Doutor,
é triste olhar no espelho e ver meu rosto.
Desagradável.
É como se cada ruga, cada reentrância, cada cicatriz, cada fio de cabelo branco em minha têmpora contasse uma história melodramaticamente trágica. Uma história que nunca tem final feliz. E que fica ainda pior ao descobrir que tudo é por minha culpa. Por culpa de minha inação, de minha falta de culhão para tomar a decisão certa na hora certa. Cada marca profunda na minha pele espelha um vacilo, uma resolução covarde, uma cagada em minha vida.
Por que precisamos nos tornar escravos de nossas decisões? Por que nunca aparece alguém e te diz que esta ou aquela decisão específica vai esmerdear o resto de sua vida? Seria tão mais fácil acreditar que existe um velho barbudo sentado num cúmulo de algodão e que planeja a vida de cada um a seu bel prazer. Expiava a culpa por uma atitude equivocada que culminou em uma hecatombe incontrolável.
Mas não existe o tal velhinho. E a gente tem que aprender a lidar com as conseqüências das decisões que nossos cérebros limitados tomam. Por mais que doa, por mais que machuque. E não tem jeito, sempre que tomamos uma decisão crucial na vida ficamos imaginando como seria se tomássemos outra direção. Será que fizemos o certo? Como podemos ter certeza de que a merda que estamos afundando neste momento não é melhor do que uma possível caganeira na outra opção?
E como viver com essa dúvida?
No espelho estilhaçado meu rosto parece uma caricatura desenhada por um Picasso bêbado.
E os cacos fincados em minhas falanges doem.
Mas não mais do que minhas entranhas.
Merda de vida.
Merda.
23.2.07
Estilhaços
Esporrado por Zebedeu às
14:56
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15.2.07
Quase um dia de fúria.
Doutor,
eu tava na minha. Juro. Não mexi com ninguém, não atrapalhei nada. Continuava apenas um carrapato sugando meu salário miguado da empresa, gota a gota, imperceptível no meio da pelagem pubiana do meu departamento. Poderia permanecer lá indefinidamente, incólume nesta relação parasitária.
Mas não tem jeito. Não tem. É só você achar que finalmente alcançou uma zona de conforto e parece que o universo conspira para te arrancar dali. Universozinho do caralho...
Começou com uma bobagem. Alguém precisava de um favor. Todo mundo no departamento se fingiu de ocupado. Caiu no colo do idiota aqui. Mas era coisa simples, até eu conseguiria resolver sem problemas. Topei. Sempre me esqueço que a Primeira Guerra Mundial começou com um único tiro num arquiduque insignificante. Aposto que o imbecil que apertou o gatilho não tinha noção do tamanho da cagada que ele estava fazendo até que fosse tarde demais. Então, foi assim comigo.
O probleminha foi logo resolvido. Mas tal qual uma pedra cheia de limo que é movida de seu descanso milenar desvelou uma infinidade de baratas, percevejos, aranhas e toda sorte de inseto asqueroso e peçonhento que até o momento todos simplesmente ignoravam a existência. O probleminha se tornou de repente um furacão de merda. E é impressionante a velocidade que os não-envolvidos no problema desaparecem de uma hora para outra, deixando a bomba inteira para estourar na minha mão. Não tinha jeito. A arapuca fora armada. E eu estava preso nela.
Além de ter que agüentar gerentes e supervisores histéricos e incompetentes, tive ainda o prazer de ver o cliente envolvido na fuzarca, na figura de um casal para lá de caricato. Ele um tampinha atarracado com cara de fuinha e que só conseguia falar merda. Nada de útil saía daquela coisinha ridícula. Mas no meio do turbilhão até as imbecilidades são levadas em conta. O pânico elimina os filtros racionais. Tudo é incêndio. E aquele tampinha era um incendiário nato!
Já ela era um caso a parte. Alta, maior que eu, mas com aquelas caras de criança eternamente assustada. Sua voz era uma coisinha irritante, insuportável. Parecia uma criança de oito anos com problemas de dicção. E tinha uma tendência incontrolável para o desespero completo. E em seu desespero falava sem parar. Junte aquela vozinha insuportável (que faria qualquer sonho erótico se transformar num pesadelo pedófilo, independente do tamanho da cavala) com uma mania simplesmente irritante de entremear cada frase com um "ZÊ!" e imagine o meu desespero! Era algo como "Blá-blá-blá-ZÊ!-blá-blá-blá-ZÊ!-blá-blá-blá-ZÊ!-blá-blé-bló-ZÊ!".
Em pouco tempo todo aquele falatório desordenado simplesmente se transformou num ruído rosa. Algo mais irritante que microfonia, como aquele barulho de televisão fora de sintonia, mas no último volume. Comecei a suar frio. Não dava mais para pensar em qualquer tipo de solução para o problema original. Meus dedos tremiam. Meu estômago se revirou em duas cambalhotas que quase me fizeram despejar o almoço no teclado. E o ruído não parava. Não parava. NÃO PARAVA!
TUM! Soquei o tampo da mesa. O ruído não diminuiu. TUM! Bati de novo, com mais força. Minha mão doeu. Não adiantou. Comecei a murmurar entre os dentes rilhados: Cambada de filhos duma puta incompetentes... bláblábláZê!bláblabláZê!... Vou pegar essa sua cabecinha de pigmeu e enfiar no cu dessa girafa histérica... bláblábláZê!bláblabláZê!... Depois vou cobrir sua cara com tantos tapas que até minha mão vai sangrar... Zê!bláblábláZê!bláblabláZê!... Quebrar cada osso do teu corpo com as próprias mãos... bláblábláZê!bláblabláZÊ!!... Arrancar de uma vez a criança chorona de tuas cordas vocais... ZÊ!bláblábláZÊ!bláblabláZÊÊÊ!... Chutar teu corpo retorcido até não sobrar nada além da PORRA de uma POÇA de SANGUE e ÓRGÃOS ESFACELADOS, que vou ESPALHAR com TANTO GOSTO pela SALA INTEIRA que até o LEGISTA vai ter problemas para RECONHECER SEU CADÁVER COMO ALGO HUMANO!
Eu não tinha percebido que meu murmúrio havia se transformado em urros até que vi as caras de assustados do casal bisonho. Silêncio. Não desviei o olhar. Minha respiração estava acelerada, assim como meus batimentos cardíacos. Eles então pediram desculpas e se retiraram. Não os impedi. Fim da interferência. Um minuto para me acalmar e em mais cinco todos os problemas estavam resolvidos.
Na mesa do lado da minha uma morena me olhava como que lendo minha alma. Pisquei um olho confidente para ela. Ela me sorriu em retribuição.
No final das contas foi um dia bom, doutor.
Melhor do que a maioria.
2.2.07
Delírios Misantrópicos
Doutor,
olhe em volta. Não interessa onde esteja, se é no seu consultório, no ponto de ônibus ou parado no trânsito que não transita. Olhe, abra os olhos e veja. Esqueça os adereços. Veja as pessoas. Elas mesmo. Agora apure seu olfato. Sinta o cheiro da mediocridade, da insignificância destas máquinas processadoras de merda. Veja, cheire. Agora ouça. Sim, ouça. Escute o que eles tem a dizer. Este não é o seu trabalho? Escute a profusão de cretinices vomitadas por seus cérebros subutilizados. Racionalize a respeito. Veja eles de fora. Perca a curiosidade, enxergue-os como realmente são: uma multidão de hamsters treinados rodando suas rodinhas indefinidamente. Uma corrida para lugar algum. Uma corrida que se justifica em si própria. Saboreie agora a bílis subindo em sua garganta em conseqüência do inevitável asco. Ignore o tato. Você não quer tocar essas criaturas repugnantes. Lave as mãos obsessivamente e calce um par de luvas.
O mundo gira em volta de minha mesa. Gira como a roda do hamster. As pessoas correm de um lado para o outro e não saem do lugar. Vivem no ponto morto. Respiram seqüencialmente sem ao menos pensar a respeito. Movimento involuntário é ereção. É peido na madruga. Para respirar todos nós deveríamos pensar a respeito. Descobriríamos que só fazemos isso por medo. Medo de morrer. A máquina fabricante de merda não quer se tornar seu subproduto tão cedo. Inspira. Expira. Agora arrota.
Seres humanos são nojentos.
Você é nojento, assuma. Uma máquina que excreta muco, fezes e suor. Que liga palavras em frases mal feitas e frases em idéias idiotas e idéias em argumentos repetidos exalados por entre o vapor de sua saliva. Um papagaio com mais memória cognitiva. Bela merda, bela merda. Tó, um biscoito para você. Agora me conta uma piada suja.
Não lembra de nenhuma piada? Então inventa uma agora. Não consegue, não é? Quem inventa as piadas? Em algum lugar deve haver um celeiro com dois mil macacos datilógrafos. Não, eles não conseguiram reproduzir a obra completa de Shakespeare ainda. Mas já fabricam as piadas. Fabricam e as jogam em nosso celeiro. E nós as repassamos aleatoriamente, ferramentas para escancarar nossos defeitos mais óbvios. Somos roteadores de merdas atiradas por macacos datilógrafos com espírito crítico mais afiado que o nosso. E nós não estamos nos tornamos também uma legião de macacos datilógrafos? Saber usar um mouse não é vantagem para quem vem com polegares de fábrica. Quero ver você descascar uma banana com o pé. Isso sim é foda.
Darwin estava enganado. Se estivesse certo nós já estaríamos extintos há milênios. A criatura mais desprovida de ferramentas naturais de sobrevivência, mais propensa ao ócio que a maioria dos hibernantes, que dorme um terço da vida útil e dois da inútil. Que não tem couraça, pelagem, garras, presas ou visão infravermelha. Em algum momento alguém trapaceou e aqui estamos nós, seis bilhões de criaturinhas patéticas que se acham donos do mundo. O mundo nunca pediu por um dono. Muito menos seis bilhões. Essa pedra que circunda aquela bola de fogo é alheia a nossa presença. Só gira e gira em seu movimento centrífugo regular pois em algum momento uma série de coincidências a empurrou a isso. Está pouco se fodendo para as bactérias que povoam sua crosta.
O café tem gosto de derrota.
O que eu estou fazendo aqui?
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10:02
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26.1.07
O mapa da maturidade
Doutor,
após muita pancada na cabeça descobri que a maturidade é o exato momento em que a pessoa descobre que, salvo alguma improvável conspiração cósmica e cármica ocorra, ele está destinado a uma existência medíocre e facilmente esquecível.
Papo de depressivo? Claro que é! Cala essa boca e ouve que é para isso que você é pago!
Quando somos jovens alimentamos aquela esperança idiota de que faremos alguma diferença. Imaginamos carreiras de sucesso, atitudes que influenciarão a existência de muitos, nosso nome no panteão dos imortais, dos que fizeram a máquina andar mais rápido. Somos jovens, o mundo é nosso! Somos destinados a virar nome de avenidas! Se segura, mundo! Eu vou fazer urrú na cara do Bial, porra!
Daí crescemos um pouco e vemos que nossos objetivos podem ter sido um pouco inflacionados por nossos egos. Tudo bem, baixa a bola e toca pra frente. É neste momento que começamos a fomentar os sonhos pequeno-burgueses. Uma família, uma casa quitada, um carro do ano na garagem, dinheiro sobrando no final do mês... Abrimos mão da avenida, mas quem sabe não conseguimos nosso nome ainda em uma rua? Podemos não mudar o mundo, mas que sabe a própria comunidade? É neste momento que a maioria começa a namorar sério, fazer planos, essas idiotices todas.
Idiotice sim! Pára de me interromper, caralho! Ainda não entendeu como isso aqui funciona? Eu falo e você escuta. Pode anotar o que quiser, mas não me mostra que eu odeio garatuja de bloco de notas!
Ah, então alguns casam, se ajuntam, formam um núcleo familiar. E aí começam os problemas. É, negão, saiu da barra da mãe a coisa aperta, né não? E começam também as decepções profissionais. De repente você, aquele potencial executivo de sucesso, o provável milionário antes dos trinta, o pintudo do escritório, essas merdas aí, descobre que não passa de mais uma cabeça chifruda no meio pasto. Apenas um número gravado a ferro quente num crachá, que pode ser abatido sem maiores explicações a qualquer momento. Descobre que não basta ter potencial, tem que mostrar resultado. E quanto maiores os resultados, maior a expectativa dos empregadores. E maior a cobrança. Nesta epifania alguns poucos empreendedores saem do rio para quebrar a cara por conta própria, mas nós, o joio, a argamassa, vamos ficando. Descobrimos que o trabalho vai ser sempre duro e a remuneração nunca a suficiente. As contas não param de chegar (já que você, cretino, decidiu casar, ter filhos, comprar uma casa, um carro do ano...), as demandas não diminuem, o cheque especial não basta... Nome de rua? Tá, eu aceito deixar meu nome naquele beco da perifa mesmo, fazer o que? Nesse ponto está plantada a semente primordial da queda. Porque a expressão "cair em si" depende mais do verbo que muita gente imagina.
Pode anotar essa aí, sim, doutor. Anota e enfia no cu! Porra de cara mais chato!
Aí você junta as contas vencendo com o dinheiro faltando e descobre uma coisa: que amor não paga dívida. Muito pelo contrário. Aquele relacionamento maravilhoso, idílico, perfeito como um romance brega de matinê de domingo era na verdade uma fraude. E uma fraude cara. Você vê tudo desmoronar, a começar pela sua vida sexual (É, negão, depois não diz que não avisei!). Depois a convivência se torna insuportável. Então você arruma uma distração, algo que te faça levantar da cama todos os dias (e que não seja a obrigação trabalhista). Pode ser um hobby, uma coleção, uma mania, qualquer coisa. Isso te dá uma sobrevida, um meio-fôlego na relação que já não interessa a mais nenhuma das partes. E você acha que encontrou a solução, mas na verdade só agravou o problema. Porque felicidade alheia incomoda. Um não suporta mais ver o outro sorrindo. Não há mais sincronicidade nos humores. Brigas, brigas e brigas. Não vai ter jeito. É, amigão, em bom português, você está fodido. Beco? Claro que é beco. Sem saída. Mas não vai ter seu nome na placa da esquina. Tá pensando o quê?
Daí você acorda um dia e vê que não tem mais volta. Não porque faltem alternativas. Veja bem: Sempre há uma saída, seja ela ousada ou covarde. O problema é que você não quer mais arrumar uma saída. Cansou de lutar contra o inevitável. Prefere deixar a corrente te levar. Prefere deixar o tempo resolver. É aí que finalmente uma pessoa amadurece. Percebe que em alguns anos deixará de ser uma engrenagem essencial para o funcionamento da máquina humana e passará a ser uma reles peça de reposição. Depois disso será um artigo obsoleto, notado apenas pela curiosidade mórbida dos mais jovens (lembra?). Ao final será apenas mais um refugo pronto para o descarte. Uma coisa inconveniente que só serve para ocupar espaço e atrapalhar o avanço da próxima geração de idiotas prepotentes. Um elefante moribundo que não se tocou que é hora de abandonar a manada. E onde acabarão suas pretensões de virar endereço? Na rua 6, jazigo 42. Onde nem os gatos chegam perto. Pois é.
O quê? Você acha que ao final desta digressão estúpida eu colocaria alguma alternativa, alguma mensagem otimista? Desculpe, vou ficar devendo. Tá me estranhando, doutor? Sabe como é, a correnteza é muito forte. O negócio é se deixar levar até que apareça uma curva nesta metáfora barrenta.
A gente se vê lá, doutor.
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15:30
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Marcadores: digressões, dinheiro, endereço, mapa, maturidade, morte, vida, Zebedeu
9.1.07
Folguedos Praianos e Bloqueios no Seu Tubo
Caríssima Srta. (ou ex-Sra.?) Daniela Cicarelli,
venho através desta manifestar meu total e irrestrito apoio a sua heróica cruzada frente à difamação e a pouca-vergonha que veículos como a internet tão injustamente estão sujeitando a sua pessoa e a de seu caro namorado, o digníssimo Sr. Ricardo Malzoni Filho. Como celebridade de incontestável valor cultural à nossa nação e de qualidades tão notáveis, é uma vergonha testemunhar a maneira sórdida, vil e extremamente ofensiva com que a senhorita (ou ex-senhora?) e seu honradíssimo namorado vem sendo apedrejados, seja por meio da imprensa irresponsável, seja por conta de usuários de computador desinformados e, por que não dizer?, extremamente mimados.
A senhorita (ou ex-senhora?) tem toda justificativa para atacar com todas as forças o famigerado portal YouTube, que de maneira fraudulenta inseriu subrepticamente, entre seus Terabytes de videos e clipes em sua maioria inúteis, alguns poucos minutos de cenas tórridas e de cunho estritamente pessoal, retratando sua pessoa e a de seu magnânimo namorado em intimidades que apenas deveriam interessar às pessoas diretamente envolvidas com os atos. O fato de as imagens terem sido filmadas em um lugar público e posteriormente copiadas incontrolavelmente entre usuários voyeristas não passa de um argumento pobre vindo de pessoas nefastas que tentam em vão se defender das próprias calúnias apregoadas inescrupulosamente.
Mas, com o perdão da expressão, a senhorita (ou ex-senhora?) pegou até leve. Caso não esteja informada (pois todos nós sabemos o quão ocupada a senhorita (ou ex-senhora?) é) não basta eliminar apenas o maquiavélico portal YouTube, visto que o famigerado video acabou se espalhando por outros locais indiscriminadamente, como piolhos em uma escola primária da periferia. Páginas como o PornoTube já tem sua dose de cópias (como a senhorita (ou ex-senhora?) pode comprovar clicando aqui). Da mesma maneira a página do Google Videos (que, sinto informar, também é a proprietária do maligno portal YouTube) já possui algumas cópias do video disponível para que nossas pobres crianças sejam envenenadas com um vislumbre de imagens que seus olhos inocentes não deveriam presenciar em tão tenra idade. Duvida? Então, por favor, clique aqui e comprove a senhorita (ou ex-senhora?) mesmo. Até mesmo no pouco conhecido em terras tupinambás Daily Motion há uma cópia. Tem sim, juro! E para assistir, temo, é de uma simplicidade assustadora: de novo, apenas clique aqui! Viu só como é fácil? Isso sem contar com o número absurdo de blogs e páginas pessoais onde o infame video foi inserido sem a sua conivência. Será que esse povo não tem mais nada melhor para fazer não? Como exemplo, por favor veja a senhorita (ou ex-senhora?) em seus idílicos momentos de prazer marítimo devidamente registrados em video num blog espanhol.
Como a senhorita (ou... ah, cansou!) pode ver, o mundo inteiro já sabe de sua singela escapadela submarina. Isso porque não contamos, é claro, as morféticas redes de compartilhamento de arquivos P2P (ou pirtupír, em bom português) e o caudaloso BitTorrent. A coisa está feia, caçapática dama.
O que fazer, o que fazer então, ante esta ameaça de tamanha sanha demoníaca? Caso não cosiga vislumbrar um horizonte neste oceano (ops!) de problemas, coloco humildemente duas opções para vossa apreciação:
1) Fechar todo e qualquer página monstruosa que se prontifique a publicar o mui danoso video. Até mesmo os que colocam apenas menção. Fecha tudo! Fecha o PornoTube, o Google Videos, o Daily Motion e até o tal do Gran Guayaco (e isso lá é nome de blog sério, meu deus?). Fecha também os portais que noticiaram toda a palhaçada. Fecha o Terra, o UOL, o iG, todos! Aliás, sugiro que você feche também o site da BBC, que noticiou uma matéria extremamente irônica a seu respeito. É sério! Clique aqui e leia com seus próprios olhos marejados (opa!)! E não pare agora, está ficando bom! Feche o Google também! Assim ninguém mais conseguirá escrever a expressão 'video sexo cicarelli'. Quer saber? Esquece tudo isso. Manda fechar logo a internet inteira! Para que diabos afinal serve essa porcaria? Mete a boca (desculpe!) e acaba logo com essa palhaçada! Culpe o meio! Mate o mensageiro! Como diria Átila, o Huno: Aaaarrrghh!!!
Ou então:
2) Aceitar de uma vez que JÁ ERA, que agora não tem mais volta, e aprender a fechar as PERNAS durante seus passeios à praia, além de fechar a BOCARRA quando compreender que você foi flagrada cometendo uma INDISCRIÇÃO em um lugar PÚBLICO, que toda a espuma que a SENHORA está fazendo nada mais é que uma tentativa OBSCENA de chamar a atenção, como no VEXAMINOSO barraco ocorrido em seu malfadado CASAMENTO, que uma hora a SENHORA irá perceber que esta proibição INÓCUA logo logo será derrubada (aliás, já foi), que o povo brasileiro NÃO É IDIOTA e que cedo ou tarde a jogará no limbo do ESQUECIMENTO destinado a pessoas MEDÍOCRES como você!
(Pausa para retomar o fôlego)
Então, sem mais para acrescentar termino esta missiva com um singelo conselho que acredito será de grande valia para sua permanência neste planeta miserável:
Começa a olhar pra trás.
É sério.
Um grande abraço,
Z.
Esporrado por Zebedeu às
15:52
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2.1.07
Desjejum dos perdedores
Doutor,
certa vez tive algo que, sob certo ponto de vista menos cínico, poderia muito bem ser considerado um amigo. Ou o mais próximo que se pode chegar de um. Amigo é uma pessoa que pode ficar ao teu lado indefinidamente sem que seja preciso trocar uma palavra. Amigo é aquela pessoa que não incomoda. E o Truta era assim.
Não, não era apelido, era sobrenome mesmo. Não lembro de seu nome, só lembro que começava com K e era bem incomum. Por isso todo mundo o chamava de Truta. Claro que esse mundo era formado por mim e pelo Zé, o barman, mas o Zé nunca foi realmente nosso amigo. Ele só estava lá para nos servir. Aliás, duvido que seu nome fosse realmente Zé, mas o cara era garçom a tanto tempo que já havia perdido todo o culhão necessário para nos contradizer. Era uma máquina de atender pedidos. De vez em quando soltava uns comentários genéricos, um “Pois é...” ou “Sabe como é...”, sem nunca dar uma opinião concreta a respeito de nada. Mas foda-se o Zé. Queria falar do Truta.
Truta era um filósofo. Um péssimo filósofo. Nem ao menos um filósofo esforçado ele era. Caso não saiba, filósofo é um cara que faz um bocado de perguntas óbvias que inexplicavelmente ninguém sabe como responder. Nem eles. E o Truta era assim. Ele escrevia histórias ruins baseadas em suas filosofias deturpadas. Eram tão ruins que nem graça tinham. Eram histórias meio assustadoras, mas não daquelas que te deixam arrepiado. Elas eram tão desconcertantes que você fazia questão de não pensar mais a respeito das questões levantadas sob o risco de enlouquecer completamente. Não contei? Truta era louco.
Lembrei dele pois a última vez que nos vimos foi num reveillón. Não lembro de que ano, mas faz mais de uma década. Ele estava estranhamente sóbrio naquele dia. Os cabelos grisalhos não estavam tão desgrenhados, a barba estava feita. Só uma coisa não tinha mudado: aquelas repugnantes canelas finas cheias de veias varicosas que ele fazia questão de exibir com as calças pula-brejo que sempre usava. Até me desejou feliz ano novo, o que era pra lá de estranho para uma pessoa que contava o tempo através de um calendário próprio, pois ele achava que o Papa Gregório tinha errado feio. No calendário de Truta os meses tinham todos vinte e oito dias e cada mês tinha um nome impronunciável. Eu adorava perguntar a ele qual era o dia, só para ouvi-lo dizer, sem pestanejar, algo como “Hoje é o décimo terceiro dia de Zimbalatronixtre. O ano é oito mil setecentos e vinte e sete, se contarmos a partir do expurgo”. Mas naquela noite ele cedeu às convenções. Naquele dia ele parecia realmente humano. Ou quase.
– Eu te concedo um desejo de ano novo – me disse assim, à queima roupa.
– Qualé, Truta?
– Qualquer um. O que você quiser. Eu te concedo.
Não estava assim tão a fim de embarcar em sua viagem. Lá fora o mundo espoucava em milhões de cores enquanto um bando de imbecis se fantasiava de fantasmas ou mães de santo, se abraçando como se a virada cronológica trouxesse uma solução imediata a todos os problemas individuais e coletivos. Um segundo e pumba!, tudo resolvido, ano novo, vida nova, mundo novo. O balde de água fria só viria no dia primeiro de janeiro, quando todo mundo percebesse, durante a inevitável ressaca, que continuava tudo a mesma merda. Era o desjejum dos perdedores. Resumi isso em meu pedido:
– Eu só quero mais um chope.
Ele, claro, não se satisfez.
– Não seja materialista. Não seja modesto. Não seja um idiota. Vamos, quantas vezes alguém te concedeu um desejo, qualquer desejo, seu maior desejo, o desejo de sua vida? Vamos, me surpreenda. Seja ambicioso. Peça o que quiser e eu te dou. Né não, Zé?
– Sabe como é...
Truta quase não tinha onde cair vivo. Ele não ganhava xongas por seus textos. Para poder se alimentar e alimentar seu periquito de estimação (que ele mantinha apenas para saber com alguma antecedência quando o ar se tornasse, segundo suas próprias previsões, inevitavelmente irrespirável) ele instalava janelas anti-ruído. E era um péssimo instalador.
– Tá. Então que tal satisfazer todas as misses do universo? Que tal a Paz Mundial?
– É o que você realmente quer?
– Não.
– Ainda bem. O mundo seria um lugar terrivelmente chato para se viver se não corrêssemos o risco de morrer violentamente a qualquer momento.
Como eu disse, um péssimo filósofo.
– Vamos lá – insistiu ele. – Pense. Você é capaz de fazer isso. É o único ser do universo que tem livre arbítrio. Você é o Adão. Pense, pense e peça. O que quiser eu faço acontecer. Você não tem nenhum desejo imediato?
– Porra, Truta, eu tenho um milhão de desejos...
– Nomeie apenas um. Apenas o maior de todos.
Não estava fácil manter aquele papo. Eu estava prestes a xingá-lo. Amigo é aquele que você chama de filho da puta e recebe um abraço em retribuição. O Truta era assim. Não o xinguei pois não tava no clima de abraço.
– Sei lá, Truta. Esquece, cara, não quero nada, não.
– Então você abre mão da oportunidade de ter seu maior desejo realizado?
Saco.
– É isso aí. Não quero nenhum desejo meu realizado.
– E por que? Pensa direito na resposta.
Eu não tava a fim de pensar. Não enquanto todo mundo comemorava. Odeio quando todo mundo fica feliz. Fiquei quieto e bebi meu chope. Acho que ele entendeu isso como uma meditação e finalmente sentou do meu lado.
– Você sempre me surpreende – disse, abrindo um baita sorriso. Dentes feios.
– Como é?
– Não desejar nada é o uso mais inteligente de um desejo. Deste jeito você assegura a si mesmo o direito de ainda ter algo a desejar. Você manteve o motivo para permanecer vivo.
Depois disso a conversa fluiu estranha. Truta saiu e foi pra casa. Nunca chegou. Foi atropelado por um motorista bêbado. Em sua defesa o motorista assassino argumentou que o velho maluco havia se atirado de encontro ao carro, mas o seu grau alcoólico era tão grande que foi complicado saber a real. Talvez Truta tivesse perdido o motivo para permanecer vivo, mas isso é algo que apenas ele pensaria. Só os malucos não acreditam no acaso, em coincidências. E o Truta morreu. Seu periquito também morreu, mas não de envenenamento atmosférico. Morreu de inanição. Esqueceram-no quando foram recolher os espólios de Truta. Suas histórias ruins foram recicladas em rolos de papel higiênico áspero. Mas entre suas coisas encontraram um rascunho de um epitáfio. Não havia lápide digna de um epitáfio no cemitério de indigentes em que ele foi enterrado, mas se tivesse ela seria assim:
QUE TENTOU
QUE OUSOU
DESEJAR
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09:56
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24.12.06
Antevespertina
Doutor,
não era para acontecer. Mas fomos forçados onomatopeicamente a nos comunicar. O chique-chieque de seu isqueiro sem gás estava interferindo em minha meditação meditabunda. Alcancei meu isqueiro sobre o balcão e empurrei-o para ela.
- Obrigada.
De nada. Era pra ficar nisso. Mas não tinha jeito. É o lance dos vasos comunicantes, saca? Eu vazio. Ela até a boca. E transbordou.
- Odeio o Natal.
Hum. Mais uma. Sou pára-raios de pirado.
- Desculpa.
Eu quem peço desculpas. Não percebi que estava falando. Às vezes acontece. Aconteceu. Aliás, está acontecendo. Garçom? Dá um chope pra ela por minha conta. Ainda bem que não tenho que me preocupar em gastar o décimo terceiro em ceia ou presente.
- Brigada.
Esquece. Agora por que alguém tão bonita não gosta do natal? Eu tenho todo o direito. Sou feio, amargo e anti-social. Mas se eu fosse uma mulher com este corpão com certeza não estaria sozinho num bar falando comigo.
- Antevéspera de Natal é pior que véspera. É uma porcaria de expectativa que te fode.
É só uma data. Podia ser qualquer uma. Convenções, convenções. Quem precisa delas? Qual é o galho? Seja sincera.
- Ele tinha que ser casado, porra?
Taí. Tava demorando pra abrir o jogo. Coisa mais patética um mulherão desses se perdendo por um babaca casado. Tanto homem por aí. Qualé, bonitona? Tá precisando se valorizar um pouco mais...
- A esta hora deve estar lá, dormindo abraçado com a vaca. Bobear tá dando uma trepadinha natalina.
Mulher casada não trepa no natal. Está mais preocupada com a ceia, com os parentes, com os filhos, com o peru errado, essas coisas. Acho que todas as mulheres casadas do mundo menstruam no natal. Relaxa. Aliás, não tem por que você ter ciúmes da oficial. Deixa de ser besta.
- Eu sei que é bobagem. Mas o que eu posso fazer? Ele... Caralho, nem sei o que ele tem. Olha pra mim: você acha que eu preciso disso?
Claro que não. Nem disto nem daquilo. Mas quem sou eu para julgar?
- Onde eu estava com a cabeça? Ele me enrolou direitinho. Só abriu o jogo depois que já tinha me ganhado. Justo eu, que achava que nunca ia cair numa dessas! Burra, burra!
Garçom! Traz logo mais dois que a conversa vai ser longa.
- Era perfeito demais pra não dar merda. Bonito demais, rico demais. tinha que ter defeito. Como eu não imaginei que um cara desses não estaria comprometido? É o que dá acreditar em dádiva, em presente dos céus. Presente não vem de graça. Tem que ter um preço. Tem que ceder um naco da tua alma!
Uma alma que eu destrincharia com prazer. Naco por naco. O primeiro seria a língua. Alma tem língua? Pois se tivesse eu laberia tua alma.
- Depois ele veio com um papinho de aranha. "Tenho que te contar uma coisa...". "O quê?". "Sou casado". "Como é?". "Sou casado.". E o que eu fiz? Dei mais uma. Com gosto. Caralho...
Ah, as lágrimas da culpa. Tão azedas. Tão abundantes. Toma um guardanapo. Essas lágrimas podem corroer o tampo do balcão.
- Brigada. Olha, desculpa, você não tem nada a ver com isso...
Relaxa.
- ... mas o lance é que eu tava precisando desabafar com alguém. Garçom, traz mais um chope pra ele. Desta vez eu pago.
Eu aceito. Certas ações clamam compensações. Mas sinto que preciso deixá-la devendo mais um pouco. Para cobrar depois.
- O pior é que a gente se vê todo dia. Ele é cliente da firma, aparece direto. Quando estamos juntos é como se não existisse mais ninguém no mundo. Ah, eu faço qualquer coisa por ele. Qualquer coisa! E ele por que não larga a mulher de uma vez? Por que ele não aceita que é feliz comigo e não com ela?
E por que você não fala isso pra ele? Já sei, para não ouvir a resposta que sabe que ele vai dar. Que não pode largar a mulher agora, que a situação não é propícia, essas merdas. Aceita, lindona, o cara tá na melhor situação possível. Por que ele vai jogar tudo pro alto por causa de uma coisa que ele já tem?
- Eu não sei mais o que fazer.
Eu sei. Viro o chope com gosto. Puxo a comanda e me levanto. Ela nem nota, perdida nas bolhas de seu copo. Toco seu ombro. Sussurro em seu ouvido. No próximo encontro leva uma faca. Corta o pau dele fora. Faz ele ver. Depois leva ele pro hospital e pede para fazerem um reimplante. E some da vida dele. Some da tua vida. Se mata, se tiver coragem. Este é meu presente de natal pra você. Um inspiração.
- Tchau, moço. E obrigada por tudo.
De nada, lindona. De nada.
Este natal promete, doutor.
Esporrado por Zebedeu às
01:33
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12.12.06
A Vida Fora de Mim
Doutor,
foi uma daquelas coisas que batem sem aviso, saca? Sem motivo.
O cenário era comum: viaduto Santa Ifigênia. Eu desviava de transeuntes e camelôs, quando de repente uma clareira se abriu. Como uma nesga de sol num dia frio. Eu eu estava lá, no meio daquele vácuo metropolitano. Larguei minhas coisas e dei um giro. Depois outro. A dobradiça da nuca se estendeu ao máximo e tudo que entrou pela janela de minha íris foram as nuvens e o topo dos prédios orbitando minha visão periférica. Abri os braços e saí de mim.
Ei! Quase me acertou! Cada maluco que a gente encontra! Que é que dá numa pessoa para ficar girando no meio do caminho? Qual era o número do trabalho dele mesmo? Merda, sem sinal! Vou comprar qualquer coisa pra mãe dele. Vaca, nunca me olhou na cara e ainda tenho que comprar presente bom? Vou comprar qualquer merda num camelô e colocar numa embalagem fuleira mesmo. Ela vai reclamar de qualquer jeito, então pra que me preocupar? Cuidado aí, apressadinho!
Sai da frente! Droga, droga droga! Um probleminha de nada! Precisava me chamar? Mas de hoje não passa. Vou lançar uma dúzia de currículos. Não estudei seis anos para receber esse tipo de tratamento. Trabalho sábado, domingo e feriado e ganho o quê? Nem um tapinha nas costas! Promoção, então, só se eu matar meu superior. E pior que aposto que nem assim eles me promoveriam. Cambada de incompetentes! Cuidado com o maluco girando! Olha, esse jogo eu não tenho...
Só mais dez e eu fecho a barraca. Tá foda. Pára de fuçar e compra logo, moleque! Se pedir eu dou desconto, não fica cheio de dedo. Mão de vaca do caralho. Caramba, com mais dez eu faço milão e já garanto pelo menos a ceia. Isso se a bruaca não gastar tudo com bobagem. Ô mulher mais gastadeira! É só eu trazer cem que ela já gastou duzentos! Deve ser por isso que o doidão tá girando aí... Que? O Rapa? Ah, não, agora não. Sai, moleque! Merda, caiu um monte! Merda, merda!
Parece um bando de barata fugindo da luz. Corre pobraiada! Olha lá, eles correm, os pobres pegam o que cai no chão, e em segundos o viaduto está limpimnho. Trabalho bom esse. Nem precisa sacar o berro. É só ligar a sirene uma vez e parece formigueiro em véspera de chuva. Coisa linda de se ver. Adoro ser autoridade. Quem? Aquele louco? Ih, mano, deixa ele girar a vontade. Dá a maior dor de cabeça preencher formulário de pirado. Prefiro prender aquela bundinha ali...
Será que ele merece? Ah, e daí? Não é gasto, é investimento! Chega de roupa apertada e viver de aparência. Ele já me deu umas olhadas no escritório, deve estar a fim. Mas eu tenho que valorizar o passe. Senão ele vai, come, joga fora e eu continuo na mesma. Preciso mostrar pra ele que eu mereço mais do que isso. Tenho que dar um presente bom. Coisa fina. Ai, meu São Crediário, me proteja! Ih, olha o piradão girando ali! Haha, que engraçado! Vou tirar uma foto com o celular! O pessoal do escritório não vai acreditar... Ei! Pega!
Vacilona. Babau. Corre! Ih, os home! Cai pra esquerda, cai pra esquerda! Olha a frente! Ó o cara, meu, girando que nem pião! Cada uma... Desce a escada, vai. Olha a tia! Droga!
Ai, Jesus! O que é isso? Desgramado, pelo menos me ajuda a levantar! Odeio trombadinha! Obrigado, moço. É, a sacola é minha, sim. Muito obrigado, viu? Será que quebrou alguma coisa? Ah, depois eu vejo. Agora estou atrasada. Não, moço, eu tô bem, não se preocupa não. Obrigado mesmo. Quem? Ah, é só alguém feliz. Deve ser, pra ficar girando daquele jeito. Ou é maluco. Não, tá tudo bem mesmo. Brigadão. Tchau. Ufa, foi só um susto. Agora é só pegar o metrô que eu chego em casa e tomo um banhão... Ei, cadê minha carteira?
Putz, só tem bilhete único na carteira da velha! Nem um trocadinho! Cartão só de débito. Carteirinha do INSS. Foto da família. Tanto trabalho pra nada! E se eu pegasse as coisas do pião lá do viaduto? Nem, pela cara o babaca não deve ter nem onde cair vivo. Pô, a velha podia ter uns trocadinhos, né não? Bom, fazer o que? Joga essa merda fora e bola pra frente!
Uma carteira! Não, eu não vou abrir, não. Sei lá, acho invasão de privacidade. Não, nem vou gritar "Quem perdeu uma carteira?" que vai aparecer um monte de espertinho. Não sou tão bobo. Não, não vou ver se tem grana! Não acredito que você pensou nisso! Sou honesto! Trouxa não! Olha o respeito! Baixa a bola você! Não grita! Ai, que vexame! Tá bom, tá bom, desculpa... Olha, eu tô me desculpando! Dane-se essa porcaria de carteira! Quê? Não, não vai girar com o cara não! Eu vou embora, Flô! Juro que nunca mais você vê minha cara! E você, tá olhando o que?
Barraqueiro. Também, com um puta mulherão desses, qualquer um perde as estribeiras. Comigo ela ia ficar pianinho. Nada, não, seu moço! Fica na tua ou te faço amanhecer com a boca cheia de formiga. Cada uma que me aparece! Vou é logo pra casa que a patroa tá esperando. Um dia mato a vaca. Não pára de engravidar! Cacete, é tão difícil se controlar? Não tem mais de onde tirar dinheiro pra sustentar tanto filho! Devia socar aquela barriga toda vez que embuchasse. Porra, ela acha o que, que dinheiro dá em árvore? Daqui a pouco não tem mais semáforo que chegue pra tanta criança. Bom, melhor isso que ficar tantã e sair girando num viaduto...
Volto a mim, junto com uma ânsia terrível. Cambaleio até a beirada do viaduto e quase vomito no Anhangabaú. Alguém tenta me ajudar, mas espanto com um safanão. Tira os olhos de minha carteira, seu puto! Corto sua mão e enfio no seu cu! O estômago remexe, regurgita e reclama coisas ininteligíveis. Arroto. Alguém me chama de porco. Recebe um dedo médio como resposta pouco convicta. Me debruço no parapeito e observo a multidão no Anhangabaú. Bem no meio da praça, numa clareira entre transeuntes e camelôs uma garota rodopia alegremente no mesmo lugar, a cabeça jogada para trás. Observo-a pelo tempo que leva para ela parar de girar e olhar para mim. Me manda um beijo. Disfarço, recolho minhas coisas e vou embora.
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Como esta será provavelmente a última vez que nos falamos este ano, deixo para o Doutor uma mensagem de Paz:
Espero que em 2007 o senhor descanse em paz.
Esporrado por Zebedeu às
15:38
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24.11.06
A minha Morte
Doutor,
nós sabíamos que um dia chegaria a este ponto, não sabíamos?
Eu estava lá, mirando os vidros de remédio vazios em cima da mesa, o copo com uísque barato derretendo gelo, a garrafa com apenas um fundo de bebida. Já sentia a ponta dos dedos dormentes. Uma sensação boa. Uma sensação libertadora. Não havia arrependimento, não havia tristeza. O silêncio arpejava em meu corpo suas escalas mudas, e eu começava a fazer parte daquela sinfonia. Dissolvia-me no éter, sublimava na irrealidade. Acho que sorria. Daí ela entrou.
Tinha certeza que tinha trancado a porta, mas vendo-a puxando uma cadeira e sentando no outro extremo da mesa já não tinha mais tanta certeza. Não tinha ouvido a porta abrir. Ela jogou os cabelos negros e alisados para trás dos ombros, deixando apenas a franja indolente invadir seu rosto. Olhos grandes e maquiados, rosto oval e boca carnuda. Belos peitos de silicone, cinturinha lipoesculturada, bunda arredondada no tapa, coxas fortes. Adivinha quem acordou?
- Quem é você? - perguntei, segurando a baba que escorria da boca.
- Você sabe.
- Querida, eu nem sei mais quem eu sou.
- Sou a sua Morte.
Não consegui conter uma risada fungada.
- O que foi? - perguntou ela, franzindo as sobrancelhas neuroticamente pinçadas.
- Dá pra ser mais clichê? Eu, no final, delirium tremens, antropomorfizo a Morte como a Juliana Paes!
- É quem eu sou?
- Não, você é a Morte.
- Não sou, não.
- Mas você disse...
- Eu disse que sou a SUA Morte. Não sou A Morte.
- Putz, nem a oficial eu atraio. O que é você, uma estagiária?
Ela me olhou e sorriu. Minha calça estava ficando apertada.
- O que você quer? - perguntei, tentando alcançar o copo. Mas meu braço não me obedeceu. O copo dançou quando encostei os dedos inertes nele, mas não saiu da mesa.
- Nada. Eu só cheguei.
- Brega, brega. Gostosa, mas brega. E clichê – tombei o corpo e tentei focalizar o cérebro o suficiente para levar o copo até a boca. Consegui, mas me babei todo. - Aliás, eu já li esse livro.
- Eu sei.
- E não gostei do final.
- É por isso que estou assim?
- Você pergunta?
- Sou gostosa?
- Querida, só não empacotei até agora porque você acionou canais sangüíneos que já deveriam ter sido esquecidos.
- Você quer dizer, seu pau?
- Não faz isso...
- Desculpe.
- A Morte não se desculpa com ninguém.
- Não sou A Mor...
- Tá, tá, saquei.
Consegui beber mais um gole. Ela se levantou e deu a volta na mesa. Pegou a garrafa e encheu meu copo.
- É isso?
- É, acho que sim.
- É só isso? Você não vai falar nada? Não vai me passar um sermão? Um video com minha vida medíocre? Uma lição de esperança? Um passaporte para o Vale dos Suicidas?
- Não.
- E cadê a porra do túnel?
- Você quer um túnel?
- Não. Eu queria ver seus peitos.
Ela baixou o decote. Meus olhos quase saltaram das órbitas.
- Isso te fez feliz?
- Querida, se eu fosse imaginar a minha Morte, seria exatamente assim.
- Eu sei.
Ela não subiu o decote. Encostou aquele bundão na mesa e ficou me olhando.
- Você vai me levar?
- Para onde você quer ir?
- Não sei...
- Então não.
- E o que você veio fazer aqui?
- Para um suicida, você faz muitas perguntas.
- E isso não é o que é um suicida? Um cara cheio de perguntas sem resposta?
- Não. É um cara que achou uma única resposta para todas as perguntas.
- Preciso dar uma mijada.
- Quer ajuda?
- Não faz isso...
Consegui cambalear até o banheiro e fazer um lançamento oblíquo de urina.
- Posso perguntar por que?
- Se minha própria Morte não sabe, quem sou eu para saber?
- Sei lá. Achei que tinha algum motivo.
- Às vezes a ausência de motivos é motivo o suficiente.
- Que bonito.
- Obrigado.
Voltei ao meu lugar. Ela continuava lá, sentada na mesa com os peitos pra fora.
- Cobre essas coisas.
- Não gosta mais?
- Ah, cala essa boca!
Óbvio que ela obedeceu.
- O lance é que eu te chamei, mas não quero mais. Você é uma Morte gostosa e eu não quero isso. Não mereço uma Morte gostosa. Você deveria vir aqui feia, acabada, entrevada e cheia de verrugas. Vazando pus pela boceta. Aí eu te abraçaria. Desse jeito não dá.
- E o que você vai fazer então?
- Isso.
Saquei o revólver e dei dois tiros naqueles peitos. Ela levou os golpes e caiu da mesa. Cambaleou um pouco e me olhou. Sangue encharcava sua camisa e escorria por seu queixo. Tinha medo nos olhos. Engatilhei o revólver como fazem no cinema. Ela sorriu quando viu o cano apontado para sua cabeça.
- Você sabe que isso não vai adiantar nada. Eu volto.
- Eu espero que sim.
Blam! Espalhei seus miolos no assoalho. Caí sentado do lado do corpo. A minha Morte estrebuchava. Eu tinha matado a minha Morte.
O som dos tiros alertou os vizinhos. Miraculosamente uma ambulância chegou a tempo de me fazer uma lavagem estomacal. Seis horas numa enfermaria e aqui estou de volta, tendo como únicas testemunhas os três buracos de bala, dois na parede, um no chão.
Tenho uma nova receita para o senhor, Doutor. Mais uma mancha na prancha Rorschach de meu cérebro. Mais uma tarja preta em meu prontuário.
Mais um atestado da sua incompetência.
Esporrado por Zebedeu às
09:50
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6.11.06
Pau de Fogo
Doutor,
comprei uma arma.
Nem sei porque. Simplesmente comprei. Descobri que iria conseguir fechar as contas do mês com alguma folga, e como isso não acontecia há algum tempo decidi gastar este resto de grana em algo que me satisfizesse de alguma maneira. Eu estava caminhando pela rua quando fui abordado. Psiu, quer comprar um revólver? Como é? Chega aí. Olha. Três oito, número de série raspado. Você tá querendo me empurrar uma gelada? Como vou saber que você não matou alguém com essa arma? Meu, pelo preço que estou fazendo não dou direito a perguntas e nem garanto respostas. Gostei da argumentação e fechei o negócio. Cheguei em casa com um trezoitão em um bolso da jaqueta e uma caixa de munição de brinde na outra.
Não, eu não sei realmente o que me levou a comprar aquela arma. Do jeito que foi pareceu que ela me foi vendida pelo demônio em pessoa. O doutor bem sabe que eu não acredito nessa coisas, mas que pareceu coisa de intervenção demoníaca, isso pareceu.
A princípio eu não tirei a arma do bolso. Deixei-a lá, pesando minha jaqueta. Tirei a caixa de balas e coloquei sobre a mesa. Abri, e vi a pequena plantação de cabeças de chumbo enfileiradas. Tirei uma cápsula e olhei bem. Me deu vontade de abrir, de dissecar aquela pequena maravilha da tecnologia. Uma coisa tão simples, tão básica, mas tão bonita, tão letal. Reprimi o impulso, pois não sabia como fazer e podia dar alguma merda. Melhor não arriscar.
Meu pai tinha um revólver. Era pequeno, prateado e quase nunca saía do estojo. Calibre .22. Arma de moça. Deixava-a ao alcance, na gaveta do criado mudo do seu lado da cama. Mantinha a munição escondida em local desconhecido, se é que havia alguma. Tinha muita criança em casa. Um dia entrei no quarto dele com meu primo e fomos vê-la. Claro que ele nos flagrou na hora. Mas não brigou com a gente, não. Fez muito pior. Sentou do nosso lado e pediu para segurar a pistola. Pegou-a com certa reverência, com a ponta dos dedos. Mostrou com este gesto que respeitava a arma, mesmo sendo adulto, e que deveríamos fazer o mesmo. Ficamos quietos vendo-o verificar se estava descarregada. Daí ele girou o tambor e fechou-o com um estalo metálico que retiniu em nossas almas. Então deu-a para mim. Pega, disse, não tem problema. Peguei igual a ele, com a ponta dos dedos. Agora mira na cabeça do teu primo. Ambos arregalamos os olhos. Vai, não tem perigo. Quero te mostrar uma coisa. Obedeci, mas tremendo. Meu primo quase se borrou todo quando o cano gelado encostou em sua testa. Abre os olhos, Rique. Se este for o seu último momento de vida, encare-o de olhos abertos. Uma lágrima escorreu pela face de meu primo. Várias pela minha. Queria implorar para que ele parasse com aquilo. Tinha perdido a graça, mesmo sabendo que a arma estava descarregada. Daí ele falou, com uma voz calma. Sabe que é pior levar um tiro de .22 do que de qualquer outra arma? Principalmente na cabeça. O cartucho tem pouca pólvora, e a bala não tem muita força. Num tiro assim, à queima-roupa, a bala só tem força para passar pelo osso do crânio uma única vez. Ela vara a testa e fica quicando dentro da tua cabeça, dissolvendo seu cérebro, tuas lembranças aos poucos. Não é o impacto da bala que te derruba, mas tuas pernas dobram quando a parte do teu cérebro que coordena as funções motoras vira geléia. É uma morte limpa, quase sem sujeira. É uma morte profissional. Não respondemos. Ele pegou de novo a arma de minha mão e nos enxotou do quarto. Nem preciso dizer que nunca mais brincamos com ela.
E agora eu estava lá, com um revólver no bolso. Não era para uma morte limpa. Um tiro à queima-roupa na testa transformaria a parede atrás do alvo em uma pintura abstrata de sangue, ossos e miolos. Coisa feia. Uma morte amadora, barulhenta e asquerosa.
Fui até o armário da cozinha e guardei a caixa de balas ironicamente perto do lugar onde guardo meus doces. Daí peguei na gaveta um saco plástico com fecho de vedação para freezer e rapidamente coloquei o revólver dentro. Fechei o saco ainda tremendo. Peguei então um rolo de fita adesiva e fui até o banheiro. Abri a tampa do reservatório de água da descarga e colei o saco na parede interna. Precisei dar duas descargas para conseguir, e ficou bem ruim. Mas fechei a tampa e tentei esquecer da arma.
Eu até consegui. Mas não consegui evitar de sonhar com um cérebro sendo triturado por uma bala ricocheteante. Lembra de... Quando... Daquela vez que... E uma a uma as memórias desapareciam.
Só uma lembrança ficou quando finalmente acordei: que ainda tinha uma conta pra pagar e que eu não tinha mais um puto para isso.
Nunca senti tanta vontade de dar um tiro na minha testa.
Esporrado por Zebedeu às
11:49
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16.10.06
Aparecido
Doutor,
ele não se controla.
http://gardenalcomfantauva.blogspot.com
E eu não me responsabilizo.
Esporrado por Zebedeu às
15:03
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3.10.06
Curta
Doutor,
eu tinha acabado de sentar na poltrona do cinema. Tentava me ajeitar quando ela sentou do meu lado. Sorriu. Sorrimos.
- Quer pipoca?
- Não, eu...
- Shiu, vão começar os trailers!
--
- Gostou do filme?
- Achei uma merda. Excremento puro. Baita enrolação! Deu vontade de estrangular o diretor com as tripas do roteirista.
- Hum, eu até gostei...
- Você não pode estar falando sério! Esse lixo?
- É.
- Qual é o teu nome?
- Zebedeu.
--
Ela se chamava Lia. Assim, só três letras. Não precisava mais do que isso para defini-la. As redundâncias de seu caráter eram irrelevantes. Sem idiossincrasias desnecessárias. Sabia o que queria e não gostava de perder tempo.
--
Bem que tentamos chegar até meu apartamento, mas acabamos trepando na escada mesmo, graças ao elevador quebrado. Ela não conseguiu agüentar. Nem deu tempo de tirar toda a roupa. Foi uma rapidinha bem meia-boca. Mas ela gozou.
--
- Alô.
- Oi.
- Oi! Eu ia te...
- Vamos encher a cara?
- Como é?
- Preciso ficar bêbada. Vamos?
--
Nem bem tínhamos chegado e já foram quatro tequilas pra conta. Duas para cada um. Ela se soltou. Me puxou e me deu um beijo alcoolizado. Pra variar, fiquei de pau duro. Ela riu. Brincou com uma menina na mesa do lado, usando meu estado como de objeto de inveja. E riu quando ruborizei. Pediu mais uma tequila. Implorei para acompanhá-la.
--
O quarto girava em sentido oposto ao dela. Estava difícil ficar de pé. Sentei na borda da cama. Ela veio dançando e sentou no meu colo.
- Sabe de uma coisa?
- Não.
- Sabe sim.
- Sei nada...
- Sabe. Sabe que eu te amo, não sabe?
Pior que sabia.
--
- Porra, fecha essa porta!
- Ué, qual o problema?
- Coisa mais broxante ver mulher cagando!
- Ué, pra enfiar a cara na minha buceta você não reclama...
- Caralho, que nojo!
--
Bêbada de novo. Foi sozinha. Não estava mais com saco para aquilo. Tinha que trabalhar no dia seguinte. Amparei-a antes que caísse.
- Você não me ama!
- Não fala merda. Vem, vou te dar um banho...
- Não! Não quero! Vou embora!
- Lia...
--
Seus joelhos miravam o teto, minha cara enfiada na junção de suas coxas. Que cheiro bom, que delícia! Molhadinha. Minha língua percorria cada canto. Me perdi naquele fosso de carne quente e úmida, aberto, escancarado para mim. Tanto que não percebi que ela chorava.
Acordei sozinho.
--
Ela não apareceu o dia inteiro. Nem de noite. Não dormi.
--
A porta estava aberta quando cheguei. Vi seus tornozelos esticados balançando como os de um judas ao vento no meio da sala, a cabeça tombada sobre um dos ombros, a corda no pescoço sustentando o corpo inteiro no ar. Estava cinza e fria. Olhos esbugalhados, língua azul. Mas continuava linda.
Em cima da mesa um bilhete: "Sua culpa".
Fui embora. Deixei a porta aberta para que os vizinhos encontrassem seu corpo. Mas levei o bilhete comigo.
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Quando cheguei em casa preguei o bilhete na geladeira. Reli (Re-Lia?) umas duzentas vezes e então corri para o banheiro e vomitei.
De porta aberta.
Cara, que semana!
Esporrado por Zebedeu às
18:58
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24.9.06
Nada
Doutor,
dormi a tarde toda. Perdi Faustão. Acordei, comi, caguei, e estou há duas horas procurando o que fazer. Decidi discorrer sobre o nada. Nada, nada. Que nada!? (Leia como quiser).
Estou fumando demais. Mesmo. Estou sentindo que tem mais catarro que brônquios em meus pulmões.
Saí na sexta. Não rolou nada. Nada, nada e pagode, que é a epítome do nada metido à arte.
Aliás, o que é arte? Arte para mim é poeta de Orkut, que eu não leio e não me incomoda. Arte é o enaltecimento do umbigo, esse apêndice envergonhado que prova que, certa vez, não comíamos pela boca. Que temos uma genitora.
Mãe é mãe, paca é paca.
Poesia é tudo plágio.
Porque sentimento humano é cliché. É coisa requentada, mole de microondas. E eu quero lá saber se você sofre? Foda-se você e seu sofrimento! Tá sofrendo toma um porre. Se mata numa banheira cheia de merda. Olha pra mim, caralho, que eu tô falando com você! Não gostou cospe na minha cara que te beijo a boca! Beijo melado, viscoso, horripilante.
Não sei.
Não sei nada. Porra nenhuma. Caralho, o que eu estou fazendo aqui?
Mais um cigarro.
Voltemos ao nada. Ao pó existencialista.
Minha cabeça fervilha, mas não sai nada. Sou um vácuo barrigudo sentado na frente de um teclado escrevendo asneiras. E você, babaca desocupado, está lendo. Pois espera que de repente eu saia com uma frase de mestre, um pensamento esparso-metafísco-enaltecedor.
Veio ao lugar errado.
Aqui não tem nada.
Aliás, tem.
Nada.
Mas não posso parar. Não posso. Consigo, mas não posso. Comigo, mas não quero.
Querer é foder?
Pago pra ver.
Horrível, horrível.
Acostume-se com este bipolar aqui.
Que não sabe quando é positivo ou negativo.
Só vomita elétrons.
(No final, somos todos elétrons! Garçom, mais uma dose que meu spin tá parando!)
Por que todo cara metido a escritor acha que verbalizar o que vem na cabeça é arte?
Mais um cigarro.
Vende à granel?
Então me vê vinte, que a noite vai ser longa.
Isso aqui não é arte. Não é narrado por jacaré, não é poesia de punheteiro. Não vai sair na capa do caderno de cultura de jornal nenhum. É só um espasmo sociopata. Foda-se. Ninguém deveria ler isso. VOCÊ não deveria estar lendo isso!
Então chega.
Vou sair e me matar por aí.
A gente se vê.
Eu te vejo pela janela.
Esperando você tirar a roupa.
Só um mamilo pra salvar essa noite.
Só um.
Esporrado por Zebedeu às
23:22
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6.9.06
Ex gato lógico
Doutor,
eu estava caindo pelas tabelas de sono. Noites mal dormidas sem razão aparente, ou cheias de razão na mente, mas desordenadas o suficiente para a insônia se deleitar. E eu fritar nos lençóis. Foda. Cama fria, noite gelada, pés úmidos, saco embutido. Nada, nada. Eu, acordado. Quando consegui fechar os olhos o despertador me avisou que já era tarde. Acorda, cretino, que o trabalho te espera. Tomar no cu.
Dureza tomar banho no frio. E é na hora de acordar o sono vem. Nem o choque da água pelando me despertou. Quase dormi no chuveiro, de pé e com o sabonete pendendo nos dedos frouxos. Meu pau se escondeu na mata pentelhal. Se falasse com certeza diria que hoje não sairia dali. Nem a pau. Pica esperta. Expulsei-a de seu abrigo e sacudi-a até a ereção. Depois deixei ela quieta, dura e pulsante, à espera de uma punheta. Se eu também tinha acordado sem objetivo, não estava mais sozinho. Analise isso, se puder.
Trânsito moroso. Vim por instinto. Cheguei até minha mesa e liguei o computador. Tentei ordenar as idéias até o dia anterior. Confirmei que não tinha nada pra fazer. Nunca tinha. Mas já previ o desastre. A mente desocupada é o jardim de Morfeu. O Diabo já determinou usucapião, mas o homem-da-areia vive declarando terra improdutiva e invade. Briga chata. Fiquem os dois, de braço dados que nem dois caubóis viados. Mas não me encham o saco.
Navego pelas páginas habituais, até não ter mais nada de novo para ler. Invento algum interesse, abro várias outras páginas. E vejo as letras embaralharem e fenecerem no limbo do meu sistema límbico. Não me venha com parassimpatias. Preciso dormir, não trocadilhar. Trocadilho é o humor mais rasteiro e egoísta que existe. Só ri quem conta. É o Chevette '76 do humor.
Depois do almoço piorou. Arroz, tutu, calabresa, ovo e bisteca. Só faltou a caipirinha. Meu estômago resmungou a sesta. Meu cérebro fechou para balanço temporário. Decidi que não era hora para desmaiar no teclado então fui ao banheiro. Me tranquei numa cabine, calei a Deca Boca-de-Caçapa e fiquei uns 5 minutos tentando achar uma posição minimamente confortável em meio aos sons viscerais e gravitacionais de meus vizinhos. Escatologia é uma aula de física. A molecada aprenderia muito mais se os exercícios usassem a defecação como exemplo prático. Merda por merda... Uma sinfonia de onomatopéias. Orquestra Cacofônica do Estado de Piriri, a única que não tem Maestro, tem Maelstrom (procura no Google). Tchibuns e plopes dos toroços, chis de xixis, traques variados de cus idem, desde os assovios apertados até os beligerantes ra-ta-tás, blams e plects de portas e tampas, e o complexa digestão esgotal das privadas após apertar o botão de descarga. Uma canção de ninar de merda, um lullabie fecal.
Dormi.
Acordei meia hora depois, com as costas doendo e as pernas formigando. Fingi uma descarga, limpei minhas mãos limpas e saí mancando até minha mesa. A cara inchada e os cabelos desgrenhados. Alguém fez um comentário sem graça. Rosnei uma resposta que não saberia dar. Sentei na minha mesa e percebi que a meia hora de desaparecimento não fez a menor diferença. Ninguém notou minha ausência. Nada mudou. Apenas um lapso temporal, uma volta de 180º sem mudança de sentido ou de destino.
Decidi escrever para você.
Triste isso, não?
Esporrado por Zebedeu às
10:53
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20.8.06
Arcanos Arcaicos
Ela fechou os olhos e virou a face transtornada. As mãos seguravam a mesa como se todo seu corpo dependesse daquele apoio para não desabar no chão. Uma lágrima mergulhou na face suada.
- Olha para mim - eu disse, inicialmente com calma. - Olha, porra!
Ela obedeceu. Ao menos em parte. Não olhou para meu rosto, mas para a faca em minha mão. Tramontina. Boa para destrinchar carne.
- Por favor...
- Eu já te disse. Cinqüenta por cento de chance.
- Eu...
- Fala!
--
Doutor,
você sabe que eu sou um cético amargo por definição. Não engulo nenhum tipo de bobagem metafísica que vez ou outra tentam empurrar por minha garganta. Regurgito cinismo junto com bílis e miojo meio digerido. Prefiro morrer na ignorância a inventar algum tipo de solução mística profilática. Não quero ser enganado. Não gosto de ser manipulado.
Então por que eu entrei lá?
A placa gritava em minha retina: "Tarô através da vidência". Pleonasmo, já que a primeira depende da última para funcionar. De outro modo seria apenas... acaso. E místicos adoram o mantra de que nada acontece por acaso. Mas divago. O lance é que eu entrei. Uma casa simples. Pobre sem ser miserável. Decoração que faria um camelô se envergonhar. Muito tule roxo. Incenso. Estatuetas de gesso de diferentes divindades, de diferentes religiões. Símbolos zen budistas misturados a outros de Feng Shui. Um ideograma sânscrito do Om balançava como um penduricalho em um daqueles irritantes sinetes de vento. E ela, que merece um parágrafo curto, mas só dela:
Cabelos negros encaracolados escorrendo pelas costas, empapados de creme para pentear. Um lenço puído cobria o frizz no topo. Olhos cansados e muito maquiados. Unhas vermelhas compridas. Lábio leporino. Roupa pseudo-gótica de brechó.
Me ofereceu uma cadeira. Eu aceitei.
- E aí, o que vai ser? - perguntou ela, enquanto acendia um cigarro sem pedir permissão. De algum modo conseguiu embaralhar as cartas amarrotadas, mesmo com aquelas unhas nojentas atrapalhando. Eu previa uma artrite em suas falanges, e não era vidente. Ela era. Não respondi à sua pergunta. - Olha - continuou - Eu preciso ter alguma informação. Amor, trabalho... O que vai ser?
Decidi testar sua competência. Baixei os olhos, numa fingida submissão. Nunca quis tanto em minha vida conseguir forçar o choro. Não precisei. Ela engoliu.
- Está tudo bem. Você pode confiar em mim...
Vaca, vaca, pensei. Como confiar em uma piranha vidente com aquelas unhas? Ela ia ter que se esforçar mais do que aquilo.
- Olha - disse ela, num tom quase maternal. Quase. - Eu sei que pode parecer duro, sem solução, mas eu posso te ajudar. Mas preciso que você me dê uma força, senão não tem jeito.
- Não.
- E por que não?
- Porque videntes não deviam fazer perguntas. São pagos para prover respostas.
Ela finalmente entendeu. Com certeza eu não era o primeiro chato cético que ela precisou lidar. Abriu um sorriso desafiador e colocou o baralho à minha frente na mesa.
- Corta.
Obedeci. Ela pegou de volta as cartas e as espalhou num padrão bizarro na mesa. A Roda da Fortuna. O Louco. O Diabo. O Sol. O Julgamento. E, é claro, a Morte.
- Olha só! - disse ela, fingindo surpresa. - Apenas arcanos maiores!
Abri um sorriso. Ela começou sua leitura.
- O Diabo é seu passado. São as correntes que o oprimem, a sua prisão. A Roda da Fortuna é o seu presente. É onde você está agora, num momento de transição. Em seguida virá o Julgamento. Seu futuro dependerá da decisão que você tomar agora. Vai ser a inconstância do Louco? Ou a estabilidade do Sol?
Olhei para as cartas.
- E a Morte?
- Simboliza a transição. Não é uma carta ruim como parece. Pelo contrário, significa que há uma solução para sua aflição, e que ela depende de você.
Mirei as cartas espalhadas na mesa sem falar nada. Ela aguardou pacientemente. Acendeu outro cigarro na bituca do primeiro. Prevejo um efizema pulmonar. Estou ficando bom nisso.
- Você não respondeu nada - eu disse, finalmente.
- Você não perguntou nada - retrucou ela, petulante.
Estendi a mão e peguei a carta do Louco. Carta feia, desenho tosco. Não gostei do que vi. Mas também não gosto de me olhar no espelho.
- Esta é sua decisão? - perguntou ela, interrompendo minha análise.
- É - respondi. - Acho que este sou eu - peguei a carta da Morte. - E esta é sua.
Ela riu, desapontada.
- A consulta acabou. Por favor, retire-se.
Saquei então a faca que estava no bolso de minha jaqueta. Finquei a ponta da lâmina bem no meio da carta do Louco, pregando ambos no tampo da mesa. Pelo salto que ela deu, parecia que tinha acertado seu coração. Aposto que ela não tinha previsto aquilo.
- Eu não preciso fazer nenhuma pergunta, mas você é obrigada a me dar uma resposta. E a resposta que eu quero é simples. Um mero sim ou não.
- Eu, eu...
- Sim ou não. Cinqüenta por cento de chance. Se for a resposta certa, você vive. A errada, vou cortar seu estômago. E eu vou te ver sangrar aos poucos até... - peguei a carta na mesa - a Morte.
Ela fechou os olhos e virou a face transtornada. As mãos seguravam a mesa como se todo seu corpo dependesse daquele apoio para não desabar no chão. Uma lágrima mergulhou na face suada.
- Olha para mim - eu disse, inicialmente com calma. - Olha, porra!
Ela obedeceu. Ao menos em parte. Não olhou para meu rosto, mas para a faca em minha mão. Tramontina. Boa para destrinchar carne.
- Por favor...
- Eu já te disse. Cinqüenta por cento de chance.
- Eu...
- Fala!
Ela pensou por um instante. Fungou e engoliu catarro. A maquiagem escorria. Olhou para mim, me odiando. Gostei daquele olhar. Coragem.
- Sim.
Relaxei os ombros. Dei a volta na mesa e me abaixei ao seu lado. A faca pendia indolente em minha mão. Se quisesse, seria fácil me desarmar, mas ela não arriscou. Previu algo? Sentiu algo? Como ter certeza? Ah, a dúvida. Ah, a loteria da vida! Ela não era imune à isso?
- Meus parabéns - eu disse, apertando levemente seu ombro. - Era o que eu queria ouvir. Mas vou levar isso comigo.
Mostrei a carta da Morte. A carta que eu disse ser dela. Torço para que entenda a metáfora.
Levantei-me, paguei a sessão e saí do "consultório".
Qual era a pergunta, doutor?
Tem certeza que quer saber?
Esporrado por Zebedeu às
03:36
|
31.7.06
Você tem fome de que?
Doutor,
os grilos tritrilam, o que é estranho, pois estou no escritório. Devem ser ecos do ranger de meus neurônios semi-atrofiados tentando se comunicar, apesar da comparação ser exagerada. Nada disso, aliás, vem ao caso, são apenas delírios de uma cabeça insone.
Não. Minto. Estou com sono, é isso. Só que não quero dormir. Quero aproveitar esse torpor para criar algo que preste. Mentira. Desculpe, imaginei que neste ponto de nosso relacionamento eu já conseguisse ser sincero com mais freqüência, mas sou um mentiroso patológico e incurável. O senhor me conhece, então não vou dourar a pílula. Aliás, chega de pílulas. Chega de remédios e de concatenar idéias desconexas. É o sono. São as pílulas. Sou eu. Ponto. Próxima linha. Travessão.
Sei que desapareci. Não, não vou explicar. Porque não quero, porra! Porque quero que se foda todo e qualquer tipo de explicação. Cansei de me explicar. Cansei de procurar sentido em qualquer porra que me aparece na frente.
Sabe quando você senta num bar e descobre que tem alguém olhando para você? Sabe aquele exato momento em que sua cabeça se enche de possibilidades, de alternativas, de dúvidas por vezes irrespondíveis, a não ser que você tome alguma atitude que desencadeie a avalanche iminente? Pois então. Minha reação a isso é a simples estagnação. Não se mexe que a coisa não desaba na tua cabeça. Chafurdo na lama de minha insegurança, aderno em minha autocomiseração. E perco a foda. Morro de fome ao invés de soterrado. Pensar demais atrapalha.
Hoje quero mais é ficar à deriva. Deixar que as correntes me carreguem ao invés de me prenderem. Poético, não? Pois é, saiu sem pensar. Estou numa fase metafórica. Não ligue para isso.
Claro que eu tenho problemas! Claro que eles vão bater na minha porta como uma horda de Testemunhas de Jeová numa manhã de domingo. Mas e daí? Quando chegarem me encontrarão de pau duro. Receberão uma reação espontânea ao invés de uma cara de tacho. E esta reação pode variar de um beijo a uma carnificina. Viva a Loteria. Blim-blom.
A geladeira está quase vazia. Tem um pote de margarina sintetizando penicilina e um yakult vencido cheio de lactobacilos mortos. Minha úlcera geme, faminta. Aquilo não serve. A cabeça do meu pau está dolorida. Meus olhos ardem, minhas costas estalam num arpejo de um piano desafinado. Escrevo.
Escrevo.
Escrevo, e o que sai é um reflexo de meu egoísmo.
Olha pra mim.
Olha.
Esporrado por Zebedeu às
06:55
|
26.6.06
Num piscar de olhos
Miro o teto. Branco, liso, sem textura nenhuma. Um quadro branco, uma tela implorando pinceladas de tinta. O lustre é vagabundo, uma pequena cúpula de vidro jateado recheada de insetos mortos, um câncer maculando a tela. Há um tique-taque constante, hipnótico. Não há cheiros. Insípido. Inodoro. Incolor. Me afogo lentamente neste ambiente inócuo.
- E então? - você pergunta.
Não respondo. Mas sei que a resposta está a um piscar de olhos. Ou vários.
Blink
Haverá sangue em minhas mãos, e eu saberei que o sangue não será meu. O meu correrá rápido por minhas veias, incentivado pela adrenalina. Sentirei-me bem.
Blink
- Eu tô a fim. Vamos? - ela perguntou.
- Sei lá - me devencilhei.
- Você é quem sabe.
- Eu não sei porra nenhuma.
- Sabe que você fica lindo desse jeito?
- Que jeito?
- Esse. Dá vontade de te dar uma mordida.
- Não ouse.
Blink
Estarei na cozinha dela. Abrirei sua geladeira e de lá retirarei uma garrafa de Coca com pouco gás. Beberei no gargalo e forçarei um arroto, que sairá engasgado pela minha garganta. Estarei engarrafado. Preso. Meu estômago gemerá pela movimentação involuntária de gases e fluidos corporais. Sentirei-me uma bolha, uma granada sem pino prestes a explodir caso não faça alguma coisa. Sobre a mesa da cozinha haverá um suporte de madeira com uma faca.
Blink
Acendi mais um cigarro, não por vontade, mas por despeito. Sempre adorei ver a cara de nojo dos corredores na pista de cooper ao me verem sentado num aparelho de ginástica fumando. Eles passam, se indignam e continuam, temerosos de entrarem em conflito com a figura ameaçadoramente petulante que eu sou. Tive vontade de abaixar as calças e me deitar ao sol, só jiboiando, mas não o fiz. Devia ter feito, pois em seguida ela chegou. Sorria.
Blink
Minha respiração estará ofegante após o ato. Jogarei meu corpo ao seu lado na cama, ainda duro, ainda rígido, mas exaurido. Puxarei a camisinha de meu pau, darei um nó e a atirarei displicentemente ao lado da cama. Ela aconchegará sua cabeça em meu ombro e delicadamante fará um cafuné nos pêlos do meu peito. Seu hálito lamberá em meu ouvido elogios e gemidos. Minha boca ficará seca. Não estarei bem.
Blink
Eu tentava desesperadamente me recordar de seu rosto antes que ela chegasse. Me sentia um idiota. E se ela chegasse e eu não a reconhecesse? Decidi fitar o café obsessivamente. Desse modo transferia a ela a responsabilidade da aproximação. Mas mesmo assim levantei a cabeça quando a porta da lanchonete abriu, e reconheci-a imediatamente. Meu estômago se revirou, e por pouco não vomitei. Ela sorriu maravilhosamente quando me viu. Devia gostar de homens verdes.
Blink
Encontrarei-a nua na cama, as pernas escancaradas exibindo sua vulva recém violada, os peitos mirando o teto. Em seus lábios ainda melados por minha saliva e sucos penianos estará um cigarro. Ela puxará o ar e a brasa brilhará. Estará sorrindo. Não pára de sorrir nunca. Nem verá que estarei com uma faca na mão antes que eu a enfie em suas entranhas. O sorriso sumirá. Peidarei. Arrotarei. Sorrirei.
Blink
- Me dá um cigarro? - ela pediu. Estiquei o maço. Puxou um, acendeu com meu isqueiro e me devolveu. Em seguida sentou-se do meu lado. - 'Brigado.
- De nada.
- Por que você faz isso?
- Hum?
- Vem aqui toda semana só para fumar?
- O parque é público. E eu sou um escroto.
- Gosta de incomodar os outros?
- Não. Gosto de me incomodar. De sentir raiva.
- Está com raiva de mim?
- Sim.
Ela se calou por um instante.
- E você? - perguntei. - Qual a sua desculpa para estar aqui?
- Venho procurar pessoas interessantes.
- Veio ao lugar errado. Devia ter ido a um bar. Não tem ninguém interessante em parques.
- Tem você.
- Pois então...
Ela sorriu.
- Assim você vai acabar me matando de rir!
Blink
O teto continua branco. As matizes que eu utilizo não são indeléveis. A maioria das cores desaparece se você parar de pensar nelas. O tique-taque continua, e eu sei que você espera a resposta. Mesmo assim aguardo paciente até você perguntar de novo.
- Zebedeu?
- Hum?
- Me diga.
- Dizer o que?
- Por que você não vai encontrá-la essa noite?
- Porque não.
- Isso não é resposta.
Verdade.
- Porque tenho medo, Doutor. Só por isso.
Entendeu agora?
Esporrado por Zebedeu às
08:00
|
20.6.06
Barfly
Doutor,
ontem eu saí. Fui dar uma volta, espairecer. Encher a cara sem nenhum motivo além do habitual. Entrei num bar metido a pub. Legal até. Passei algum tempo imaginando a cara do decorador. Podia ser um leprenchaunt viado ou uma bicha irlandesa, se é que existe tal distinção. Mas com certeza não era ruivo. Não sei porque.
Gosto das segunda-feiras. É o dia do baque, da realidade, da água fria escorrendo pela nuca. As pessoas não costumam sair de segunda, e isso me agrada. Não gosto de pessoas. Gosto de gente. E gente como a gente (não você!) só sai do casulo na segunda. O resto da semana é das pessoas.
O barman tentou puxar assunto enquanto tirava um pint de fine ale. Dois dedos de espuma milimetricamente medidas por um risco estampado no copo. Tirada regulamentar, profissa. Aceitei a cerveja mas recusei o papo. Não é porque sou o único cliente que tenho que ser simpático. Vai conversar com a pia e me deixa em paz!
Na televisão passava o VT de um jogo da copa. Não tem como escapar. Quando não é ao vivo, é VT. E quando não é VT, é um bando de fanáticos endinheirados falando a respeito. Mecenas de gladiadores pasteurizados. Sonham com a bola que lhes falta.
Ela entrou. Feia, muito feia. Feia demais até para mim. Não inspiraria pensamentos eróticos nem em um presidiário. Entrou, flanou pelo ambiente como um peido num banheiro público, e sentou perto de mim no balcão. Deixou uma banqueta entre nós, como último bastião de sua pretensa virtude e de meu bom gosto. A cerveja desceu mais amarga que o habitual.
- Vamos jogar? - eu disse. Ela se acendeu como se tivessem lhe colocado um reator no rabo.
- Jogar?
- É, jogar. Tá a fim?
- Depende do jogo...
Leu a cartilha, mocréia? Se fazendo de difícil para mim? Não faz isso. Não pega bem. Especialmente numa segunda.
- Chama-se "Sedução".
- Não conheço.
- É claro que não...
- Você que inventou?
- Eu? De jeito nenhum. Nem sei jogar direito...
- E como é?
Bebi a cerveja até o fim. Ela aproveitou e derrubou o bastião. Sentou do meu lado.
- Começou errado.
- Já estamos jogando?
- Desde que você entrou.
Deu para ouvir as fichas tilintando em seu cérebro enquanto caíam. Acendeu um cigarro. Filei um.
- Tem fogo? - ela me perguntou, piscando o olho muito maquiado.
- Pára com isso! Tá estragando o jogo!
- Mas eu nem sei as regras!
- É simples: se um ganha, ambos ganham. Se perde...
- Ah.
- O lance não é sexo. O lance não é ficarmos nos esfregando em um canto qualquer. O lance é seduzir. Mutuamente. Você não me seduz. É feia, atirada e vulgar. Se veste mal. Provavelmente é uma encalhada insuportável. E duvido que tenha mais do que meia dúzia de neurônios plenamente funcionais. Mas isso é parte do jogo. Você precisa me convencer que pode valer a pena.
- Você me acha feia?
- E burra. Sim, acho. Mas isso pode mudar. É por isso que estamos jogando. Convença-me do contrário.
Ela pensou por um instante. Dava para ouvir os relês chaveando em seu cérebro. O jukebox começou a tocar U2. Pela décima segunda vez desde que eu havia sentado no balcão.
- Por que? - perguntou ela, finalmente.
- Hum?
- Por que eu tenho que te seduzir? Por que você não me seduz?
- Eu já estou fazendo isso.
- Já?
- Já.
- Me chamando de feia e burra?
- Você não foi embora indignada, foi?
O estalo desta vez foi tão forte que acho que vi seu olho esquerdo dar uma piscada involuntária.
- Não... - concedeu ela, subitamente consciente da própria mediocridade.
- Não me entenda mal. Não sou nada melhor que você. Aliás, duvido que eu seja minimamente digno de sua presença. Sou um merda, um ninguém que se acha grande coisa. Me desculpe.
- Quié isso, não fala assim. Você é até bonitinho...
- Viu?
- Hã?
- Viu como funciona? É assim que você tem que jogar. Ataquei em seu ponto fraco. Sua autopiedade. Você, por um instante, se viu em mim, e isso gerou empatia. Virei um reflexo de sua solidão, e isso te atraiu que nem uma mosca para um balde de merda. Isso é sedução.
- Não, isso é pena.
- Pena o meu caralho. Se eu começasse a chorar em meia hora estaria com a cabeça enterrada em sua xoxotona.
- Você é um escroto!
- E mesmo assim você não foi embora. Vamos, estamos perdendo o jogo. Você ainda não me seduziu.
- Você também não está ajudando nada...
- Claro que não. Eu sou a vítima, estou na defensiva. Você que deu o primeiro passo. Já te seduzi antes de você sentar. Seja por falta de opção ou desespero, você viu em mim uma chance de não passar mais uma noite sozinha, chorando abraçada a um gato obeso. É o meu trunfo. E você ainda não o roubou.
- O que você quer que eu diga?
- Tudo menos isso.
- Isso o quê?
- Isso.
- Você é maluco!
- E você é patética.
Primeira lágrima. Ponto pra mim.
- Ô, cara, pega leve.
- Fica na tua, Johnnie Walker.
- Meu nome é Fulgêncio.
- Ô nomezinho feio da porra, hein? Dá mais uma breja.
- Baixa tua bola, aí.
Apesar da ameaça, me deu a cerveja. A feia ainda chorava, mas tentava disfarçar esfregando as bochechas. A maquiagem desfazia-se a cada passada. Eram lágrimas ácidas. Levantei e me aproximei dela. Olhei-a bem nos olhos. O fluxo diminuiu, mas o estrago já estava feito. Parecia um palhaço derretido. Ela me olhou também, meio assustada, meio implorando piedade. Tomei sua mão. Ela apertou a minha. Puxei-a mais para perto e lambi seu rosto. Sorvi lágrimas, maquiagem e tristeza. Ela não se afastou. Ao invés disso fechou os olhos e curtiu o gesto.
- Ganhou - eu disse em seu ouvido.
- Ganhei?
- Arrã.
- Vamos para minha casa?
- Não.
- Não? Por que?
- Porque o jogo acabou.
- Mas...
Soltei-a e fui embora. Paguei quinze paus pelos dois chopps, mas nem me importei. A noite tinha valido cada centavo.
Fazia tempo que eu não dormia tão bem.
Esporrado por Zebedeu às
08:10
|
19.6.06
Comenta ISSO, filho da puta!
Doutor,
o que move a criação? O que nos leva para a frente de um computador (tela, caderno, monte de argila) e nos faz querer transformar a tela em branco (ou a massa disforme) em algo a ser lido (visto, apreciado, criticado)?
Será uma urgência egomaníaca descontrolada, uma necessidade irrefreada por um espelho de Narciso? Queremos ser recebidos com latidos delirantes de uma cachorro estúpido que nos amará mesmo que o desprezemos?
É isso que leitores (admiradores, críticos) são. Uma matilha desenfreada de cachorros excessivamente carentes, que enxergam em seus donos um reflexo aperfeiçoado de si mesmo. Uma idolatria exacerbada, uma covardia inerentemente amaldiçoada em sua grandeza frente a nossa pequenez, apesar dessa última constatação não significar absolutamente nada, e eu apenas tê-la escrito para exercitar um vocabulário rebuscado. Mesmo assim pode ser citada como referência ou constatação de minha genialidade pseudo-parnasiana. Ou não. Voltemos ao tópico.
Por que buscamos ídolos, heróis ou modelos? Para que nos interessa saber com que papel higiênico eles limpam a bunda? O que nos motiva a gozar com seus paus e bocetas? O que faz deles melhores que nós? E até que ponto o que fazemos é importante para alguém? Digo REALMENTE importante?
Há quem diga que somos (são) endeusados por conta da divinização da criação. Uma pessoa comum, nascida de um pecado e parida com sangue e excreções, que consegue, num momento de inspiração (divina? metafísica? espasmódica?) criar algo a partir do nada que será digerido por outrem (!), e em seguida este digestor achará que tem o direito de emitir uma opinião a este respeito, mesmo que esta opinião simplesmente não acrescente ou deturpe absolutamente nada. Como se pedíssemos por isso!
E não pedimos? É claro que pedimos! Senão por que caralho produziríamos tal coisa, tal criação, tal qualquer-porra-que-se-diga-arte? Somos súcubos de atenção. Somos tão cachorros carentes quanto eles. Queremos ser chupados em nossas bolas cabeludas quando fazemos algum truque novo. Queremos ser cuspidos em nossas caras de pau quando fazemos algo horrendo, fedido. Falem mal, mas falem de mim! Não me ignorem, cabada de lambedores de cu! Amo vocês, mesmo odiando o que vocês dizem. Odeio vocês até a última geração, mas sou voltairiano convicto, e dou minha vida para que vocês tenham o direito de falar. Até merda. Aliás, se eu escrevo merda, que direito tenho em querer coisa diferente. Caguem em minha cabeça, cambada de putos!
Às vezes acho que só você, doutor, realmente me lê com um motivo sincero. Você me lê por obrigação, por ser parte de sua profissão. Caralho, você GANHA para me ler. O resto não. O resto só espera que eu, em um momento qualquer, destile algum comentário ou pensamento que ligará algum sentimento latente em suas cabeças de ampola. São órfãos cerebrais, parasitas neuróticos buscando eternamente massas cinzentas alheias para sugar. Querem que eu descreva minha realidade, ou para se sentirem superiores, ou para não se sentirem únicos, ou para simplesmente dar risada da escatologia alheia.
Pois então, chupem minha pica! Com gosto.
Mas depois me contem se foi bom.
Doutor, tarja preta significa remédio com vergonha da própria nudez?
Ou é algo simplesmente censurável?
Pensa nisso.
Esporrado por Zebedeu às
13:15
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18.5.06
Zebedianas
Exercício de Metalinguagem ou Adulação Egomaníaca? Deixarei a História julgar, apesar de eu mesmo tender para a última. O certo é que é tempo de rebobinar o cérebro, separar o que vale neste vale raso que é este espaço, quiçá minha vida. O certo é que vez ou outra eu olho para trás. E se lá não tem um negão tatuado chamado Adamastor gemendo e suando, quer dizer que a coisa ainda está em seu trilho. Ou não.
Não gosto do big brother. É uma maneira institucionalizada de voyerismo, o que faz com que perca toda a graça.
Zebedeu
É difícil aprofundar mais do que isso. Ainda passo horas assistindo meus vizinhos pela janela, e nenhum deles recebeu convite para posar nu (apesar da mulatinha do segundo andar merecer). A vida está se desglamourizando por conta do excesso de reality shows. Moro em São Paulo. Quando quero realidade tiro a cabeça para fora da janela. Paro quando uma bala perdida encontrar minha testa.
Foda-se o câncer! Deveriam inventar uma cura pra gripe.
Zebedeu
Chamem-me de insensível, de escroto, mas se tem uma coisa que me irrita é gripe. Uma doença que te inutiliza mas que não mata. Um vírus bundão, uma falsa promessa. Não deveria existir. Covarde!
Academias são templos do narcisismo exacerbado.
Zebedeu
Nada tira da minha cabeça que, se pudessem, esses ratos de academia fariam sexo consigo próprios. E não estou falando de punheta! E duvido que alguém consiga falar "narcisismo exacerbado" três vezes bem rápido. E com uma paçoca Amor na boca.
Todo mundo te fode todo dia, mas no Natal eles lembram de comprar um lubrificante.
Zebedeu
A hipocrisia dos dias de festa é a pior coisa que existe. De um dia para outro todo mundo vira santo, vira bonzinho, deseja o melhor para mamãe ninfomaníaca, pro papai bichona, para o caralho de Jesus ou a porra da humanindade. E no dia seguinte chuta uma velha na rua para que ela não atrapalhe sua pressa, cospe asneiras pseudo-intelectualóides para meninos de rua que não estão interessados em lição de moral e tomam cafés com o mindinho em riste. Cambada de paus no cu.
Quando eu crescer quero ser um tsunami.
Zebedeu
Existe coisa mais linda que uma força descontrolada da natureza assassina? É algo que, quando acontece, fica todo mundo com cara de cu. Não tem quem culpar. Sou contra aquele pensamento de mea culpa, de consternação muda, de que é o planeta de vingando de tudo o que fizemos com ele. Porra nenhuma! O dia que as pedras quiserem se vingar, todo mundo vai se lembrar de seus próprios pecados. Até lá...
Felicidade é patrimônio. E não tem seguro.
Zebedeu
Um dia vou escrever um livro de auto ajuda. Só para ajudar no controle de natalidade e aumentar o índice de suicídios. A frase acima, fora do contexto, quase me transforma em um Lair Ribeiro. E qual o contexto? Bem, digamos que no mesmo parágrafo havia outra frase interessante: "Pobre não nasceu para a felicidade".
Mulher quando sorri é que nem louva-a-deus depois de trepar.
Zebedeu
Existe coisa mais nefasta que mulher? Eu, sinceramente, não conheço.
Sexo é moeda de troca.
Zebedeu
Misógino é teu pai!
O amor nada mais é do que um cu arreganhado em forma de um sorriso cagado. Ou seja, um buraco cheio de merda travestido de felicidade.
Zebedeu
Essa é a minha favorita. Gosto da construção da frase, da sonoridade, da poesia escatológica. Além do fato de ainda considerar como uma verdade absoluta. Não tem jeito, nós, homens, somos as vítimas desse jogo escroto e inescrupuloso chamado "Amor". As mulheres são como o ACM ou o José Genoíno. Deixam o trouxa achar que manda em Deus e no mundo, mas na verdade quem manda são elas. Titeteiras desgraçadas.
Não gosto da palavra "sonhar". Sonhar é sinônimo de aspirar, que por sua vez também é usada no sentido de puxar o ar. Como inspirar. Inspirar lembra referenciar. E meus sonhos não são referência para nada. São sempre pesadelos.
Zebedeu
Nuossa! Fui longe nessa aí!
Essas citações estavam no primeiro endereço do blog. É, aquele que foi bloqueado aqui na empresa. Esses pensamentos tem dois anos, e de lá pra cá porra nenhuma mudou. Eu continuo eu. O doutor continua aí. Lá fora as balas continuam perdidas, atrás de seu alvo-metade.
E eu aqui, reciclando bobagens.
Preciso arrumar assunto.
Esporrado por Zebedeu às
09:59
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