20.8.06

Arcanos Arcaicos

Ela fechou os olhos e virou a face transtornada. As mãos seguravam a mesa como se todo seu corpo dependesse daquele apoio para não desabar no chão. Uma lágrima mergulhou na face suada.

- Olha para mim - eu disse, inicialmente com calma. - Olha, porra!

Ela obedeceu. Ao menos em parte. Não olhou para meu rosto, mas para a faca em minha mão. Tramontina. Boa para destrinchar carne.

- Por favor...

- Eu já te disse. Cinqüenta por cento de chance.

- Eu...

- Fala!

--

Doutor,

você sabe que eu sou um cético amargo por definição. Não engulo nenhum tipo de bobagem metafísica que vez ou outra tentam empurrar por minha garganta. Regurgito cinismo junto com bílis e miojo meio digerido. Prefiro morrer na ignorância a inventar algum tipo de solução mística profilática. Não quero ser enganado. Não gosto de ser manipulado.

Então por que eu entrei lá?

A placa gritava em minha retina: "Tarô através da vidência". Pleonasmo, já que a primeira depende da última para funcionar. De outro modo seria apenas... acaso. E místicos adoram o mantra de que nada acontece por acaso. Mas divago. O lance é que eu entrei. Uma casa simples. Pobre sem ser miserável. Decoração que faria um camelô se envergonhar. Muito tule roxo. Incenso. Estatuetas de gesso de diferentes divindades, de diferentes religiões. Símbolos zen budistas misturados a outros de Feng Shui. Um ideograma sânscrito do Om balançava como um penduricalho em um daqueles irritantes sinetes de vento. E ela, que merece um parágrafo curto, mas só dela:

Cabelos negros encaracolados escorrendo pelas costas, empapados de creme para pentear. Um lenço puído cobria o frizz no topo. Olhos cansados e muito maquiados. Unhas vermelhas compridas. Lábio leporino. Roupa pseudo-gótica de brechó.

Me ofereceu uma cadeira. Eu aceitei.

- E aí, o que vai ser? - perguntou ela, enquanto acendia um cigarro sem pedir permissão. De algum modo conseguiu embaralhar as cartas amarrotadas, mesmo com aquelas unhas nojentas atrapalhando. Eu previa uma artrite em suas falanges, e não era vidente. Ela era. Não respondi à sua pergunta. - Olha - continuou - Eu preciso ter alguma informação. Amor, trabalho... O que vai ser?

Decidi testar sua competência. Baixei os olhos, numa fingida submissão. Nunca quis tanto em minha vida conseguir forçar o choro. Não precisei. Ela engoliu.

- Está tudo bem. Você pode confiar em mim...

Vaca, vaca, pensei. Como confiar em uma piranha vidente com aquelas unhas? Ela ia ter que se esforçar mais do que aquilo.

- Olha - disse ela, num tom quase maternal. Quase. - Eu sei que pode parecer duro, sem solução, mas eu posso te ajudar. Mas preciso que você me dê uma força, senão não tem jeito.

- Não.

- E por que não?

- Porque videntes não deviam fazer perguntas. São pagos para prover respostas.

Ela finalmente entendeu. Com certeza eu não era o primeiro chato cético que ela precisou lidar. Abriu um sorriso desafiador e colocou o baralho à minha frente na mesa.

- Corta.

Obedeci. Ela pegou de volta as cartas e as espalhou num padrão bizarro na mesa. A Roda da Fortuna. O Louco. O Diabo. O Sol. O Julgamento. E, é claro, a Morte.

- Olha só! - disse ela, fingindo surpresa. - Apenas arcanos maiores!

Abri um sorriso. Ela começou sua leitura.

- O Diabo é seu passado. São as correntes que o oprimem, a sua prisão. A Roda da Fortuna é o seu presente. É onde você está agora, num momento de transição. Em seguida virá o Julgamento. Seu futuro dependerá da decisão que você tomar agora. Vai ser a inconstância do Louco? Ou a estabilidade do Sol?

Olhei para as cartas.

- E a Morte?

- Simboliza a transição. Não é uma carta ruim como parece. Pelo contrário, significa que há uma solução para sua aflição, e que ela depende de você.

Mirei as cartas espalhadas na mesa sem falar nada. Ela aguardou pacientemente. Acendeu outro cigarro na bituca do primeiro. Prevejo um efizema pulmonar. Estou ficando bom nisso.

- Você não respondeu nada - eu disse, finalmente.

- Você não perguntou nada - retrucou ela, petulante.

Estendi a mão e peguei a carta do Louco. Carta feia, desenho tosco. Não gostei do que vi. Mas também não gosto de me olhar no espelho.

- Esta é sua decisão? - perguntou ela, interrompendo minha análise.

- É - respondi. - Acho que este sou eu - peguei a carta da Morte. - E esta é sua.

Ela riu, desapontada.

- A consulta acabou. Por favor, retire-se.

Saquei então a faca que estava no bolso de minha jaqueta. Finquei a ponta da lâmina bem no meio da carta do Louco, pregando ambos no tampo da mesa. Pelo salto que ela deu, parecia que tinha acertado seu coração. Aposto que ela não tinha previsto aquilo.

- Eu não preciso fazer nenhuma pergunta, mas você é obrigada a me dar uma resposta. E a resposta que eu quero é simples. Um mero sim ou não.

- Eu, eu...

- Sim ou não. Cinqüenta por cento de chance. Se for a resposta certa, você vive. A errada, vou cortar seu estômago. E eu vou te ver sangrar aos poucos até... - peguei a carta na mesa - a Morte.

Ela fechou os olhos e virou a face transtornada. As mãos seguravam a mesa como se todo seu corpo dependesse daquele apoio para não desabar no chão. Uma lágrima mergulhou na face suada.

- Olha para mim - eu disse, inicialmente com calma. - Olha, porra!

Ela obedeceu. Ao menos em parte. Não olhou para meu rosto, mas para a faca em minha mão. Tramontina. Boa para destrinchar carne.

- Por favor...

- Eu já te disse. Cinqüenta por cento de chance.

- Eu...

- Fala!

Ela pensou por um instante. Fungou e engoliu catarro. A maquiagem escorria. Olhou para mim, me odiando. Gostei daquele olhar. Coragem.

- Sim.

Relaxei os ombros. Dei a volta na mesa e me abaixei ao seu lado. A faca pendia indolente em minha mão. Se quisesse, seria fácil me desarmar, mas ela não arriscou. Previu algo? Sentiu algo? Como ter certeza? Ah, a dúvida. Ah, a loteria da vida! Ela não era imune à isso?

- Meus parabéns - eu disse, apertando levemente seu ombro. - Era o que eu queria ouvir. Mas vou levar isso comigo.

Mostrei a carta da Morte. A carta que eu disse ser dela. Torço para que entenda a metáfora.

Levantei-me, paguei a sessão e saí do "consultório".

Qual era a pergunta, doutor?

Tem certeza que quer saber?

31.7.06

Você tem fome de que?

Doutor,

os grilos tritrilam, o que é estranho, pois estou no escritório. Devem ser ecos do ranger de meus neurônios semi-atrofiados tentando se comunicar, apesar da comparação ser exagerada. Nada disso, aliás, vem ao caso, são apenas delírios de uma cabeça insone.

Não. Minto. Estou com sono, é isso. Só que não quero dormir. Quero aproveitar esse torpor para criar algo que preste. Mentira. Desculpe, imaginei que neste ponto de nosso relacionamento eu já conseguisse ser sincero com mais freqüência, mas sou um mentiroso patológico e incurável. O senhor me conhece, então não vou dourar a pílula. Aliás, chega de pílulas. Chega de remédios e de concatenar idéias desconexas. É o sono. São as pílulas. Sou eu. Ponto. Próxima linha. Travessão.

Sei que desapareci. Não, não vou explicar. Porque não quero, porra! Porque quero que se foda todo e qualquer tipo de explicação. Cansei de me explicar. Cansei de procurar sentido em qualquer porra que me aparece na frente.

Sabe quando você senta num bar e descobre que tem alguém olhando para você? Sabe aquele exato momento em que sua cabeça se enche de possibilidades, de alternativas, de dúvidas por vezes irrespondíveis, a não ser que você tome alguma atitude que desencadeie a avalanche iminente? Pois então. Minha reação a isso é a simples estagnação. Não se mexe que a coisa não desaba na tua cabeça. Chafurdo na lama de minha insegurança, aderno em minha autocomiseração. E perco a foda. Morro de fome ao invés de soterrado. Pensar demais atrapalha.

Hoje quero mais é ficar à deriva. Deixar que as correntes me carreguem ao invés de me prenderem. Poético, não? Pois é, saiu sem pensar. Estou numa fase metafórica. Não ligue para isso.

Claro que eu tenho problemas! Claro que eles vão bater na minha porta como uma horda de Testemunhas de Jeová numa manhã de domingo. Mas e daí? Quando chegarem me encontrarão de pau duro. Receberão uma reação espontânea ao invés de uma cara de tacho. E esta reação pode variar de um beijo a uma carnificina. Viva a Loteria. Blim-blom.

A geladeira está quase vazia. Tem um pote de margarina sintetizando penicilina e um yakult vencido cheio de lactobacilos mortos. Minha úlcera geme, faminta. Aquilo não serve. A cabeça do meu pau está dolorida. Meus olhos ardem, minhas costas estalam num arpejo de um piano desafinado. Escrevo.

Escrevo.

Escrevo, e o que sai é um reflexo de meu egoísmo.

Olha pra mim.

Olha.

26.6.06

Num piscar de olhos

Miro o teto. Branco, liso, sem textura nenhuma. Um quadro branco, uma tela implorando pinceladas de tinta. O lustre é vagabundo, uma pequena cúpula de vidro jateado recheada de insetos mortos, um câncer maculando a tela. Há um tique-taque constante, hipnótico. Não há cheiros. Insípido. Inodoro. Incolor. Me afogo lentamente neste ambiente inócuo.

- E então? - você pergunta.

Não respondo. Mas sei que a resposta está a um piscar de olhos. Ou vários.

Blink

Haverá sangue em minhas mãos, e eu saberei que o sangue não será meu. O meu correrá rápido por minhas veias, incentivado pela adrenalina. Sentirei-me bem.

Blink

- Eu tô a fim. Vamos? - ela perguntou.

- Sei lá - me devencilhei.

- Você é quem sabe.

- Eu não sei porra nenhuma.

- Sabe que você fica lindo desse jeito?

- Que jeito?

- Esse. Dá vontade de te dar uma mordida.

- Não ouse.

Blink

Estarei na cozinha dela. Abrirei sua geladeira e de lá retirarei uma garrafa de Coca com pouco gás. Beberei no gargalo e forçarei um arroto, que sairá engasgado pela minha garganta. Estarei engarrafado. Preso. Meu estômago gemerá pela movimentação involuntária de gases e fluidos corporais. Sentirei-me uma bolha, uma granada sem pino prestes a explodir caso não faça alguma coisa. Sobre a mesa da cozinha haverá um suporte de madeira com uma faca.

Blink

Acendi mais um cigarro, não por vontade, mas por despeito. Sempre adorei ver a cara de nojo dos corredores na pista de cooper ao me verem sentado num aparelho de ginástica fumando. Eles passam, se indignam e continuam, temerosos de entrarem em conflito com a figura ameaçadoramente petulante que eu sou. Tive vontade de abaixar as calças e me deitar ao sol, só jiboiando, mas não o fiz. Devia ter feito, pois em seguida ela chegou. Sorria.

Blink

Minha respiração estará ofegante após o ato. Jogarei meu corpo ao seu lado na cama, ainda duro, ainda rígido, mas exaurido. Puxarei a camisinha de meu pau, darei um nó e a atirarei displicentemente ao lado da cama. Ela aconchegará sua cabeça em meu ombro e delicadamante fará um cafuné nos pêlos do meu peito. Seu hálito lamberá em meu ouvido elogios e gemidos. Minha boca ficará seca. Não estarei bem.

Blink

Eu tentava desesperadamente me recordar de seu rosto antes que ela chegasse. Me sentia um idiota. E se ela chegasse e eu não a reconhecesse? Decidi fitar o café obsessivamente. Desse modo transferia a ela a responsabilidade da aproximação. Mas mesmo assim levantei a cabeça quando a porta da lanchonete abriu, e reconheci-a imediatamente. Meu estômago se revirou, e por pouco não vomitei. Ela sorriu maravilhosamente quando me viu. Devia gostar de homens verdes.

Blink

Encontrarei-a nua na cama, as pernas escancaradas exibindo sua vulva recém violada, os peitos mirando o teto. Em seus lábios ainda melados por minha saliva e sucos penianos estará um cigarro. Ela puxará o ar e a brasa brilhará. Estará sorrindo. Não pára de sorrir nunca. Nem verá que estarei com uma faca na mão antes que eu a enfie em suas entranhas. O sorriso sumirá. Peidarei. Arrotarei. Sorrirei.

Blink

- Me dá um cigarro? - ela pediu. Estiquei o maço. Puxou um, acendeu com meu isqueiro e me devolveu. Em seguida sentou-se do meu lado. - 'Brigado.

- De nada.

- Por que você faz isso?

- Hum?

- Vem aqui toda semana só para fumar?

- O parque é público. E eu sou um escroto.

- Gosta de incomodar os outros?

- Não. Gosto de me incomodar. De sentir raiva.

- Está com raiva de mim?

- Sim.

Ela se calou por um instante.

- E você? - perguntei. - Qual a sua desculpa para estar aqui?

- Venho procurar pessoas interessantes.

- Veio ao lugar errado. Devia ter ido a um bar. Não tem ninguém interessante em parques.

- Tem você.

- Pois então...

Ela sorriu.

- Assim você vai acabar me matando de rir!

Blink

O teto continua branco. As matizes que eu utilizo não são indeléveis. A maioria das cores desaparece se você parar de pensar nelas. O tique-taque continua, e eu sei que você espera a resposta. Mesmo assim aguardo paciente até você perguntar de novo.

- Zebedeu?

- Hum?

- Me diga.

- Dizer o que?

- Por que você não vai encontrá-la essa noite?

- Porque não.

- Isso não é resposta.

Verdade.

- Porque tenho medo, Doutor. Só por isso.

Entendeu agora?

20.6.06

Barfly

Doutor,

ontem eu saí. Fui dar uma volta, espairecer. Encher a cara sem nenhum motivo além do habitual. Entrei num bar metido a pub. Legal até. Passei algum tempo imaginando a cara do decorador. Podia ser um leprenchaunt viado ou uma bicha irlandesa, se é que existe tal distinção. Mas com certeza não era ruivo. Não sei porque.

Gosto das segunda-feiras. É o dia do baque, da realidade, da água fria escorrendo pela nuca. As pessoas não costumam sair de segunda, e isso me agrada. Não gosto de pessoas. Gosto de gente. E gente como a gente (não você!) só sai do casulo na segunda. O resto da semana é das pessoas.

O barman tentou puxar assunto enquanto tirava um pint de fine ale. Dois dedos de espuma milimetricamente medidas por um risco estampado no copo. Tirada regulamentar, profissa. Aceitei a cerveja mas recusei o papo. Não é porque sou o único cliente que tenho que ser simpático. Vai conversar com a pia e me deixa em paz!

Na televisão passava o VT de um jogo da copa. Não tem como escapar. Quando não é ao vivo, é VT. E quando não é VT, é um bando de fanáticos endinheirados falando a respeito. Mecenas de gladiadores pasteurizados. Sonham com a bola que lhes falta.

Ela entrou. Feia, muito feia. Feia demais até para mim. Não inspiraria pensamentos eróticos nem em um presidiário. Entrou, flanou pelo ambiente como um peido num banheiro público, e sentou perto de mim no balcão. Deixou uma banqueta entre nós, como último bastião de sua pretensa virtude e de meu bom gosto. A cerveja desceu mais amarga que o habitual.

- Vamos jogar? - eu disse. Ela se acendeu como se tivessem lhe colocado um reator no rabo.

- Jogar?

- É, jogar. Tá a fim?

- Depende do jogo...

Leu a cartilha, mocréia? Se fazendo de difícil para mim? Não faz isso. Não pega bem. Especialmente numa segunda.

- Chama-se "Sedução".

- Não conheço.

- É claro que não...

- Você que inventou?

- Eu? De jeito nenhum. Nem sei jogar direito...

- E como é?

Bebi a cerveja até o fim. Ela aproveitou e derrubou o bastião. Sentou do meu lado.

- Começou errado.

- Já estamos jogando?

- Desde que você entrou.

Deu para ouvir as fichas tilintando em seu cérebro enquanto caíam. Acendeu um cigarro. Filei um.

- Tem fogo? - ela me perguntou, piscando o olho muito maquiado.

- Pára com isso! Tá estragando o jogo!

- Mas eu nem sei as regras!

- É simples: se um ganha, ambos ganham. Se perde...

- Ah.

- O lance não é sexo. O lance não é ficarmos nos esfregando em um canto qualquer. O lance é seduzir. Mutuamente. Você não me seduz. É feia, atirada e vulgar. Se veste mal. Provavelmente é uma encalhada insuportável. E duvido que tenha mais do que meia dúzia de neurônios plenamente funcionais. Mas isso é parte do jogo. Você precisa me convencer que pode valer a pena.

- Você me acha feia?

- E burra. Sim, acho. Mas isso pode mudar. É por isso que estamos jogando. Convença-me do contrário.

Ela pensou por um instante. Dava para ouvir os relês chaveando em seu cérebro. O jukebox começou a tocar U2. Pela décima segunda vez desde que eu havia sentado no balcão.

- Por que? - perguntou ela, finalmente.

- Hum?

- Por que eu tenho que te seduzir? Por que você não me seduz?

- Eu já estou fazendo isso.

- Já?

- Já.

- Me chamando de feia e burra?

- Você não foi embora indignada, foi?

O estalo desta vez foi tão forte que acho que vi seu olho esquerdo dar uma piscada involuntária.

- Não... - concedeu ela, subitamente consciente da própria mediocridade.

- Não me entenda mal. Não sou nada melhor que você. Aliás, duvido que eu seja minimamente digno de sua presença. Sou um merda, um ninguém que se acha grande coisa. Me desculpe.

- Quié isso, não fala assim. Você é até bonitinho...

- Viu?

- Hã?

- Viu como funciona? É assim que você tem que jogar. Ataquei em seu ponto fraco. Sua autopiedade. Você, por um instante, se viu em mim, e isso gerou empatia. Virei um reflexo de sua solidão, e isso te atraiu que nem uma mosca para um balde de merda. Isso é sedução.

- Não, isso é pena.

- Pena o meu caralho. Se eu começasse a chorar em meia hora estaria com a cabeça enterrada em sua xoxotona.

- Você é um escroto!

- E mesmo assim você não foi embora. Vamos, estamos perdendo o jogo. Você ainda não me seduziu.

- Você também não está ajudando nada...

- Claro que não. Eu sou a vítima, estou na defensiva. Você que deu o primeiro passo. Já te seduzi antes de você sentar. Seja por falta de opção ou desespero, você viu em mim uma chance de não passar mais uma noite sozinha, chorando abraçada a um gato obeso. É o meu trunfo. E você ainda não o roubou.

- O que você quer que eu diga?

- Tudo menos isso.

- Isso o quê?

- Isso.

- Você é maluco!

- E você é patética.

Primeira lágrima. Ponto pra mim.

- Ô, cara, pega leve.

- Fica na tua, Johnnie Walker.

- Meu nome é Fulgêncio.

- Ô nomezinho feio da porra, hein? Dá mais uma breja.

- Baixa tua bola, aí.

Apesar da ameaça, me deu a cerveja. A feia ainda chorava, mas tentava disfarçar esfregando as bochechas. A maquiagem desfazia-se a cada passada. Eram lágrimas ácidas. Levantei e me aproximei dela. Olhei-a bem nos olhos. O fluxo diminuiu, mas o estrago já estava feito. Parecia um palhaço derretido. Ela me olhou também, meio assustada, meio implorando piedade. Tomei sua mão. Ela apertou a minha. Puxei-a mais para perto e lambi seu rosto. Sorvi lágrimas, maquiagem e tristeza. Ela não se afastou. Ao invés disso fechou os olhos e curtiu o gesto.

- Ganhou - eu disse em seu ouvido.

- Ganhei?

- Arrã.

- Vamos para minha casa?

- Não.

- Não? Por que?

- Porque o jogo acabou.

- Mas...

Soltei-a e fui embora. Paguei quinze paus pelos dois chopps, mas nem me importei. A noite tinha valido cada centavo.

Fazia tempo que eu não dormia tão bem.

19.6.06

Comenta ISSO, filho da puta!

Doutor,

o que move a criação? O que nos leva para a frente de um computador (tela, caderno, monte de argila) e nos faz querer transformar a tela em branco (ou a massa disforme) em algo a ser lido (visto, apreciado, criticado)?

Será uma urgência egomaníaca descontrolada, uma necessidade irrefreada por um espelho de Narciso? Queremos ser recebidos com latidos delirantes de uma cachorro estúpido que nos amará mesmo que o desprezemos?

É isso que leitores (admiradores, críticos) são. Uma matilha desenfreada de cachorros excessivamente carentes, que enxergam em seus donos um reflexo aperfeiçoado de si mesmo. Uma idolatria exacerbada, uma covardia inerentemente amaldiçoada em sua grandeza frente a nossa pequenez, apesar dessa última constatação não significar absolutamente nada, e eu apenas tê-la escrito para exercitar um vocabulário rebuscado. Mesmo assim pode ser citada como referência ou constatação de minha genialidade pseudo-parnasiana. Ou não. Voltemos ao tópico.

Por que buscamos ídolos, heróis ou modelos? Para que nos interessa saber com que papel higiênico eles limpam a bunda? O que nos motiva a gozar com seus paus e bocetas? O que faz deles melhores que nós? E até que ponto o que fazemos é importante para alguém? Digo REALMENTE importante?

Há quem diga que somos (são) endeusados por conta da divinização da criação. Uma pessoa comum, nascida de um pecado e parida com sangue e excreções, que consegue, num momento de inspiração (divina? metafísica? espasmódica?) criar algo a partir do nada que será digerido por outrem (!), e em seguida este digestor achará que tem o direito de emitir uma opinião a este respeito, mesmo que esta opinião simplesmente não acrescente ou deturpe absolutamente nada. Como se pedíssemos por isso!

E não pedimos? É claro que pedimos! Senão por que caralho produziríamos tal coisa, tal criação, tal qualquer-porra-que-se-diga-arte? Somos súcubos de atenção. Somos tão cachorros carentes quanto eles. Queremos ser chupados em nossas bolas cabeludas quando fazemos algum truque novo. Queremos ser cuspidos em nossas caras de pau quando fazemos algo horrendo, fedido. Falem mal, mas falem de mim! Não me ignorem, cabada de lambedores de cu! Amo vocês, mesmo odiando o que vocês dizem. Odeio vocês até a última geração, mas sou voltairiano convicto, e dou minha vida para que vocês tenham o direito de falar. Até merda. Aliás, se eu escrevo merda, que direito tenho em querer coisa diferente. Caguem em minha cabeça, cambada de putos!

Às vezes acho que só você, doutor, realmente me lê com um motivo sincero. Você me lê por obrigação, por ser parte de sua profissão. Caralho, você GANHA para me ler. O resto não. O resto só espera que eu, em um momento qualquer, destile algum comentário ou pensamento que ligará algum sentimento latente em suas cabeças de ampola. São órfãos cerebrais, parasitas neuróticos buscando eternamente massas cinzentas alheias para sugar. Querem que eu descreva minha realidade, ou para se sentirem superiores, ou para não se sentirem únicos, ou para simplesmente dar risada da escatologia alheia.

Pois então, chupem minha pica! Com gosto.

Mas depois me contem se foi bom.

Doutor, tarja preta significa remédio com vergonha da própria nudez?

Ou é algo simplesmente censurável?

Pensa nisso.

18.5.06

Zebedianas

Exercício de Metalinguagem ou Adulação Egomaníaca? Deixarei a História julgar, apesar de eu mesmo tender para a última. O certo é que é tempo de rebobinar o cérebro, separar o que vale neste vale raso que é este espaço, quiçá minha vida. O certo é que vez ou outra eu olho para trás. E se lá não tem um negão tatuado chamado Adamastor gemendo e suando, quer dizer que a coisa ainda está em seu trilho. Ou não.


Não gosto do big brother. É uma maneira institucionalizada de voyerismo, o que faz com que perca toda a graça.
Zebedeu

É difícil aprofundar mais do que isso. Ainda passo horas assistindo meus vizinhos pela janela, e nenhum deles recebeu convite para posar nu (apesar da mulatinha do segundo andar merecer). A vida está se desglamourizando por conta do excesso de reality shows. Moro em São Paulo. Quando quero realidade tiro a cabeça para fora da janela. Paro quando uma bala perdida encontrar minha testa.


Foda-se o câncer! Deveriam inventar uma cura pra gripe.
Zebedeu

Chamem-me de insensível, de escroto, mas se tem uma coisa que me irrita é gripe. Uma doença que te inutiliza mas que não mata. Um vírus bundão, uma falsa promessa. Não deveria existir. Covarde!


Academias são templos do narcisismo exacerbado.
Zebedeu

Nada tira da minha cabeça que, se pudessem, esses ratos de academia fariam sexo consigo próprios. E não estou falando de punheta! E duvido que alguém consiga falar "narcisismo exacerbado" três vezes bem rápido. E com uma paçoca Amor na boca.


Todo mundo te fode todo dia, mas no Natal eles lembram de comprar um lubrificante.
Zebedeu

A hipocrisia dos dias de festa é a pior coisa que existe. De um dia para outro todo mundo vira santo, vira bonzinho, deseja o melhor para mamãe ninfomaníaca, pro papai bichona, para o caralho de Jesus ou a porra da humanindade. E no dia seguinte chuta uma velha na rua para que ela não atrapalhe sua pressa, cospe asneiras pseudo-intelectualóides para meninos de rua que não estão interessados em lição de moral e tomam cafés com o mindinho em riste. Cambada de paus no cu.


Quando eu crescer quero ser um tsunami.
Zebedeu

Existe coisa mais linda que uma força descontrolada da natureza assassina? É algo que, quando acontece, fica todo mundo com cara de cu. Não tem quem culpar. Sou contra aquele pensamento de mea culpa, de consternação muda, de que é o planeta de vingando de tudo o que fizemos com ele. Porra nenhuma! O dia que as pedras quiserem se vingar, todo mundo vai se lembrar de seus próprios pecados. Até lá...


Felicidade é patrimônio. E não tem seguro.
Zebedeu

Um dia vou escrever um livro de auto ajuda. Só para ajudar no controle de natalidade e aumentar o índice de suicídios. A frase acima, fora do contexto, quase me transforma em um Lair Ribeiro. E qual o contexto? Bem, digamos que no mesmo parágrafo havia outra frase interessante: "Pobre não nasceu para a felicidade".


Mulher quando sorri é que nem louva-a-deus depois de trepar.
Zebedeu

Existe coisa mais nefasta que mulher? Eu, sinceramente, não conheço.


Sexo é moeda de troca.
Zebedeu

Misógino é teu pai!


O amor nada mais é do que um cu arreganhado em forma de um sorriso cagado. Ou seja, um buraco cheio de merda travestido de felicidade.
Zebedeu

Essa é a minha favorita. Gosto da construção da frase, da sonoridade, da poesia escatológica. Além do fato de ainda considerar como uma verdade absoluta. Não tem jeito, nós, homens, somos as vítimas desse jogo escroto e inescrupuloso chamado "Amor". As mulheres são como o ACM ou o José Genoíno. Deixam o trouxa achar que manda em Deus e no mundo, mas na verdade quem manda são elas. Titeteiras desgraçadas.


Não gosto da palavra "sonhar". Sonhar é sinônimo de aspirar, que por sua vez também é usada no sentido de puxar o ar. Como inspirar. Inspirar lembra referenciar. E meus sonhos não são referência para nada. São sempre pesadelos.
Zebedeu

Nuossa! Fui longe nessa aí!

Essas citações estavam no primeiro endereço do blog. É, aquele que foi bloqueado aqui na empresa. Esses pensamentos tem dois anos, e de lá pra cá porra nenhuma mudou. Eu continuo eu. O doutor continua aí. Lá fora as balas continuam perdidas, atrás de seu alvo-metade.

E eu aqui, reciclando bobagens.

Preciso arrumar assunto.

17.4.06

Cacófato De Mente

Você?

Eu.

Com todo respeito, mas você não deveria estar aqui...

Do que você está falando?

Você sabe muito bem. Nós não deveríamos nos encontrar. A essência do que somos depende disso. O que isso significa?

Por que precisa significar alguma coisa? Não pode ser alguma coisa irracionalizável, sem explicação?

Sabe que não. Não disfarça que eu te conheço. Vamos, estou esperando.

Isso você sabe fazer bem. Bem, pode explicar duas coisas, dois extremos, não meio. Dissociação ou Associação completa. Talvez tenhamos finalmente nos libertado mutuamente, o que explicaria este encontro. Você finalmente é apenas você, e eu somente eu. Ou então, do outro lado do espectro, tenhamos nos tornado um indivíduo apenas, amalgamado, cinza.

Não gosto desta última.

Nem eu da primeira.

Mesmo assim...

...estamos aqui. E este é um encontro que não ocorreria caso estivéssemos de sã consciência. Existe algo como sã inconsciência?

Está mais para insana consciência, mas não gosto de jogos de palavras, você bem sabe.

E eu, por outro lado, não gosto de você. E isso não ajuda nada. Somos finalmente dois ou somente um? Não gosto disso.

Gostos são relativos. Goste ou não, goze ou não, não interessa. Interessa que estamos aqui. Aqui e prontos. Prontos ou não.

Quem é que não gosta de jogos de palavras?

Saiu. Desculpe.

Não precisa. Aliás, é a primeira vez que o vejo se desculpar com sinceridade.

Como sabe que foi sincero?

Eu te conheço. Eu te criei.


Não, você me libertou. Sua megalomania não diminuiu depois destes anos. Eu já estava por aí antes de você me perceber.

Mesmo assim...

Quem é o verdadeiro Criador? E a verdadeira Criatura?

É uma questão de semântica. Um Criador é uma Criatura com um sufixo diferente. Criador. Cria-dor. Dor do parto?

O que é uma Tura?

Não fuja pela tangente.

Você me conhece...

E você é realmente livre? Será? Ou é um parasita? Somos dois ou um dividindo um espaço de sinapses? Você sobrevive com a ausência do hospedeiro, permanecendo em hibernação até sua próxima encarnação? E eu, vivo sem sua irritante presença? A relação parasitária poderia ter evoluído involuntariamente para uma simbiótica? Quem sou eu agora? Quem é você? Ou eu deveria perguntar "O quê?"

Você está me assustando.

O que não deixa de ser uma prova do que estou dizendo. Amalgamamos? Assimilei sua indiferença, seus vícios? E você adquiriu um pouco de minha humanidade? Ou foi o inverso? Seria você apenas algo latente, adormecido, aguardando para que eu lhe desse forma e conteúdo? Ovo ou galinha?

Você racionaliza demais.

Aí é que está. Resumo da experiência catártica: você está livre. Não preciso mais de você.

Então é assim?

Não do jeito que você está pensando. É uma libertação das boas. Assumo minhas falhas, e ao mesmo tempo libero minha dependência. Sem a necessidade, tudo o que resta é a vontade. Não preciso mais de você. Se eu quero mantê-lo, isso é outra coisa.

Como o gole social do alcóolatra?

Não. Como o mergulho nu do careta. Você está finalmente livre. Sei que não sobreviverá sem mim, mas o oposto é verdadeiro. Na realidade não há libertação. Há aglutinação. Você virou (É? Era? Será?) parte de mim, que posso acessar a qualquer hora, e se quiser. Nunca se precisar. Nunca mais.

Que papo de viado...

É o tipo da resposta que eu sei que sempre vou encontrar com você.

Você me conhece...

11.4.06

Onde está Zebedeu?

"Caro Zebedeu,

estou entrando em contato pois há semanas você não tem comparecido às nossas sessões. Estou seriamente preocupado, pois apesar de todos os avanços, ainda há muito a ser discutido. Você conhece os procedimentos: ou você comparece às sessões, ou serei obrigado a reportar ao juiz, que imediatamente providenciará sua prisão.

Não desejo fazer isso, pois você tem demonstrado progressos, e retirá-lo do convívio da sociedade apenas jogaria no lixo todo o trabalho dos últimos meses. Como psiquiatra eu realmente não gostaria de ver meu trabalho desperdiçado desta maneira, e como amigo não me agrada a idéia de perdermos nossas conversas.

Espero que ao menos você esteja mantendo sua medicação.

Por favor, entre em contato assim que receber este recado.

Sem mais,
Dr. XXXXXXX
CRM XXXXX
"

Saudades, Doutor?

Não te ensinaram na faculdade os perigos da transferência?

Ou isso é um caso inédito de Síndrome de Estocolmo?

Onde estou?

Não sei...

Uma dica:

Adorei o vestido novo de sua esposa.

Aquele mesmo,

que ela usou no seu aniversário de casamento.

Medicação?

Eu tomo, mas só se o doutor parar com o gerundismo.

Difícil, né?

Muito mais,
Z.

20.2.06

Pega!

- Completa.
- Comum?
- Arrã.

O frentista foi encher o tanque de meu carro velho, me deixando sozinho com os fumos nublando meu cérebro. Cheiro de gasolina é bom. Gosto desde pequeno. Ia com meu pai ao posto sempre que podia, só pra ficar fungando aquele cheiro. Perversão de moleque.

Ironicamente, doutor, foi justamente uma coisa cheirosa que atraiu minha atenção. Um daqueles cheirinhos para colocar no carro estava pendurado num display bem ao lado de minha janela, bem ao alcance de minha mão. Tinha a forma de uma turbina de avião, com hélice interna e tudo. Daquelas para pregar na entrada de ar do painel, e que ficava girando com a incidência do vento, espalhando seu aroma enjoativo e nauseabundo de buquê de cemitério na carlinga de minha aeronave sem asas. Não era caro, mas eu tinha certa vergonha de comprar aquilo. Sei lá, parecia futilidade demais. Criancice. A bomba de gasolina bombeava o combustível para meu carro, e o zumbido começou a ressoar em meu cérebro. "Pega!", gritaram meus neurônios. "Pega!", como se aquilo de repente se tornasse algo inestimável, uma urgência descontrolada. "Pega!".

Nunca fui dado à contravenções desse tipo. Minhas poucas lembranças a este respeito são ruins. Meu primeiro roubo foi ainda criança, quando não tinha ainda noção do que estava fazendo, e talvez por essa razão foi o mais fácil. Roubei um brinquedo do consultório de meu pediatra. Roubei, não. Simplesmente peguei, e não larguei mais. Fui pra casa com o brinquedo e a vergonha de meus pais. Aliás, meu pai me obrigou a dar o brinquedo para uma criança carente dois dias depois.

E lá estava eu, diante de um impulso cleptomaníaco inexplicável, dado o valor do objeto de desejo. Um cheirinho em forma de turbina. Brega, brega. Mas eu queria. Nem sabia para quê. Meu carro já tem um fedor incrustrado de carniça que aquela turbina não conseguiria impulsionar para longe. Não, não era algo racional, não era algo explicável. Era uma vontade irracional. "Pega!".

Quando eu tinha dez anos fui com um grupo de amigos ao mercado, com o intuito de roubar doces. Tremi o caminho inteiro, apavorado com a idéia. Tentei, sem muito sucesso, convencer meus comparsas que aquilo podia dar merda. Parei quando começaram a duvidar de minha masculinidade. Aí era pessoal. Não eram mais doces, eram os primeiros hormônios. Ladrão sim. Viado nunca.

Fomos pegos com as camisetas forradas de pacotes de bolacha, chicletes e chocolates. Pegos pela ganância. Se tivéssemos roubado um pacote cada um, conseguríamos sair despercebidos. Mas ao invés disso optamos pr estufar as camisetas com doces que nem em dois dias conseguiríamos comer. O segurança até riu da nossa inocência, mas o humor não foi suficiente para trazer perdão. Nos levou até os fundos do mercado, obrigou-nos a se despir (para ver se não tínhamos nada escondido nas cuecas, explicou) e, não satisfeito, fez pagarmos vinte flexões nus antes de nos mandar para casa.

E o que eu queria com uma turbina cheirosa? Por quê? O sentimento daquela tarde no mercado voltou. Meu estômago revirou, minhas mãos suavam, tive uma ereção dolorida. Hiperventilação. Dava pra sentir os jatos de adrenalina chegando ao meu coração, reverberando em meus tímpanos. A bomba estalou avisando que o tanque estava cheio, quase fazendo eu furar o teto do carro com minha cabeça. O frentista chegou com a chave. Pedi nota fiscal. Ele me olhou torto, mas foi na direção da mesa preencher o canhoto. Aproveitei o momento e surrupiei a maldita turbina, jogando-a no vão do lado de meu banco.

Uma vez me roubaram as palhetas do limpador de pára-brisas. Roubo típico de espírito de porco, pois estava chovendo um bocado. Com a raiva veio a idéia: rouba outra. Uma só, do lado do passageiro de outro carro. Era uma emergência, algo perdoável. Saí na chuva e procurei um carro do mesmo modelo que o meu. Parei do lado de um. Olhei a palheta. Ela me ignorou. Clique, puxa e corre. Fácil. Ninguém ia ver nada, ninguém ia sofrer. Era fácil. Era perfeito. Pomba, nem mesmo um crime poderia ser considerado! Quero dizer, não tecnicamente. Havia um atenuante. "Pega!".

Voltei dirigindo meu carro como uma locomotiva, com a cabeça para fora na chuva, as palhetas ausentes no vidro e um carimbo de "bundão" na testa.

O frentista retornou com a nota. Perguntei o valor, ele disse. Preenchi o cheque, ele pegou. Liguei o carro e disparei na rua, desesperado para sumir dali. Gritei como um alucinado. Alcancei a turbina com a mão e ergui-a como um troféu. Era o fruto de um roubo! Meu primeiro roubo bem sucedido! Eu conseguira! Superara todos os fracassos anteriores! Eu era FODA!

Parei o carro e vomitei no meio fio. O gosto azedo na minha boca estragou meu júbilo. Senti-me mal, sujo, escroto. Eu era um ladrão, um bandido. Minha honestidade tinha sido deflorada por uma turbina cheirosa. Mesmo o fato de eu ter saído incólume não ajudou a dourar a pílula. Contraventor. Ladrãozinho de galinhas. Trombadinha de posto de gasolina. Era isso o que eu queria? Era essa a sensação que eu buscava?

Sem conseguir mais olhar para aquela turbina, joguei-a em cima da poça de vômito. Bati a porta e fui para casa, decepcionado e orgulhoso de mim mesmo. Uma gangorra moral. Não conseguia decidir se tinha feito bem ou mal ao jogar fora a turbina. Por bem ou por mal ela já estava roubada mesmo. Ningém faria um escândalo por causa de um cheirinho roubado. Precisava jogar fora? Eu conseguiria olhar para aquilo de novo?

Foi quando me dei conta: discriminado na nota fiscal estava lá: uma linha, gasolina. Na de baixo, cheirinho.

Eu não tinha roubado nada.

Agora, doutor, fico feliz ou triste?

8.2.06

Quando o Mundo perdeu o senso de humor

José (olhando para o berço): Bem que ele é forte e saudável. Pena que só vá viver 33 anos.
Maria (suspirando): É, mas para um palestino até que não está mal.


Doutor,

o que acontece com o mundo ultimamente? Sabemos que algo está muito errado quando vemos que uma piada infeliz pode se tornar o estopim de uma guerra que vem fermentado há décadas, tornando o que sempre foi encarado pelo Ocidente como algo que arrancava suspiros de "É triste, mas fazer o que?" em um conflito mundial em nome de uma salada cujos ingredientes ainda são pouco claros: petróleo, estratégia, conquista, fé, posse, orgulho, preconceito, etc, tudo misturado e sem nenhum deles se sobressaindo.



Tudo começou com uma charge? Não. Com a seqüência interminável de atentados suicidas? Com a invasão dos israelenses na Palestina? Com a campanha de Maomé pelo Oriente Médio? Pela morte de Jesus? Pela invasão romana? Não. Aliás, se fosse feita uma enquete na região, a resposta absoluta seria um infantilóide "Foi ele quem começou!". Começou exatamente o que ninguém sabe direito. O que todos sabem é que, independente da fé, precisam seguir cegamente a lei do "Olho por olho, dente por dente". O resto é semântica.



A questão é que há muito tempo os humoristas são as vozes da razão em meio à insanidade vigente. São eles os responsáveis, com sua análise crítica, à reflexão a respeito dos acontecimentos. E isso desde antes da humanidade aprender a escrever! É justo crucificar um país por causa de uma charge ofensiva? Até que ponto o respeito à fé é mais importante que o respeito à liberdade de expressão? É nesta "zona cinza" que o problema se instalou, e, confesso, não há resposta fácil.



O problema é mexer no vespeiro. Com todo respeito à comunidade muçulmana, mas as charges podem até ser ofensivas (e realmente o são!), mas olhem para seus próprios umbigos e vejam a propaganda que os mais fanáticos de vocês estão disseminando há décadas. É ofensivo retratar Maomé com uma bomba no turbante, mas não ver uma mãe idolatrar um filho que se explodiu em um mercado, matando duas dúzias de inocentes no processo? Não julgo dogmas ou preceitos baseados em fé, e tampouco acho que os israelenses são santos (muito pelo contrário). O caso é: não é uma manobra muito baixa utilizar o humor como o estopim de uma guerra?



Talvez estejamos chegando ao ponto culminante deste longo conflito. Joguemos no ralo tentativas de acordo e tratados de paz. Já que não tem jeito, que se exploda! Talvez seja até bom. Que nem quando vemos dois moleques se xingando no colégio. Chega uma hora que torra o saco aquele zero-a-zero e a gente quer mais é ver porrada. Resolve de uma vez, cacete!



Guerra Mundial? Que seja. Hecatombe Nuclear? Fazer o que? Genocídio, milhões de mortos, países dizimados, inocentes chacinados, sangue tingindo as ruas e as casas... Por mais que tentemos achar uma solução, cada vez mais caminhamos para o inevitável. Chame-me de apocalíptico se quiser, doutor, mas eu acho que está na hora do bicho pegar. E o maior sinal disso é que o mundo está perdendo seu senso de humor. E sem isso, de que vale continuar lutando contra a maré? Desce a bomba!



Pelo jeito, desta vez a Montanha foi à Maomé. Agora agüenta, Montanha!

30.1.06

Sacrilégio na Sacristia

Padre,

me perdoa, pois pequei. Um bocado. Se eu tivesse tempo narrava tudo, mas o senhor deve ter outras pessoas para ouvir. Aliás, deve ser um saco ser padre, não é? Ficar aí, nessa casinha, ouvindo as barbaridades das pessoas... Pensando bem, você deve ouvir uma penca de coisas interessantes. Safadezas, sacanagens, putarias... Mas, pensando melhor, você ouve e não pode contar pra ninguém, e isso é uma merda... Ops, desculpe.

- Tudo bem. O que você quer me contar?

Ansioso? Deve estar morrendo de curiosidade, né? Eu ficaria. Bom, como o senhor deve ter notado, não sou um freqüentador assíduo desta igreja. Nem esporádico. Desta ou de outras igrejas. Acho que minha última confissão foi quando eu tinha dez anos, e mesmo assim foi obrigado. "Padre, eu colei catota de nariz embaixo da carteira". O que um moleque de dez anos tem pra confessar? Que pecado cabeludo um guri pode ter cometido que mereça essa sabatina? E quem é o senhor para julgar? Teu deus não diz que é das crianças o reino dos céus? Putz, deve ser um inferno lá, cheio de pirralho ranheta gritando. E porque "dos céus"? Tem mais de um céu?

- Seu pecado?

Tá, desculpe. Bom, nem sei por que entrei aqui. Na igreja, quero dizer. Acho que o pecado já começou aí. Tava mascando um chiclete que já tinha perdido o gosto, e pensei em colar a borracha babada em algum lugar. Pecado de moleque. Entrei aqui, desviando de carolas, até a estátua de Jesus do lado do altar. Fiquei um tempo olhando pra cara do infeliz. Por que sempre que fazem uma estátua de Jesus ele está de olhos baixos, como se tivesse acabado de levar uma enrabada de um filisteu? Sei lá, se eu fosse montar uma igreja ia fazer o símbolo máximo um tipo de Conan. Um cara forte, troglodita. E o lema seria: "Pecou? Vai ter que encarar esse aí!". Que nem os deuses gregos. Aliás, os deuses gregos eram muito mais divertidos. Zeus comia todas...

- Olha a blasfêmia, meu filho.

Desculpa. Bom, o lance é que eu não colei o chiclete. Fiquei lá, olhando pra estátua do judeu deprê. Sei lá por que. Aí apareceu uma carola do meu lado, toda sorridente. Falou uns lances que não entendi, sobre amor, piedade e morte por nossos pecados. Papo de carola, o senhor sabe como é. Saquei a velha: dava um caldo. E ela gostou da encarada. Se benzeu e foi até a sacristia. Abriu a porta, espiou dentro, e depois me chamou. Levei um tempo pra sacar que era realmente comigo, mas fui. A sacristia tava vazia, e a velha (que nem era tão velha assim...) trancou a porta assim que eu entrei. Foi meio rápido. Quando vi a saia dela tava arriada, a calçola no tornozelo, e meu pau enfiado no seu rabo. Assim, sem muito pudor. Comi o rabo dela em cima da mesa. Enquanto estava sendo empalada, a velha ficava gritando: "Me fode, meu Jesus! Me enraba, meu Deus! Goza dentro, meu Senhor!". Gozei dentro. Foi forte. Foi bom. A melhor gozada da minha vida. Enchi a velha de porra.

- ...

Mas não terminou aí. Se fosse só isso tava tudo certo. Uma trepadinha sacrílega, coisa leve. Já fiz coisa pior, e nem por isso confessei. O lance foi outro. Assim que acabei, saquei o pau fora daquele cu velho e senti vontade de dar uma surra na carola. Ela subiu a calçola, arrumou a saia e eu enfiei a mão na cara dela. Assim, sem motivo. Só desci o braço, o pau pingando pra fora ainda. Estapeei ela uma, duas, trocentas vezes, até que ela caísse de joelhos no chão. Aí esfreguei meu pau melado na sua cara enrugada, segurando-pelas orelhas. Ela chorou, pediu misericórdia. Isso só me deixou mais louco. Ergui seu corpo e virei-lhe um soco na boca. Daqueles bem dados, sabe? Machucou minhas falanges, mas quebrei uns dois dentes da coroa, que caiu no chão cuspindo sangue. Ela sabia o que ia acontecer, e começou a chorar em pânico. Meu pau ficou tão duro que começou até a doer, mas era uma dor boa, como dor de dente de leite mole. Gozei de novo, escorrendo minha porra no chão. Ela entrou em pânico quando viu isso e começou a se arrastar na direção da porta. Na minha mão tinha uma faca. Com a lâmina eu cortei os tendões de seu tornozelo, rasgando a meia calça no processo. Ela gritou e esperneou, patinando no sangue que escorria no ladrilho. Pulei em cima dela, virei-a para mim e rasguei sua blusa e sutiã, expondo seus peitos murchos. Passei a faca neles, fazendo o sangue escorrer. Ela parou de gritar, e só me olhava com aqueles olhos apavorados. Se mijou toda, a escrota. O cheiro era insuportavelmente forte. Furei seus olhos com a ponta da faca por causa disso. Ela os fechou quando viu a faca se aproximando, então tive que furar por cima das pálpebras. Levantei e deixei-a lá, chorando sangue deitada na poça de mijo. Mexi no armário do canto e encontrei um pouco de soda cáustica. Acho que o senhor usa pra limpar o chão. Joguei em cima dela, que ficou se contorcendo que nem uma minhoca chapada de anfetaminas enquanto o bagulho queimava suas feridas. O sangue dela ainda jorrava. Sujou tudo. O senhor me desculpe a confusão.

- ...

Depois que ela parou de se debater, acho que mais de cansaço que outra coisa, cheguei perto dela. Nesta altura meu pau já estava mole. Termômetro frio, fim da brincadeira. Passei a faca em sua garganta de um só golpe e fiquei assistindo ela gorgolejar até morrer. Limpei a lâmina na sua saia e saí da sacristia. Nem sei por que acabei caindo aqui.

- Arrependimento, talvez?

Hum, não, não foi isso. Acho que mais curiosidade. Queria ver a sua cara quando contasse o que eu fiz. Além disso, que graça tem matar alguém se não posso contar pra ninguém? Não, não me arrependo de ter enrabado a velha na igreja, e nem de ter matado ela de maneira tão divertida. Aliás, isso não é uma confissão. A verdade é que eu não sou católico.

- Tudo bem.

Tudo bem? Como assim?

- Está tudo bem.

Como é? Não vou ter uma penitência? O senhor não vai me condenar a uma eternidade de sofrimento?

- Não. Você não é católico, então não acredita nisso. E eu, na verdade, não sou um padre.

Não? Então quem...

MÃE?!?

--

Putz, que sonho maluco.

Doutor?

Divirta-se.

20.1.06

O Crepúsculo da Bicha

Doutor,

a cena habitual: eu, um bar, uma cerveja. Noite de quinta feira e categoria. Barman bocejando. Caubi Peixoto chorando babaquices no alto falante. Cérebro formigando, saco enchendo. Daí entra em cena uma bichinha. Daquelas, sabe? Camiseta cortada, mãos de tiranossauro, óculos coloridos, cabelinho estranho, magra que nem um somali. Caminhava pisando em ovos com os pezinhos calçando uma sandália cheia de brocados. Bolsinha a tiracolo. Veio até o balcão e estacionou ao meu lado. Pediu um Saint Remy pro barman, que preparou o drinque e o entregou sem mostrar qualquer reação. A bicha deu uma bicada na bebida, sem esquecer de deixar o mindinho ereto enquanto erguia o copo. Suspirou.

- Tô passada! - disse, a lígua sibilando entre os dentes. - Pas-sa-da!

Acho que ela esperou algum comentário meu, mas como não dei trela, continuou:

- Não aguento mais essa vida - chorou. - Acabou tudo, a graça, o brilho, o tesão. Quero morrer!

- Então cala a boca e se mata de uma vez, ô caralho! - resmunguei, me arrependendo em seguida.

- Acabou a graça! - gritou ela, saltitando em seu tamborete. - Fiquei ultrapassada! Dê-modê! Sou um fóssil, uma relíquia, uma pantufa velha e puída esquecida embaixo do futón, uma gravata de piano, uma...

- Uma porra de uma bichola chata! Porra, vai se tratar!

- Sou bicha, sim. Bicha, viado, paneleiro, tresloucada, entrevada e pau no cu! Sou tudo isso, mas não sou mais gay. Não, não sou. Virei uma caricatura, um estereótipo, um cliché de comédia do final do século passado! Sabe por que? Sabe? Hein? Hein?

- Porque ninguém agüenta mais tanta frescura junta?

- É! É isso aí! Gay hoje é fino, classudo, elegante, inteligente, compreensivo, refinado. E eu não, sou só uma bicha velha e descontrolada, louca pra subir na mesa e dançar que nem uma doida, fazer um pití, apalpar a bunda do gostosão da festa, fazer comentários impertinentes e sexistas pra todo mundo. E por isso estou fora de moda! Até cowboy gay é melhor que eu! Olha minhas roupas. Olha! Quem, senão uma bicha louca como eu se vestiria assim? Mas não, hoje a "comunidade gay" só veste GAP, Armani, Gucci... Como eu, essa bicha pobre e segregada vou conseguir dinheiro para esse tipo de coisa? Moro de favor num quarto-sala na Barata Ribeiro, e o pouco que ganho não dá nem pra comida, quanto mais para decoração. No meu tempo bicha levava porrada todo dia, dava o cu pra quem estivesse a fim, era o ó do borogodó. Agora não. Só vemos por aí os homossexuais finos, elegantes, bonitos e bem alimentados. São executivos, empresários, ricos. Deixamos de ser minoria, de ser diferentes, de chocar. Somos moda agora. Porra, a merda do mundo virou gay!

Ouvi a lamúria sem me manifestar, mas aquilo já estava me enchendo o saco.

- Ô Bornay! Pára de chorar agora ou te meto a mão na cara!

- Jura? Jura que faz isso?

- O negócio é o seguinte: esquece cinema, televisão ou revista, tá? Esquece. Agora pensa: quantos gays bonitos, elegantes, educados, refinados e ricos você conhece? Pessoalmente?

- ...

- Taí. Mito. Lavagem cerebral da mídia. Marketing de minorias. É só ir a uma parada gay ou desfile de carnaval e perceber que a realidade é bem diferente. Vocês continuam sendo uma cambada de filhos da puta espalhafatosos, inconvenientes e desagradáveis que só estão no mundo para aporrinhar. Então pára de viadagem e vai pro teu muquifo dar o rabo pra algum pervertido e me deixa em paz, tá legal? Você ainda são uns aliens emplumados, tá certo?

A ficha do viado demorou a cair, mas deu pra notar a hora exata que aconteceu. Os olhos cheios de maquiagem brilharam por trás do óculos, e a boca se abriu num arremedo de sorriso torto. Limpou as lágrimas, se levantou com um salto afeminado e veio correndo em minha direção, a boca já fazendo um bico, pronta para um beijo estalado. Levou um banho de cerveja antes de completar seu intento.

- Ai, meu Deus! - gritou ela, empolgada. - Obrigada! Obrigada, obrigada, obrigada... - e saiu do bar correndo a passos curtinhos.

- Trás outra, Zé.

O barman abriu outra cerveja e colocou em cima do balcão.

- Que foda, hein? - disse ele.

- Pode crer.

- Gostei do jeito que você lidou com ele. Merecia.

- Valeu.

- Sabe, eu largo daqui a meia hora. Que tal se a gente fosse até meu apê? Comprei um home theater novinho, e o box de Will&Grace. A gente podia assistir juntos...

Deixei uma nota em cima do balcão e levantei, sem encostar na cerveja. Ele ainda me olhou com alguma esperança embaixo daquelas sombrancelhas bem aparadas. Me virei para ele antes de sair e mostrei meu dedo do meio.

- Te fresquêia, ô bichona!

12.1.06

Simbiose

Doutor,

quando eu era moleque, com os hormônios fervilhando em minhas bolas, eu arrumei o esquema ideal de conquista. O senhor me conhece. Uma de minhas poucas qualidades com certeza não é a aparência, então eu podia eliminar a estratégia da mera atração espontânea de meu repertório. Além disso era tímido (ainda sou), o que também não ajudava quando era necessário fazer a abordagem. O esquema ideal surgiu mais por acaso do que por planejamento, mas pelo tempo que durou funcionou a contento.

Éramos três amigos. Eu, o Manco (que não era manco, mas que ganhou o apelido após discutir com um bêbado, que o chamou de "Manco das Idéia" (sic)) e o Antenor, o gostosão do bairro, belo como um deus grego, burro feito um cachorro de beira de estrada. A amizade surgiu naturalmente, sem que forçássemos nada, e também naturalmente descobrimos nossas participações no esquema. Antenor era a isca. Manco era o puxador de assunto. Eu era o sidekick, o contra-regra, que ficava nos bastidores garantindo que tudo seria feito a contento. E funcionava, na maioria das vezes.

Antenor sempre atraía todas as mulheres em qualquer evento. Era a isca. Além de ser dono de uma beleza ímpar (chegou a virar modelo), era extremamente carismático, o que ajudava muito a mascarar sua completa e total ignorância dos assuntos mais básicos. Era o burro simpático, que ninguém entende por que gosta, mas que gosta mesmo sem entender. Ainda assim de vez em quando precisávamos interferir, principalmente quando percebíamos que suas asneiras podiam sair do controle e reverter o esquema vencedor. Nas vezes que era impossível evitar algum comentário especialmente grotesco, a Noite de Caça virava Noite de Briga, o que, no fundo, também tinha sua diversão.

Depois que Antenor atraía nossas presas, era hora de Manco atuar. E ele era um mestre no quesito "Tirar assuntos da cartola". Não era feio como eu, mas também não era bonito como o Antenor. Tinha um grande nariz adunco e um ego quase do mesmo tamanho que ele, mas possuía uma lábia invejável. Era mestre em fazer as mulheres se apaixonarem. Conversava a respeito de tudo, e sempre tinha alguma opinião bombástica para dar, mesmo que elaborada de última hora. Seu maior mérito era falar tanto que não dava tempo para suas vítimas pensarem a respeito. A maioria só percebia o esquema no dia seguinte, e aí já era tarde. Além disso Manco era imune ao amor. Tratava as mulheres como patos em sua alça de mira. Deixava-as literalmente de quatro, e saía andando sem pudores, pronto para a próxima.

A minha atuação era mais discreta. Eu ficava no fundo, apenas aguardando os restos caírem da mesa, como uma rêmora presa a uma barriga de tubarão. Nunca fui bonito, nunca tive um bom papo, nunca fui imune ao amor. Eu era o que freqüentemente saía de mãos abanando, o último da fila darwiniana, mas mesmo assim me divertia muito com o esquema. E de vez em quando sobrava alguma coisa interessante para mim, e todas as noites de fracasso eram imediatamente esquecidas. Éramos o Belo Imbecil, o Feio Esperto e eu, a Rêmora Caronista.

Certa vez Antenor atraiu algo incomum para ele: uma mulher linda e inteligente. Entenda, não é um pensamento machista, eu sinceramente acredito na união das duas qualidades no sexo feminino, já tendo testemunhado mais de uma vez acontecer. O lance é que não era comum esse tipo de mulher se interessar pelo Antenor. Normalmente após duas frases elas fugiam para o Manco, ou mesmo para mim (se a noite estava terminando). O lance é que ele ficou com ela, e depois a trouxe de volta para a mesa. Não me recordo seu nome, mas era uma jóia rara. Sem que me desse conta, começamos a conversar. Trocamos idéias, opiniões, impressões. Era uma conversa e uma visão deliciosas. Mesmo assim acabei beijando uma amiga dela. Naquela noite outro esquema foi naturalmente construído, mesmo que eu não tivesse percebido imediatamente. Nos dias seguintes Antenor trazia sua nova "namorada", que trazia alguma amiga para mim, além de, é claro, sua conversa deliciosa. E eu acabava ficando com suas amigas enquanto fantasiava com ela.

Um dia juntei coragem e perguntei por que ela não ficava de uma vez comigo, já que nos dávamos tão bem, e sim com o Antenor, com quem nem ao menos conversava. Sua explicação foi incrivelmente clara e cruel: "Sou muito bonita para ficar com alguém como você. Gosto de conversar com você, mas ninguém compreenderia essa contradição, e isso acabaria nos separando. E gosto demais de você para colocar tudo a perder por causa de sexo".

Compreendi imediatamente o esquema. Toda vez que ela beijava o Antenor, estava me beijando. E toda vez que eu beijava alguma amiga sua, beijava-a de volta. Éramos, no fundo, namorados que eliminaram o empecilho sexual do contexto. Era algo genial, calculista, sem falhas. Chorei naquela noite em minha cama, desconsolado, apaixonado, amargurado, mas na manhã seguinte racionalizei que era o melhor. Continuamos assim, ela com o Idiota, eu com as Imbecis, mas sempre juntos, mesmo sem nos tocarmos fisicamente. O Manco não entendia nada. Era esperto, mas não muito inteligente. Foram semanas mágicas e estranhas, e que estavam fadadas ao fracasso, mas não ao esquecimento, tanto que estou aqui, quinze anos depois, narrando para você.

Depois que nos separamos a amizade com Antenor e Manco também ruiu aos poucos. Antenor arrumou outra namorada, loira, burra e linda como uma pintura de Botticelli, e cometeu o ato primordial: se apaixonou. Perdemos nossa isca. Eu acabei mudando para São Paulo logo depois. Para o Manco foi mais difícil, mas as últimas notícias que tenho dele é que arrumou outro grupo de amigos e continua na luta, sem noção de sua própria idade ou do ridículo. Pelo que sei se diz feliz, mas duvido que realmente seja.

Eu, a Rêmora, virei o que virei. Perdi meus tubarões, e as migalhas são cada vez mais escassas. De vez em quando penso em arrumar mais um Belo Imbecil e um Feio Esperto para me ajudar, mas aí me lembro do Manco e volto para meu casulo. Foi uma época deliciosa, das melhores da minha vida. Escrever as histórias daquela época seria o suficiente para encher uns três livros, mas sinceramente não sei se teria paciência para isso. Nostalgia vem e vai. Veio.

Agora já foi.

30.12.05

Resoluções

Doutor,

2005 foi uma merda. Das grandes. Um ano que passou literalmente em branco, com poucas lembranças dignas de nota mínima. Passou, acabou... Foda-se.

Chega a hora de pensar em 2006. O senhor me conhece, eu não tenho a menor espectativa que uma transição numérica faça alguma diferença, mas tenho recebido tantas mensagens de ano novo felizes e esperançosas que me sinto na obrigação de retribuí-las. No meu modo chulo, escatológico e amoral, obviamente. Cheguei a redigir uma resposta ao email padrão enviado pelo presidente da empresa para todos os funcionários, mas me segurei antes de enviar. Por mais que odeie esta merda de emprego, é ele que paga minhas contas miseráveis.

Mas não poderia deixar em branco esta data tão valorizada por todos, então segue abaixo a minha lista de resoluções para o ano vindouro. Vou imprimi-la e pendurar em minha baia, para "ticar" cada uma sempre que conseguir realizá-las.

Pois bem, em 2006 eu prometo...

... ser uma pessoa repugnante e anti-social, humilhando a todos indiscriminadamente e envenando quaisquer ambientes que eu esteja com meu mau-humor e meu sarcasmo patológico;

... ter menos medo do sexo oposto, e trepar sem pudores ou limitações morais. Sexo sem pensar. Sexo sem arrependimento;

... me masturbar sempre que tiver vontade, seja em casa, no escritório, no ônibus ou na fila do caixa rápido do supermercado. Me masturbar até lesionar irreversivelmente meu pulso;

... evitar ser preso por atentado violento ao pudor (de novo);

... responder com frases inteligentes e incrivelmente ofensivas a quaisquer pessoa que aparecer na minha frente, seja pedindo as horas, seja declamando Nietzsche;

... chutar a cabeça de meu chefe até que seu cérebro escorra pelas orelhas;

... parar de acreditar em política e partidos políticos definitivamente. Deixar de ter esperança em uma sociedade democrática e utópica, e ter coragem de anular meu voto na eleição;

... deixar de ser otário e tirar minha fatia do bolo público de uma vez por todas;

... não tentar parar de fumar nem de beber, pois sem meus vícios eu não tenho mais nenhuma desculpa pra continuar vivo;

... arrancar o mamilo de alguma puta apenas com os dentes;

... fazer uma coleção de baratas e pregá-las em um mural;

... dormir menos, parar de chorar sem razão e ter menos crises de autocomiseração;

... arrancar toda a roupa sempre que chegar em casa, e ficar balangando a madrugada inteira, mesmo que eu tenha alguma visita;

... castrar meu vizinho de baia para que ele pare de me interromper enquanto escrevo minhas resoluções, e para evitar que essa criatura bisonha procrie;

... fazer uma vasectomia, para evitar que EU procrie;

... gastar todo meu dinheiro em sexo, drogas e video games;

... ir até meu psiquiatra no dia 31/12/2006 e esfaqueá-lo lentamente, enquanto observo sua vida se esvair gota a gota, manchando seu carpete caríssimo, bem na frente de sua família amarrada. Obrigá-lo a assistir antes de sua morte sua esposa me fazendo um boquete, enquanto corto o cabelo dela com uma faca de pão. Estapear seu filho no rosto até que ele fique permanentemente deformado. Estuprar sua filha no cuzinho, sem vaselina. Cortar as pernas de seu cachorro. E aí então sair pelado e sujo de sangue na rua, gritando "Feliz 2007, caralho!!".

Até daqui um ano, Doutor.

22.12.05

Foda-se o Natal!

Doutor,

chega novamente a época dos clichês. Do velho obeso barbudo e pedófilo cercado de duendes-zumbis e viadinhos resfriados. Dos presépios malfeitos e das músicas com sininhos. De gastar o décimo terceiro em presentes e bobagens que levarão doze parcelas sem juros para serem pagas.

Dezembro é uma época do ano em que o brega, o cafona e o retrógrado são aceitos com sorrisos bestas nos rostos das famílias suburbanas. Somos todos enfeitiçados pelo vírus natalino. Saímos às compras, enfrentamos estacionamentos lotados de shopping centers e empurra-empurra de tias gordas e cheias de sacolas.

Odeio o Natal. Odeio mais do que tudo. E não por causa de um trauma ou experiência traumática (apesar delas realmente existirem, mas não vem ao caso). Sou um Scrooge do Novo Milênio, mas órfão de fantasmas do passado e futuro (os do presente não me abandonam). Minha vida não seria narrada por Dickens, e eu não viraria personagem da Disney.

Sou amargo, sim. Sou imune à felicidade, sim. Odeio iluminação de Natal, árvore cheia de bolas coloridas, arroz com uva passa e chester com abacaxi. Odeio sorrisos amarelos consumistas e papel de embrulho espalhado pela sala. Odeio encontro de família e tio bêbado bolinando a sobrinha adolescente. Odeio tia varizenta distribuindo pacotes. Odeio filmes de Natal. Odeio a Xuxa e o Roberto Carlos.

Sou um Câncer Natalino em remissão. Tenho crises de urticária só de imaginar a roupa do velhinho filho da puta. Aliás Papai noel é a maior prova que, sim, seus pais mentem para você. E desde que você se conhece por gente. Assim que a gente descobre que a porra do velho esquimó não existe, rui simultaneamente a confiança paterna. "Papai Noel não existe? Então para onde você mandou o meu cachorrinho? E a massagem na empregada? Ela não estava doente de verdade, estava? E por que o padeiro sempre vem aqui quando o papai tá no trabalho?". É tudo de uma vez.

Um dia meu pai me disse: "Nesse Natal Papai noel não vem!". "Por que, pai?". "Porque a gente é pobre, caralho!", foi a resposta ébria. E ele não veio mesmo. Comemos arroz, feijão e farinha de rosca aquela noite. Baré Tuti Fruti sem gás (mas com a colher no gargalo). Televisão desligada e pai embriagado. Mãe olhando o vazio. Eu, numa última esperança, desenhei uma cena natalina numa folha e dei de presente pro meu pai. O final de cinema seria a família se abraçando aos prantos, enquanto um exércitode freiras sorridentes invadiria nossa casa cheia de presentes e com uma ceia decente. Não rolou. Meu presente foi uma surra de cinto no lombo. Pra deixar de ser besta. Pra deixar de ser criança. Eu tinha 5 anos e já sabia que o Natal não prestava.

Lembro-me de uma tira do Henfil, que mostrava que apenas no Natal as pessoas eram caridosas. Verdade, verdade. Eu, nem isso faço. Miséria já tenho a minha, não preciso compartilhar com ninguém. Não pedi ajuda, não vem me encher o saco!

Foda-se Papai Noel. Foda-se Jesus. Foda-se, foda-se, foda-se.

Natal é desculpa para falsa moralidade.

Todo Natal é hipócrita.

Espero que você morra engasgado com uma casca de noz, doutor.

12.12.05

Sinceridades Baixas

Doutor,

festa de fim de ano do escritório. Não queria ir, não estava a fim de ver embriagados os mesmos rostos que vi transtornados o ano inteiro. Mas fui, pela famosa "livre e espontânea pressão" da gerência. Até no amigo secreto me inscreveram. O nome no papelzinho não me dizia nada, e precisei me informar antes de comprar o presente. Que aliás onerou meu orçamento de maneira desnecessária.

Sexta de noite, happy-hour yuppie pós-trintão. Bar bonitinho. Segurança apalpando minhas bolas na entrada. Verifica a carteira, trouxe 50g de explosivo plástico travestidos de Visa. Cerveja cara. Comida fresca. Peguei uma caipirinha e encostei no balcão do bar. Logo estava cercado de coroas desconfortáveis, ainda calibrando a timidez com goles curtos.

Antunes, da contabilidade, foi o primeiro a puxar papo comigo. Gravata aberta. Careca sublimando suor, como se tivesse empurrado carvão num alto forno o dia inteiro. Os ralos cabelos do lado das orelhas arrepiados. E a noite mal tinha começado.

- Odeio essa merda - disse ele sob o bigode.

- Qual delas?

- Essa porra de empresa, essa porra de festa, essa cagada que é minha vida.

- Foda...

- Pelo menos não preciso ir pra casa e ver corrida de homem pelado. Vaca, piranha. Dando pro porteiro! E o Gordo, você viu? Filho da puta. Tenho vontade de matá-lo. Pior é que tirei ele de amigo secreto e tenho que abraçar o corno. Gastei metade do meu décimo terceiro no presente dele. Mas é chefe, vou fazer o quê? Não posso me dar ao luxo de perder o emprego. Não com a vaca estourando meu cartão de crédito todo mês.

Ele foi embora, ainda reclamando. Chegou logo depois o Jonas, colega de mesmo grau hierárquico que eu. Parou do meu lado e ficou quieto por um tempo. Virou a cerveja e pediu outra. Bebeu mais dois goles antes de finalmente abrir a conversa. Estava vestindo um terno impecável. Mas suas orelhas escorriam merda.

- Não vou com tua cara - disse, finalmente, sacudindo o vasilhame na direção do meu rosto.

- Hã?

- Você me ouviu. Se eu pudesse te chutava da empresa agora mesmo. Te deixava sem um puto, pra morrer na rua. Ainda pagava uma grana pra arrumar um negão pra te enrabar. Filho duma puta. Você é um cocô de cachorro. Um bosta. Um cretino.

Eu queria responder, mas a merda nas orelhas estava me distraindo. Além do mais sempre que ele abria a boca parecia que eu levava um tapa fedorento. Suor. Bílis. Vômito. Excrementos sortidos. Além disso ele ficava esfregando a própria virilha obsessivamente, o que não auxiliava em nada a minha concentração.

- Fodi tua mãe antes do café da manhã - continuou ele. - Teu pai assistiu tudo, o viado. Sabe a pilha de papéis que deixei na tua mesa hoje de manhã? Tudo bobagem. Qualquer macaco treinado saberia fazer esse trabalho. Mas se você não fizer no prazo te arregaço com um cabo de vassoura. Você vai ver. Quando eu for teu chefe, tu tá na rua.

Ele continuou por um tempo, e depois foi embora. Até se despediu, saindo em direção à roda dos gerentes, ainda puxando o próprio saco.

A caipirinha terminou. Pedi mais uma. Senti alguém parando ao meu lado. Era Cláudia, do Marketing. Ela sorria. De sua boca cheia de batom escorria uma gosma branca. Os cabelos estavam despenteados e a maquiagem borrada. Ah, e ela estava completamente nua.

- Tá aproveitando, hein? - disse eu, esperançoso.

- Não é pro teu bico.

- Não me fala em bico... - continuei minha carga, sem conseguir tirar os olhos daqueles peitos.

- Dou pra todo mundo no escritório - disse ela. - Já chupei até o faxineiro. Dei o cu para o Mendonça. Fiz uma espanhola pro Sassá, da Controladoria. Trepei com meia dúzia em cima da máquina de xerox, minha bunda tirando uma cópia a cada penetrada. Já tenho impressa uma bíblia pornô em preto e branco. Mas pra você eu não dou.

Nem ouvi direito. As palavras estavam saindo de sua vulva, e os grandes lábios não são muito articulados. Talvez falte uma língua...

- Você me assusta - ela continuou. - Mas não do jeito bom. Não. Do jeito ruim. Quando quero brochar penso em você cagando. Seca tudo.

- Não fala assim...

- Tchau. Vou dar pro Vice Presidente hoje. Viu o carrão dele? Amanhã eu vou te dar ordens, seu filho da puta asqueroso. Vou fazer você lamber as privadas, seu merdinha.

- Também te amo.

E foi embora. Assim que virou a bunda soltou um peido barulhento. Cheirei. Cashmere Bouquet. Eu sabia!

Começou a entrega dos presentes. Durante as descrições dos presenteados eu não ouvia uma única palavra. Até que de repente todos explodiam e gritavam um nome. Aí quando o presenteado agradecia o silêncio retornava. E depois o ciclo se repetia.

Uma hora explodiram "Zebedeu", mas foi uma explosão pífia, que nem um traque molhado. Quem me tirou foi o Pascoal, gerente de relacionamentos. Assim que peguei o pacote descobri que era um livro. Abri o pacote. O título era: "Vai tomar no cu, seu merda ignorante! Espero que você morra engasgado em seu prórpio vômito!". As páginas eram de papel higiênico usado. Mesmo assim agradeci, e sem enrolar muito chamei o meu amigo secreto. Era a Joana, a recepcionista. Ela não escondeu a decepção, e arrancou o pacote de minhas mãos. A foto saiu uma porcaria. Ela abriu e viu o jogo de brincos e colar de bijuteria.

- Puta que o pariu! - gritou. - Que coisa horrorosa! Eu não daria isso pra empregada da minha empregada! Caralho, vai ter mal gosto assim no inferno! Espero que você tenha guardado a nota fiscal, porque eu não uso esse lixo nem na Festa do Ridículo! Vai se foder! Gastei uma puta grana no meu presente e é isso que eu ganho?

Bebi mais duas caipirinhas, paguei uma fortuna e fui pra casa. Liguei pra um Disk Sexo e fiquei ouvindo mentiras a noite toda.

Chega de sinceridade.

5.12.05

Surfando na Bruna

Doutor,

a nova celebridade instantânea do momento é a tal da Bruna Surfistinha. Aquela mesmo que deu e contou, em blog e em livro. Deu, escreveu, e o pau comeu. Largou a vida e estourou. Bruna virou Raquel. Raquel virou celebridade, aproveitando seus quinze minutos de Warhol. E está aí, em programas de televisão, revistas, jornais, e principalmente em seu insuportável livro, que pipoca em todo canto como uma doença venérea.

Não, não estou aqui afiando um discurso moralista. Não tenho nada contra as prostitutas. Pessoalmente acho degradante para todos os envolvidos na negociata fornicante. Não tem tesão, não tem desejo. Tem lubrificante e gozo falso. Tem depressão pós coito. Tem voltar pra casa e se odiar no espelho. Mas cada um é cada um.

Voltando à puta escritora. Não sei até que ponto isso foi algo planejado ou se foi acidental, mas duvido muito desta última. De novo, nada contra quem faz sucesso com o próprio trabalho. Ela foi esperta. Eu sou uma anta que ainda não saiu do blog. Talvez seja inveja, mas também duvido muito. O lance é que não curto a hipocrisia com que o assunto é tratado, como se de repente ela se tornasse uma expert no sexo só porque cobrou pra ser currada por algum velho tarado ou moleque inepto. Proclama que seu texto é um alerta. Mas com a naturalidade que ela fala, o tiro sai pela culatra. Seu aviso se torna sedutor. Seu alarme é erótico, proibido, excitante. Atrai. Pra caralho.

O senhor bem sabe que não sou nenhum misógino ou impotente frustrado. Gosto de sexo. Gosto de dar uma trepada das boas, extrapolar os limites, fazer as paredes tremerem. Tampouco acho que sexo é algum tabu. O lance não é este. Certa vez disse aqui mesmo neste blog que o sexo era algo excessivamente mistificado, e ainda penso assim. Mas daí a glorificar uma profissão degradante em todos os sentidos é demais. Ou você acha que a maioria das putas estão lá por tesão? Ou que elas te acham gostoso como dizem? Se fosse assim, garanto que não cobrariam.

O mercado da prostituição não sairá abalado com as declarações da ex-puta. Não enquanto houverem homens incompetentes e com sensos de realidade deturpados. No final é apenas uma saída à miséria, e não tem nada de errado em querer alimentar os filhos (sim, puta tem filho, e não é força de expressão chula). Mas até aí garanto que não tem nada a ser glorificado. Orgulho pode ser, da mesma maneira que um alpinista mostra com orgulho as cicatrizes e os dedos amputados depois de escalar um Everest da vida. Mas não é glamuroso, não é atraente. Cacete, nem erótico é! Encaremos a realidade: Prostituição nada mais é que um estupro consentido, uma exploração amoral e baixa da miséria alheia.

Já fui em puteiros. Uma vez, durante uma despedida de solteiro, estacionei no bar enquanto os mauricinhos se esbaldavam, sentindo-se fortes, viris, pintudos, superiores às mulherzinhas que estavam lá apenas para receber sua porra mágica. Bati um longo papo com o barman, até que fui abordado por uma das meninas. Obviamente ela perguntou se eu queria um programa, que eu neguei. Sentou do meu lado e pediu que lhe pagasse uma bebida. Concordei. Ela até tentou insistir, e percebi que a noite deveria estar fraca demais pra ela precisar investir tanto em mim. Juro que quase cedi, mas não por tesão, e sim por piedade. E piedade não é algo erótico, apenas para ilustrar o que já disse antes. Pois bem, depois de algum tempo ela desistiu, mas não foi embora. Não tinha mais nenhum cliente livre. A noite acabara. Conversamos. Foi uma conversa simplória como uma conversa de vizinhos, apesar de nenhuma vizinha minha conversar com os seios nus (que eu saiba...). Ela me mostrou a foto dos filhos. Da mãe. Do terreno num barranco que queria comprar. Me mostrou o carnê atrasado da geladeira. Rimos, contamos piadas, nos divertimos. No final ela disse que tinha gostado de mim, e que daria o "serviço" de graça se eu quisesse. Recusei de novo. Como ficar de pau duro depois daquele banho de realidade? Dei-lhe um beijo no rosto e fui embora. Nunca mais nos vimos.

O lance da Bruna Surfistinha é o seguinte: ela é a puta mostrando as fotos. Enquanto está mostrando tudo, sorrimos, protegidos por nosso distanciamento. Daí desviamos o olhar, e a puta continua lá, por mais que num instante ela se sinta quase "normal". Mas a Vida é cruel. Não tem saída fácil. Bruna virou Raquel, mas Raquel ainda é uma puta, e vai ser pro resto de sua vida, por mais que teime em dizer que se aposentou. Porque ela provou algo mais que um milhar de cacetes. Provou da grana, da fama. E quando os leitores e telespectadores derem um beijo de despedida em seu rosto e irem embora, para onde você acha que ela vai voltar?

E não, meninas, isso não é nada glamuroso. Não interessa o que a Nova, Marie Claire ou TPM possam dizer.

Força, Raquel. Torço por você.

Mas, por favor, cale essa matraca antes que seja tarde demais.

4.12.05

Ressaca

Doutor,

estou aqui. Uma da manhã, e louco para escrever alguma coisa, mas nada sai. Nada rola, nada flui. Escrevi duzentas linhas, apaguei trocentas. Estou aqui, querendo nada, querendo algo, não tendo nada, não vindo nada. Quero beber, mas não tenho vontade de beber nada em específico. Quero comer, mas não tenho apetite. Mais um cigarro por conta disso. Tenho fumado demais. Tenho bebido demais. Tenho trepado pouco. Ou nada, mas é difícil separar a imaginação da realidade. Acho que enrabei a secretária de meu chefe semana passada, mas não sei se isso não passou de uma punheta no chuveiro. Belos peitos, bela bunda, cara de safada. Feia, muito feia. Feia gostosa. Feia linda. Não mereço. Nem quero.

Está escuro. O único abajur aceso é o monitor do computador. Digitar no escuro dói a vista. As hemorróidas estão queitas. Cortei a pimenta, isso ajudou. Estou de cuecas. Não quero ficar nu. Meu corpo me brocha. Quando escrevo tenho tesão, mas meu pau encolhe. Cabeça errada funcionando. E como digito com as duas mãos, não sobra nenhuma pra me excitar. Estou vazio. Estou cheio de estar vazio. Onde eu estou? Essa casa, esse lugar, essa merda não tem significado.

Quero ler, mas assim que pego um livro me injurio com dois parágrafos. Não, não, não é isso. Não é o que eu quero. Sai pra lá, escritor de merda. Vai se foder você e seu ego. Tua obra fede. Você é um bosta. Eu sou um bosta. Odeio televisão, odeio odeio odeio odeio eu. Odeio estar acordado à uma da manhã tendo que acordar às sete. E pra que? Pra quê, porra? Pra empilhar mais coisas na minha cabeça cheia. Pra empurrar mais contas com a barriga. Pra encolher mais o pau com barangas frias do escritório. Pra aumentar minha tendinite, até que eu possa pedir uma aposentadoria por invalidez. Inválido já sou. Só não o suficiente para me aposentar. Ainda não sou miserável o suficiente. Sou matéria prima útil. Como matéria fecal. Como merda. Não gosto do gosto, mas ela desce bem, e já está digerida. Não engorda. Não alimenta, mas não engorda.

O rádio começa a cantar "In the Flesh?". Não. Não é carne. Espírito é desculpa. É epiderme. É invólucro. Confinamento. Claustrofobia eptelial. Crisálida que não seca. E eu preso nessa capa morta e fedorenta. Onde? Como? Por que fazemos perguntas quando só o que queremos é respostas? Quisera eu fosse assim fácil.

Já mijei a cerveja. Não tenho nada pra usar de desculpa. Esse sou eu, eu mesmo, sem limites, sem barreiras. Eu de verdade. Bela porcaria. Coisa inútil, lamurienta e sem nenhum conteúdo. Mas escrevo. Escrevo para alguém ler. Não quero ser compreendido, nem tampouco salvo. Quero ser lido, criticado e execrado. Quero ouvir alguém dizer: "Você só escreve merda!". Aí beijo aquela boca crítica de língua, chupo seu veneno e depois mato o desgraçado. Uma cabeçada. Uma joelhada e muitos chutes e socos. Escrevo "merda" em suas costas com uma faca pouco afiada e chuto sua cabeça até espalhar seus miolos no chão. Escrevo merda na merda que você é. Aí bato uma punheta e esporro em seu cérebro. Você é só um porra.

Mas isso não acontece. Meus críticos tem medo. Quem me lê acha que me entende, mas na verdade apenas curtem o escritor tresloucado da mesma maneira que a um gorila arremessando pedaços de cocô na platéia. É divertido, vamos tomar um sorvete? Risadas pro palhaço e seu espetáculo sofrível. Tragédia alheia é colírio no cu dos outros. Alimenta o conformismo. Estou mal, mas tem pior, pensam. Foda-se. Está mal e vai morrer na merda. Eu não. Eu vivo na merda, e cago pra tua vida miserável. Não tenho nada a perder com a morte. Não tenho vínculos.

A vida é sempre uma merda pra quem pensa demais, e eu penso demais. Ignorância é bênção? Porra nenhuma. Prefiro abrir os olhos e ficar deprimido do que passar oitenta anos como um cego deslumbrado. Nascer, crescer, namorar, noivar, arrumar um emprego, casar, ter filhos, envelhecer, enviuvar, definhar e morrer? Tá, qual a porra da novidade? Todo mundo já fez isso. É chato. É monótono. É cretino. É animalesco, intuitivo, idiota. Somos idiotas seguindo instintivamente nosso código genético. Pau pra fora, homens! Temos genes a espalhar! Precisamos perpetuar a mesmice. Precisamos continuar fazendo o que fazemos há milênios. Tecnologia é preguiça institucionalizada. O básico é suor, sangue, porra e merda. O resto é firula.

Queria ser um monstro, mas sou apenas um pária fraco. As pessoas não fogem de mim, nem quando as espanto. Acham bonitinho. Acham divertido. Acham genial. Acho que vou vomitar.

Não é minha alma o que você está lendo. Quer uma alma vá a um centro espírita. Ou morra e procure a sua. Não venha até aqui a procura de respostas. Não venha me perguntar nada. Eu não sei merda nenhuma. Eu só escrevo. Eu só escrevo. E escrevo mal. Não sei ligar idéias, não sei fazer argumentos. Sou só um merda, louco pra acionar o pau e despejar minha papa genética em alguma boceta receptiva. Sou bicho, assumo. Sou preguiçoso, confesso. Quero que você se foda. Quero mesmo. Você e suas idéias medíocres. Não venha com papo. Não quero consolo, não quero que me compreendam. Só quero escrever, sem saber o que. Um dia eu leio tudo isso, mas não hoje. Hoje eu despejo o que penso ininterruptamente. Nem olho a tela, nem tiro os olhos do teclado. Frases curtas, mal redigidas, nem verso nem nexo. Gemido de coito. Coito inexistente. Vai e vém cheio de grunhidos. Escarro em sua cara. Gosma por gosma pega uma de cada ponta. É isso que você quer? Pra quê? Pra ter prazer? Não tô nem aí pro teu prazer. Meu prazer é ver tua cara de frustrada, sem gozo e recheada de catarro e porra , cujos espermatozóides vão morrer daqui a pouco, pois não tem óvulo no teu útero cheio de pílulas. Sorte deles. Queria ter essa sorte. Mas não sou nem uma gota de porra. Sou só a torneira. O transportador. Sou barrigudo sim, e daí? Chupa minha torneira. Engole a porra, que faz bem pra pele. Não faz? Então pra quê engolir, cretina? Pra fazer os micro-girinos passarem por uma maratona sem linha de chegada? Tadinhos. Estúpidos seres com meia carga genética. Zigotos. Nome feio pra uma coisa tão estranha. DNA com rabo.

Uma e meia da manhã. Chega. Vou tomar um Valium com cerveja vencida. Espero que não acorde.

Mas eu sei que vou acordar.

E aí começa tudo de novo.

De ressaca.

De novo.

1.12.05

Analogias Deputáticas

Doutor,

o que o senhor faria se descobrisse que, de alguma maneira, eu venho roubando seu dinheiro? Diretamente de sua carteira, na maior caruda.

Ou então utilizando seus serviços como maneira de justificar algum golpe em uma seguradora, adulterando suas notas para conseguir um reembolso maior?

Ou que eu bolei um esquema para que seus pacientes se beneficiassem de alguma maneira monetária de suas consultas, ficando com uma parte dos ganhos "por fora"?

Você chamaria a polícia, não é? E eu seria imediatamente preso. Poderia até rolar um julgamento, caso você não conseguisse um flagrante, mas no final eu teria que ressarci-lo de seu prejuízo e em seguida passar alguns dias sendo currado pelo Mano Pé-De-Mesa no Cadeião de Pinheiros.

Agora, imagine que num lapso estranho você tenha de algum modo me contratado para trabalhar em seu consultório (calma, é apenas hipotético) e descobrisse que desde que eu fui contratado eu usei o nome de sua empresa para retirar lucro em transações escusas. Tipo, vendendo remédios tarja preta para drogados, que eu consegui negociando parcerias com fornecedores. Parcerias que nunca se realizaram, mas que garantiam uma cota de "amostras grátis" semanal. O que o senhor faria? Me despediria por justa causa, e de novo chamaria a polícia. E eu seria preso e nunca mais conseguiria um emprego decente em minha vida. Literalmente viraria mendigo.

Bom, todo esse lance acima foi para fazer uma analogia com a papagaiada que acontece no congresso nacional desde que me conheço por gente. A cassação do Zé Dirceu ontem foi apenas mais um dos atos dessa tragédia interminável que é nosso governo. Acompanhei o ritual de cassação do começo ao fim, como se fosse o penúltimo capítulo de uma novela ruim. Assisti cada discurso, até mesmo o apaixonado do réu, que mais serviu como um canto do cisne do que como defesa efetiva.

No final, prevaleceu a opinião pública, que só é consultada quando convém, e ele foi cassado. Oito anos inelegível. Alguns no congresso comemoraram como se fosse final de copa do mundo. Outros ficaram deprimidos por terem cortado na própria carne. O povo exultou: "Mais bengaladas!". E o recém-caudilho-ex-bolchevique-de-cavanhaque saiu do palco, derrotado.

O que eu achei desse teatro todo? Foi pouco. Muito pouco. Porque diferente de um funcionário qualquer pego roubando, ele foi demitido e voltou pra casa, pra família, para umas férias de oito anos, bobear remuneradas. Não teve cadeia. Não teve algema. Não teve calça bege e camiseta branca. Não teve curra do Mano Pé-De-Mesa.

"Ah, mas são coisas diferentes", você me diz, e eu concordo plenamente. É muito pior no caso deles. Pois eles estão lá num cargo de confiança do povo. É, de nós, os babacas, o gado, a massa ignorante. Nós confiamos nesses merdas para gerenciar nosso país. Nós demos a eles o poder para fazer a diferença. E quando os pegamos abusando desta confiança não queremos que eles levem um tapinha na mão e pronto. Queremos que eles sofram no mínimo o mesmo que nós, anônimos idiotas. Queremos que eles tenham suas vidas arrasadas, devastadas, humilhadas. Que devolvam todo o dinheiro. Cada centavo. Que sofram com fome, dívidas e nome sujo na praça, incapazes de fazer um crediário de um microondas nas Casas Bahia. Que passem frio na fila do INSS. Que vejam sua aposentadoria ser retalhada. Que paguem por seus crimes com penas coerentes. Pois nós, quando escorregamos, comumente pagamos com juros excessivos. Que vantagem eles tem sobre nós?

O senhor conhece a teoria do Canibalismo Compulsório? É assim: se cada pessoa fosse obrigada a comer o que mata, os assassinatos diminuiriam bastante. Pois obriguemos eles a comerem a merda que semearam! Façamos da vida deles um inferno. Tragam eles para o nosso lado, e deixem-nos viver o resto da vida como um proletário com salário minguado. Isso sim é uma punição exemplar. Garanto que esses filhos da puta pensariam mais de cem vezes antes de armar mais um golpe.

Tapinha na mão não educa nem moleque de 5 anos. Tem que enfiar um braço no cu deles. Temos que fazer esses cretinos terem medo da gente. Sem bengaladas ou caras-pintadas que isso é piada jornalística. Temos que deixar bem claro que esses filhos da puta são nossos funcionários, e que se eles vacilarem a gente acaba com a vida deles. É o nosso dinheiro que eles estão brincando. Nosso! Sem desculpas malufistas de "rouba mas faz". Faça sem roubar! É para isso que você foi eleito e é pornograficamente bem pago! Então faça direito, ou então nós fodemos sua vida literalmente de verde e amarelo!

Democracia só funciona quando o governo tem medo do povo. Chega de sermos cordeiros ou psicopatas enrustidos. Chega de retóricas panfletárias. Chega de frases de ordem em cima de caminhões na frente de fábricas. Chega de papo. Tropeçou a gente chuta a cabeça. Vacilou a gente enfia uma faca nas tripas. Mexeu no meu, o pau comeu!

Aí quem sabe essa merda não anda?

29.11.05

Remelas Reincidentes

Doutor,

Está difícil dormir.

Não por causa de remédios nem nada disso. É algo diferente, que nunca senti antes. Já tive insônia, o senhor bem sabe disso, mas o fato é que desta vez eu não consigo precisar a razão. É simplesmente algo que me incomoda, como um comichão permanente no cérebro. Você sabe que as coisas não estão andando bem quando se pega lavando louça às quatro da manhã.

Já ouvi falar que os maiores gênios da humanidade sofriam de insônia. Agora eu pergunto: se todo gênio é insone, por que nem todo insone é gênio? Sou contra aquela máxima que diz que dormir é perda de tempo. Eu gosto de dormir. Torna o dia mais curto, e com menos espaço para o sofrimento arrastado que é minha vida. Mas isso é papo de depressivo, e o sintoma em pauta é outro.

Televisão de madrugada é uma coisa bizarra. É o submundo da grade de programação. Tudo aquilo que o telespectador médio não tem estômago para assistir em horário nobre é despejado na madrugada. Filmes ruins, séries jurássicas e datadas, programas bizarros e muita, mas muita reprise. No rádio não é diferente. Lembro um dia que o DJ disse que estava na maior ressaca, e que já que não tinha ninguém escutando àquela hora, ele ia tirar uma soneca. Para não ficar em silêncio a noite toda, deixou um disco do Pink Floyd rolando em repetição. Pelo que sei ele não foi punido por isso, ou porque REALMENTE não tinha ninguém além de mim ouvindo, ou porque há mais fãs de Pink Floyd insones do que eu imagino.

Ultimamente tenho tirado minhas madrugadas para escrever. É, doutor, até pornografia cansa, principalmente quando se começa a descer a ladeira da vida. Um dia, quando era moleque, flagrei meu pai se masturbando no banheiro com uma Playboy da Cláudia Raia, e aquilo foi um bocado deprimente. Ele já tinha passado dos 50, e pelo estado de minha mãe era até compreensível. Mas sempre que vejo os pés de galinha se acumularem nos cantos de meus olhos e os fios grisalhos começando a surgir em minha têmpora, é exatamente aquela imagem do velho pelancudo socando uma de olhos arregalados e boca aberta que invade minha mente. Cláudia Raia que me desculpe, mas velho punheteiro é de broxar qualquer um.

Mas voltando ao meu novo hobby. O grande culpado é este blog, que em sua tecnologia obscura permite às pessoas que entram leiam e comentem meus textos. Comecei a acreditar que escrevo bem, e daí para começar a escrever seriamente foi um pulo no abismo. Todo dia eu escrevo entre duas e dez páginas de texto. Biográficos. Ficções. Pensamentos. Escarros e esporradas. E por alguma razão bizarra guardo tudo em uma pasta em meu disco rígido. Talvez para uma posteridade qualquer.

Não tenho pretensões de publicar um livro. Não me interessa que outros leiam o que escrevo. Não escrevo para ser lido, mas para preencher minhas noites sem poesia. Não, não escrevo mais poemas. Essa merda eu larguei faz tempo, e não pretendo voltar. Poesia é uma masturbação mental sem orgasmo no final. Coisa de viado. Coisa de otário.

Talvez seja por isso que eu tenha deixado o blog meio às moscas nesse último mês. Tava de bode, tava de saco cheio. O que eu queria escrever não queria que o senhor lesse. Ainda não quero. Mas é uma coisa que me liberta, me tranqüiliza muito mais que os tarja preta que o senhor me receita. Sem planos, sem elaborações. Apenos sento na frente do computador e deixo o cérebro vomitar letras, como estou fazendo agora.

Criei um personagem. Sou eu mesmo, mas sem freios, sem escrúpulos, totalmente amoral, mas livre no mundo, e não confinado em minha bolha de mediocridade. Coloco-o em situações que já me enervaram no passado e faço com que ele reaja do jeito que eu gostaria de ter feito na mesma situação. Voam sangue, tripas e fluidos corpóreos diversos. Assassinatos. Estupros. Torturas. Escatologia e epifania. Epinefrina e tubaína sem gás.

E assim passo os dias. Com o sol, sou o proletário pau mandado de sempre. De noite sou um escritor frustrado, insone e bodeado com pornografia. Haja cigarro e vinho barato. Haja hemorróida e tendinite.

Durma-se com um zumbido desses.