer droga.
Não me barbeio há uma semana. Banho, o último foi na terça. Meu corpo é uma mistura de odores corporais ressequidos com desodorante vagabundo. O Jeremias não recuperaria as garotas perdidas só com desodorante, e eu sou prova disso.
Levantar foi um suplício automático. Minhas juntas estalavam como se eu tivesse ficado naquela posição por meses, e não horas. A nevralgia nos músculos quase atrofiados limitam meus movimentos. Minha nuca dói. Minha epiderme se tornou um invólucro morto de um monstro que ameaça rasgá-lo a qualquer momento, e sair por aí em carne viva assustando, enojando, matando, destroçando.
O cara na baia da frente faz aniversário hoje. O ritual hipócrita de cumprimentos já dura meia hora. De mim ele só vai ganhar um risco na lateral de seu carro, fundo o suficiente para ser notado, mas raso demais para justificar uma funilaria. E vou mijar na maçaneta.
Não tenho nada contra ele, doutor. Nem o conheço direito. Só vou puní-lo por atormentar minha depressão com sua felicidade anual. Odeio pessoas felizes, principalmente nesses dias.
Quero beber. Quero fumar. Quero rasgar o cu de uma patricinha, arrancar lágrimas de seus olhos maquiados, espremer seu cérebro como uma espinha. Gozar em sua amígdala e engasgá-la com meu prepúcio. Depois deixá-la ao léu, meio traumatizada, meio envergonhada por ter curtido tanto o estupro. Bicho insensível que sou, guiado por instinto e hormônio.
Doutor, "Bipolar" é teu cu de viado, que tem mão dupla.
Esporrado por Zebedeu às
08:28
|
9.5.05
5 contra 1 (E não é bronha!)
Doutor,
sou corintiano. Assumo.
Tá, e daí, você me pergunta? Bom, em primeiro lugar porque realmente gosto de sofrer. Muito. E não tem time melhor que esse pra sofrer. Por quê? Bom, eu poderia torcer pra Portuguesa, XV de Piracicaba, etc, mas esses times não tem a menor chance de ganhar nada. O Corinthians tem. E cada vez que toma um chocolate desses, o corintiano sofre por dentro. E eu curto isso.
Deixa eu explicar, que não está muito claro: odeio futebol. Não vejo a menor graça em assistir 22 marmanjos iletrados correndo atrás de uma bola (nem vou mencionar o quanto eles ganham, que daí minha raiva me impossibilitaria de escrever essas linhas). Acho um jogo besta. Não me dá o menor tesão perder duas horas assistindo isso.
Mas confesso ser corintiano.
Não por obrigação social. Torcer para algum time já quase faz parte do RG: Zebedeu, 32, paulistano, corintiano, macumbeiro, etc. Mas eu não me declaro corintiano por essa razão, mas por uma constatação simples: odeio corintiano. Odeio ver aquela corja barulhenta pulando que nem macacos (sem preconceito aos macacos, bem entendido) e gritando que nem uns trogloditas protegendo uma poça d'água barrenta. São fanáticos cegos e ignorantes (pleonasmo?), sem a menor idéia do que os move em sua paixão.
Primeiro, torcedor em geral é chato. São uma cambada de frustrados sem vida própria, gozando com o pau dos outros. Que adianta em minha vida saber qual era o ataque do Íbis em 1943? Ou saber narrar todos os gols do João Melancia? Ou gastar dinheiro com o DVD "Pelé Eterno"?
É paixão, sem maiores explicações. Em meu último texto falei sobre a mistificação do sexo. Pois bem, o sexo até fica mais fácil de compreender em comparação à mistificação do futebol, seja aqui, país miserável sem outra válvula de escape para as massas, seja na rica Europa, com seus Hooligans e outros malucos. É uma paixão absurdamente absurda, que chega a ser até... interessante?
Sei que já devem existir estudos sociológicos a respeito, e não estou interessado. Sou um egocêntrico, não quero saber da opinião alheia. Formulo a minha, e foda-se.
Dentre os torcedores brasileiros, o corintiano se destaca. Ele é o que mais sofre. O que mais chora. É o que mais mata e morre pelo time. Dois exemplos:
- O cara que foi flagrado pela TV no alambrado do jogo de ontem, gritando: "Tira o curíntcha daí! Não faz isso com o curíntcha!", e que continuou a ladainha mesmo sob borrachadas impiedosas da polícia.
- Aqui no trampo tem um cara que é o típico corintiano. Até com jaqueta e gorro com o símbolo ele vem trabalhar. Fala um português risível, daqueles de fariam o Pasquale se enforcar numa corda metafórica. Pois bem, ele NESTE EXATO MOMENTO está chorando como uma menina no banheiro, depois de ouvir as brincadeiras impiedosas dos colegas. Se continuarem, não duvido que ele arrume uma arma e saia atirando em todo mundo. Ia ser legal.
Não é fascinante? O primeiro eu não sei, mas o segundo é casado, pai de família, tem carreira e outros interesses, e sofre como se tivesse perdido um parente depois de uma derrota sem a menor importância! Isso é maravilhoso em sua obscuridade! Acho que se alguém perguntar por que ele está chorando daquele jeito, nem ele saberá explicar! É algo tão bizarro, tão fantasticamente irreal, que é impossível não se comover!
E é por isso que me digo corintiano. Por odiar e admirar os corintianos desta maneira. Que outro time poderia me trazer tamanha contradição? Que outro time consegue despertar tanto amor e tanto ódio?
Doutor, que time é teu?
Esporrado por Zebedeu às
08:18
|
2.5.05
Sexo? É bom, mas...
Doutor,
hoje quero falar de sexo. Não com você, bem entendido. Mas de relações sexuais consensuais entre seres humanos.
Por que damos tanto valor a ele? Sério, pensando friamente. O que há de tão importante na troca de fluidos corporais por vezes nojentos (nada tira da minha cabeça que a porra não passa de catarro do pau). Que merda de vida é essa que levamos onde o ato mecânico e hidráulico entre dois adultos pelados é tão valorizado, sendo que a metade da população passa pelo menos metade da vida perseguindo isso, e a outra metade falando a respeito?
É só ver a profusão de programas a respeito que pululaam na televisão. Não, não acredito que esses programas tenham aparecido porque estamos fazendo mais sexo, ou que a coisa tenha liberado de vez. Acho que é um fenômeno exclusivo da mídia, que de uns tempos pra cá está experimentando uma liberdade que desde a queda da ditadura eles tinham certo receio que usar, seja por medo, seja pela influência retrógrada de nossos brothers republicanos e reacionários.
O caso é: se fala muito a respeito de algo básico. Fora bactérias, protozoários, bacilos e algumas criaturas hermafroditas, TODO MUNDO faz sexo! E quando digo todo mundo, é TODO MUNDO mesmo! Acho que existem criaturas que nascem sem saber direito o que está acontecendo, mas uma coisa elas sabem por instinto: é melhor trepar muito, ou então sua espécie pode se extinguir.
No caso dos animais não-humanos, é válido que eles pensem assim. O macho-padrão tem como função espalhar seus genes o máximo possível, pois é a única maneira de evitar a extinção: fazer mais filhos do que os predadores consigam devorar. Mas e os animais-humanos? Nós, em teoria, já passamos dessa fase há algum tempo. Com exceção de alguns grupos religiosos fanáticos, não fazemos sexo apenas para procriação. O lance é diversão pura e simples. Que nem se lambuzar de sorvete um dia quente, ou peidar na almofada do sofá.
Então por que a gente complica tanto?
O sexo ficou tão valorizado que as mulheres já descobriram que podem utilizá-lo como moeda de troca. Pode perceber: mulher não abre as pernas antes de ser cortejada, seduzida, convencida que você vale a pena. E os homens, babacas que são, caem no jogo. Compram flores, presentes, jantares caros, falam palavras doces e declamam versos. Tudo isso pra poder preencher a cavidade pubiana delas.
Cansa, doutor. Se você reunisse um grupo de mil homens, e perguntasse se eles REALMENTE preferem passar por toda essa "entrevista", te garanto que pelo menos 90% prefeririam pular pro básico: "Oi, meu nome é Fulano. Quer dar uma trepadinha sem compromisso?", e receber de resposta um mero "Topo!", ou até mesmo um "Oba!". Sem poesia, sem luz de velas, sem gastar uma fortuna.
Um cara aqui do escritório está beirando os quarenta, e sempre que alguém pergunta quando ele vai casar ele responde: "Pra quê? Pago uma puta por semana, e é muito mais barato e divertido que casar!"
Doutor, ele está certíssimo em sua lógica chauvinista! Ele virou o jogo. Colocou o sexo no seu devido lugar, como um commoditie a ser aproveitado sem culpa, peso na consciência ou conseqüência emocional exagerada. É pinto na buceta, vai e vem, esporrada, e rua! Não tem que pensar muito a respeito. Não tem que analisar, filosofar. Tem que fazer!
Sei que isso pode parecer chocante para um freudiano obcecado pelos peitos de sua mãe como o senhor. Mas talvez eu tenha chegado num ponto de maturidade onde já passei da fase do "Bom mesmo é sexo!" (parafraseando Veríssimo). Talvez eu tenha chegado num nível hormonal tal que o sexo tenha perdido sua importância obscura, e chegado ao patamar de simplicidade que merece, sem mais nem menos importância do que se alimentar ou dormir um pouco.
Ou talvez seja porque eu estou com o pau embutido no saco nessa manhã fria.
Esporrado por Zebedeu às
07:20
|
