Doutor,
a melhor maneira que encontrei de iniciar um de meus relatos semi-biográficos-calcados-no-absurdo sempre é localizá-lo em um bar. É, este é um daqueles. Tem quem goste, tem que odeie, tem quem está pouco se fodendo. Me incluo no último grupo. Então, estou num bar. A cena típica. Bunda no tamborete, cotovelos no balcão, uma cerveja amornando à minha frente. Imagine você mesmo a decoração e a música ambiente (embora eu sempre imagine um velhinho sentado em um piano de cauda tocando bossa nova, mas espero que Jung explique essa). Pouco importa. É aquele momento típico de reflexões incongruentes. Neste momento sento-me ao meu lado.
- Começou?
- Claro. Achou sinceramente que ia permanecer incólume nesta situação?
- Tinha esperanças.
- Já era.
Pedi um uísque. Espero que eu tenha dinheiro para pagar. A bebida chega e tomo um trago, estalando a língua. Aproveito e acompanho-me com um grande gole do chope morno. Sabia que ia precisar.
- É esquizofrenia ou múltiplas personalidades?
- Não sei. Pode ser uma reação ao álcool e os tarja pretas.
- Seria pedir demais uma simples overdose acidental?
- Claro.
Terminei o chope e empurrei o copo, indicando que queria um refil. Eu ia precisar, pois logo em seguida sento-me do meu outro lado.
- É uma convenção?
- Acho que não. Só se for de egos.
- Não tenho um ego tão grande assim.
- Tem. Um superego.
Peço um gin tônica. Por que fiz isso? Sempre odiei gin tônica!
- Não odeia, não. Pensa que odeia. Mas no fundo gosta.
- Acho que tenho que acreditar.
- Não, não tem.
- E o senhor, vai querer alguma coisa?
Levanto o rosto para xingar o garçom, mas o garçom sou eu.
- Até tu, brucutu?
- Hein?
- Eles eu até esperava. Mas e você?
- Sou apenas uma auto-referência egomaníaca. Vai beber o que?
- Tem cianureto?
Eu ri. Quatro vezes. E me servi mais um chope.
- Qualé o papo?
- Quem começa?
- Quer um guardanapo?
- Pra quê tantas perguntas?
Observo uma bunda apertada numa calça jeans passar enquanto checo as horas, lavo copos e sinto vontade de fugir correndo.
- É só comer e jogar fora.
- É só se degradar por conta de uma boceta insignificante.
- O segredo da vida está no colo de um útero. Ou no fundo de um copo de tequila.
- Ai, meu saco...
- Que foi?
- Ele quer que falemos alguma coisa útil ou pulemos fora.
- Odeio usar gravata borboleta.
- Odeio vocês.
- Claro que odeia.
- Pega o telefone e liga pra alguém. Alguém especial. Alguém que mereça dividir sua vida com você.
- Essa pessoa não existe.
- Não ouça o que ele diz. Você sabe que existe.
- Eu já encontrei a pessoa ideal...
- Ninguém está falando com você. Traz mais uma dose.
- Imagina você estrangulando a vida dessa vadia pouco a pouco. Beijando seu último suspiro.
- Não tem suspiros. Serve amendoim?
- E qual o sentido de matá-la? O que eu ganharia com isso?
- O que você perderia?
- Viu? Até ele concorda.
- Psicologia reversa.
Bato a cabeça no balcão. Quatro vezes. Quando levanto ainda estou lá, me cercando.
- Cadê a porra da minha cerveja?
- E meu uísque?
- E meu gin?
Eu fico meio perdido. Daí arranco a gravata borboleta e confidencio comigo mesmo:
- Nada disso é necessário. Você sabe o que é necessário. Sabe o que tem que fazer. Pare de dar ouvido a contradições. Levante e aja. Chega de se dissociar. Seja. Chafurdar em autocomiseração não adianta nada. Você é um bosta, mas até aí todos somos. Levanta essa cabeça e manda todo mundo tomar no cu. Agarre a vida pelo pescoço. Olhe para ela bem no fundo de seus olhos e beije-a na boca como se fosse a última vez. Talvez seja. Nunca se sabe. Não racionalize. Não perca tempo com elocubrações. Cale-se e ouça. Olhe em volta. Você está sozinho. Sempre esteve e sempre estará. É com você. Foda-se. Enfie cerveja, uísque e gin no rabo se quiser. Não adiantará nada e não trará sentido algum. E para mim chega. Estou fora.
- Eu também.
- E eu.
Partimos. Um para cada lado. Só eu fiquei.
- E quem vai me servir mais um chope, cáspite?
2.7.08
Autossomia Dissociativa
Esporrado por Zebedeu às
15:28
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