O sangue espirrou no asfalto e no tênis novo de Amadeu, fazendo-o xingar tão alto que ofendeu o evangélico Baltazar, que sempre teve orgulho do nome bíblico, apesar de não saber absolutamente nada a respeito do tal personagem, da mesma maneira que Carine também não o conhecia, mas sentia o cheiro acre do suor exalado em suas pregações no meio da praça, torcendo o nariz da maneira que Daniel mais gostava, daquele jeito de menina sapeca que as sardas ressaltavam e o faziam recordar da paixão juvenil por Eleanor, sua primeira professora que, por pura coincidência narrativa, passava ao largo naquele exato instante sem reconhecer os ex-alunos, desviando-se quase na última hora de Felipe, cuja pressa não permitia que perdesse tempo com bobagens, o que o fez trombar com Gisele, assustando-a de tal maneira que seus gritos por um breve instante retiraram Hugo da meditação contemplativa das pombas da praça e o fizeram pensar novamente em Ivana, sua mulher, que havia marcado o encontro com ele lá, na saída do escritório, mas que, graças a Juarez, o chefe da repartição que saía naquele momento da garagem com seu sedã preto, se atrasara, obrigando seu Lima a adiar o fechamento do prédio e a afastar o sono de doze horas de pé com mais uma xícara de café que dona Maria, a copeira, havia salvado da última garrafa térmica da reunião da diretoria, para irritação de sua supervisora, a famigerada e temida Neide, relações pública e torturadora amadora, descontando nos pobres incautos a frustração de sua paixão não correspondida pelo diretor de aquisições, o Dr. Otacílio, que não era doutor em nada, mas gostava de ser chamado desta maneira, pois acreditava que inspirava respeito, algo que seu funcionário e puxa-saco de plantão, o Plínio, fazia questão de ressaltar, para ódio e frustração de Quênia, cujas últimas promoções foram sumariamente rejeitadas por conta do tal puxa-saco e de seu escudeiro, o fofoqueiro Rodrigo, que a havia flagrado aos beijos com Saulo na saída de emergência e ameaçado contar tudo para a namorada traída, Tânia, que por acaso também era a estagiária predileta de Ubirajara, o vice-presidente de tecnologia que estava tão entretido ao telefone com Veridiana, sua esposa, tentando convencê-la de que não conhecia nenhum nome que começava com a letra X para dar a seu bebê que nem notou quando Zé, analista de sistemas e deprimido, se atirou pela janela, espatifando-se como um melão maduro na calçada.
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Taí, doutor.
Você queria uma amostra do que ando escrevendo, então coloco para você um texto reciclado. Antigo, apócrifo e anormal. Como eu.
Espero que odeie.
3.3.08
Panorâmica sem cortes
Esporrado por Zebedeu às
10:55
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26.2.08
Estaca Zero
Doutor,
Lá estava eu novamente, remoendo idéias lubrificadas com álcool vagabundo, sentando a bunda num tamborete dum balcão de um bar qualquer. O copo, o guardanapo, o maço amassado, o isqueiro com pouco fluido, os olhos fixos, o cérebro a mil. Quando, para variar, alguém senta-se do meu lado.
- Problemas, amigo?
Normalmente apenas resmungo em resposta. Mas desta vez olhei para ver que figura meu Ímã de Malucos havia atraído. Um garoto. Imberbe. No máximo dezoito anos (o que deduzi apenas por estar bebendo um chope e não uma coca). Olhos claros. Cabelos impecavelmente longos. Camiseta branca. Pegou meu isqueiro sem pedir e acendeu um cigarro. Cravo.
- Não é da tua conta.
- Claro que não - riu ele, soprando fumaça enjoativa em minha direção. - Nunca é da conta de ninguém. Todos somos ilhas flutuando num oceano de indiferença. Não é?
- Eu mereço...
- Mas seus problemas eu sei quais são. Você está cansado de ser bonzinho. De ser o último idiota da Terra. Cansou de ser passado para trás. Estou errado?
Agora ele tinha conseguido minha atenção. Mas não o suficiente para que eu desse alguma trela. Isso não o impediu de continuar.
- A verdade é que você descobriu a duras penas que ser bom, ser correto só lhe traz problemas. Só lhe traz complicações. Não é isso?
- E quem te disse que eu sou bom?
- Eu sei.
- Sabe como?
- Eu sei tudo.
Pronto, agora quem sabia era eu. Mais um megalomaníaco pra minha coleção.
- Sabe tudo? Você é um tipo de deus?
- Não.
Ufa!
- Sou o filho Dele.
Minha cabeça desabou e quicou duas vezes no balcão. Resmunguei algo como "putaqueopariuporquesempretemumaMERDAdefilhodaputaseachandoJesusnomeucaminho?". Ele riu. Levantei a cabeça.
- E o que o filho do cara está fazendo num boteco fedorento...
- Ei!
- Foi mal, Zé. Traz outra, por favor? Continuando, o que o Jesus reencarnado está fazendo aqui, conversando com um merda como eu? Não tem uma humanidade inteira lá fora para você salvar?
- A humanidade está além de qualquer salvação. Não retornei para salvar a humanidade. Retornei para salvar o homem. Os homens como você. Não sou o cordeiro. Sou o lobo da evolução. Sou a mão esquerda. Aquela que destruirá, e não a que afagará.
- Bom trabalho. Espero que tenha sucesso.
- Terei. Pode acreditar.
- Perdoe minha falta de fé.
Ele tomou mais um gole do chope e tragou novamente o cigarro. Tossiu, com certeza pouco habituado aos vícios mundanos. Um Jesus moleque. Não sei por que mas fui com sua cara.
- Tá, Jesus. Me conta uma parábola então. Algo que me faça pensar a respeito de perguntas que nunca fiz e que não me interessam.
- Não tenho parábolas. Não sou o mensageiro, sou a mensagem. Não trago iluminação, trago epifania.
- Vai ter que fazer melhor que isso pra me convencer, pirralho.
- Não preciso te convencer. Você já é um convertido. Você é minha ferramenta. Através de você espalharemos a nova palavra no meio da perdição.
Refleti a respeito disso um instante, enquanto Zé colocava uma dose em minha frente e levava o copo vazio embora.
- Quer que eu seja seu apóstolo?
- Isso.
Um apóstolo de um messias da destruição da humanidade? Não era uma idéia tão ruim assim. Eu realmente havia chegado a uma conclusão que não adiantava nada ser bonzinho. Bonzinho só se fode. Bonzinho paga o preço dos cruéis. De repente era hora de mudar de estratégia. Espalhar o caos, a destruição, o ódio. Uma eugenia forçada. O mundo seria meu labirinto e os humanos meus ratos. Gostei da idéia. Ia responder isso a ele, mas vendo-o fumar com tanto prazer seu cigarrinho de cravo fiquei com vontade de fumar também. Puxei o maço, tirei um cigarro todo torto de dentro e resgatei o isqueiro. Clique, clique, nada. Só faísca. Sacudi-o. Clique, clique, clique. Porra nenhuma. O Zé não estava à vista. No bar apenas eu e Jesus. E ele tinha usado meu isqueiro pra acender o seu cigarro. Estava lá, me observando com cara de chapado. Nem para oferecer uma brasa. Tinha alguma coisa errada. Muito errada. Quando me vi estava amassando meu cigarro na mão. O cheiro de tabaco não-incinerado misturado à sua fumaça de cravo me embrulhou o estômago.
- Uma parábola - pedi a Jesus. - Apenas uma. Acho que mereço, se você pretende que eu seja seu apóstolo.
- Não sou o deus das parábolas. Não mais. Agora sou o deus dos eufemismos...
Nem esperei-o terminar. Chutei o pé se sua banqueta para trás. Ele caiu para frente, o rosto atingindo em cheio o balcão. O banco rolou para longe. Ele, para perto. De mim. Agarrei seus cabelos e o ergui. Foi uma pancada feia. O lado esquerdo de seu rosto estava inchado e com certeza ficaria roxo. O lábio sangrava. Olhava-me apavorado, com aqueles olhos azuis irritantes. Tremia.
- Levanta! - berrei. - Levanta, seu merda!
- O que foi que eu fiz?!
Lágrimas.
- Nada. Esse é o problema. Não fez porra nenhuma. Não fez o que eu queria.
- E o que é que você queria?
- Agora não interessa mais o que eu queria. Interessa o que eu quero.
- E o que você quer?
- A outra face.
Esmurrei-o do lado direito. Ele caiu para trás, a cabeça quicando no piso como uma bola de boliche. Gemeu. Em meus dedos haviam tufos de seu cabelo agora não mais impecável. E seu sangue nos nós de minha mão direita.
- Messias é o meu caralho - rosnei em sua direção. Ele tentou rastejar para longe de mim. Escorregou. Não ia longe.
- Deixa ele! - gritou Zé às minhas costas. Parei, sem olhar para trás. Sabia que com certeza ele estava me apontando a medíocre vinte e dois que sempre deixava muquiada embaixo do balcão para emergências. Avaliei a situação por um instante. Não valia a pena. Sem me virar saquei a carteira, tirei uma nota e joguei-a no chão. Jesus continuava lá, sangrando e gemendo ridiculamente. Passei por ele sorrindo. Duvido que ele fosse esquecer de mim tão cedo.
- Escreve isso no teu evangelho, moleque - disse, o mais cheio de escárnio que consegui. Ele não respondeu. Apenas sorriu de volta. Um sorriso assustador. Um sorriso de cumplicidade. Me pegou de surpresa. Sem saber mais como lidar com aquilo saí do bar. Já na rua atirei seus cabelos na sarjeta e fui pra casa. Demorei a dormir.
É isso aí, doutor. De volta à estaca zero.
Esporrado por Zebedeu às
11:58
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14.2.08
Sobre Amizades e Mulheres
Doutor,
permita-me citar outro doutor aqui, o cachorrão Dr. Love:
Caro FDP, amizade entre homem e mulher é uma brincadeira de fósforos. Hora se acende, hora se apaga.A verdade é que a gente nunca segue a máxima de sua tia, avó, mãe, ou vizinha-varizenta-mal-amanda e sempre acaba brincando com fogo, mesmo sob a perspectiva nada lisonjeira de se mijar todo na cama de noite.
Brinca e se queima.
E a queimadura dói pra cacete.
Porque se tem coisa pior que perder uma pessoa por quem se tem sentimentos é perder uma amiga.
Mas não tem jeito. Como continuar sendo amigo de uma pessoa que você já se envolveu emocionalmente? Ou que continua envolvido? Como evitar um surto psicótico destrutivo se por acaso você testemunhar sua amiga se agarrando a outro cara numa balada? Como evitar os murros no espelho do banheiro, as falanges esfaceladas com os cacos, o prejuízo na conta, o vexame de ser arrastado pra fora do bar por um segurança três vezes maior que você?
Eu não sei.
Mas que me deu uma vontade imensa de quebrar alguma coisa agora, isso deu.
Me encontre amanhã nas páginas policiais, doutor.
Esporrado por Zebedeu às
16:45
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31.1.08
Enxaquecas pré-carnavalescas
Doutor,
estou com dor de cabeça. Daquelas. Quase uma cefaléia. Sinto meu cérebro quicando em minha caixa craniana a cada batida de meu coração. Dói. Pra caramba. Parece que vou explodir. Só o ruído de meus dedos judiando do teclado parece uma escola de samba em meu cerebelo.
Falando em escola de samba, é chegada a hora de tirar a Lecy Brandão do formol. Filha da puta! Porra de país de merda que tem como festa oficial essa porcaria de ziriguindum, ticutuco, todas essas merdas. ODEIO carnaval. Meu sonho é ver algum dia algum sambódromo pegar fogo inteiro. Aí eu ia assistir. Todos aqueles idiotas morrendo carbonizados em suas fantasias altamente inflamáveis. Paetês em chamas. Plumas transformadas em labaredas. Explosões de peitos de silicone. Tochas homossexuais gritando como loucas até a morte agonizante, numa poça de sangue e órgãos que nem de longe lembram uma chuva de purpurina. Sangue, ossos e morte. Couro de gato retorcido. Carros alegóricos se tornando bólidos inflamados. Comissões de frente trombando-se em pânico. Pierrôs e Columbinas com reais motivos para chorar. Porta-bandeiras portando mortalhas. E a platéia despencando como gotas de termita em ignição, espatifando-se no asfalto numa explosão de fagulhas. Isso seria o carnaval perfeito pra mim. A isto eu assistiria com gosto.
E os bailes? Acho que até o próprio Demo acharia aquilo um inferno. Minha vontade é entrar lá com um carregamento de ácido sulfúrico travestido de tubos de lança-perfume. Os babacas iam lá, davam uma cafungada e em segundos seus órgãos internos seriam transformados em geléia. Vomitando as tripas. Cagando os próprios intestinos. Aos som de batucadas tribais e marchinhas cinqüentenárias. Foliões escorregando na sopa visceral de outros foliões, caindo e quebrando membros. Sendo pisoteados pela turba em pânico descontrolado. Sem ter pra onde fugir. Não era o caos que vocês buscavam? Taí, caos verdadeiro e justificado. Tão reclamando do quê?
Minha primeira briga foi num baile de carnaval. Eu era pequeno demais pra saber o que aquela porra significava, e deixei minha mãe me fantasiar. Acho que era de caubói.
Tá, eu espero você parar de rir. Não precisa disfarçar, não, pode rir à vontade.
Agora cala a boca senão enfio teus sapatos caros pela tua goela abaixo!
Então, estava eu lá, um caubói perdido no meio de um monte de crianças ranhetas com fantasias esdrúxulas se despedaçando a cada marchinha que saía da vitrola velha de minha avó. Em poucos minutos o lugar era de uma sujeira insuportável. Misture confetes, serpentinas, refrigerante, docinhos e salgadinhos mil, tudo pisoteado e arremessado de um lado pro outro no chão imundo. Nojento, nojento. Sentei num canto do salão e fiquei torcendo pra que aquilo acabasse logo. Mas não tem jeito. Mãe é aquela criatura filha da puta que gosta de torturar o rebento. Tratam os filhos como se fossem bonecas que respiram. Vestem-nos das maneiras mais ridículas possíveis. Transformam-nos em reflexos de suas próprias frustrações. Daí minha mãe veio e me puxou de volta pro inferno. Não dei dois passos e um idiotinha veio e me jogou um punhado de confetes bem no meio da boca. Engoli quase metade daquele papel higiênico sujo reciclado e picotado. Engasguei, cuspi e vomitei no meio do salão. Começou uma gritaria de mães tentando amenizar a bagunça que eu tinha criado, mas já era tarde demais.
Eu havia descoberto a violência.
Pulei em cima do moleque, batendo em sua cara o mais forte que eu conseguia. Espanquei-o sem perdão. Acho que quebrei seu nariz. E alguns dentes de leite. Ele chorava sangue e confetes. Tentaram separar a briga mas eu estava incontrolável. Arrastei o fedelho até a poça do meu vômito e esfreguei a cara dele nela. Chutei ainda sua cabeça duas vezes antes de conseguirem finalmente me tirar de lá. Minha mãe ficou duas semanas só repetindo "Ai, meu Deus, que vergonha!". Mas ela nunca mais me levou a outro baile de carnaval.
Não, doutor, não é por isso que eu odeio carnaval, não. Eu já odiava antes disso. Só não sabia exatamente porque. Desde então sempre que essa merda de festa começa eu simplesmente me tranco em algum lugar e desapareço da existência. Quatro dias de fuga desenfreada da realidade. Acredite, é melhor assim.
Na quarta estou de volta.
Mas só depois do almoço.
Esporrado por Zebedeu às
17:55
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22.1.08
Imaturo
Doutor,
sou assim. Sou do jeito que me vendem. Sou uma besta para muitos. Cativante para poucos. Amargo por vocação e solitário por opção. Bagunçado, desorganizado, escrachado. Bebo demais. Uso drogas por prazer. Tomo tarja preta sem receita. Durmo pouco. Trepo com ou sem amor. Não faço distinção. Mas sempre com paixão. Pois não sou burocrático. Sou cínico. Revoltado. Sacrílego. Escroto.
Maldito.
Me apaixono estupidamente fácil. E sigo em frente mais fácil ainda, mesmo com a ferida aberta sangrando e expondo minhas entranhas ainda esfaceladas. Uma hemorragia ambulante. Mas com a cabeça erguida. Sigo em frente, pronto para a próxima decepção. Para o próximo tombo.
Sou o pesadelo nietzcheano de Jack.
Mas sou assim e quero que se foda a sua opinião. A opinião de qualquer um. Sou uma fuga de mim mesmo. Uma fuga alheia. A saída de emergência que dá invariavelmente num abismo. Há quem caia comigo. Há quem se acovarde com apenas um vislumbre e retorne ao labirinto escuro de sua própria mediocridade auto-infligida. Pouco me importa. Sofro sozinho. Mas livre.
Eu mesmo limpo minhas lágrimas, obrigado.
Limpo-as com o sangue que escorre de minhas mãos. E com um sorriso macabro estampado na face. Sem olhar pra trás. Sem arrependimento.
Por que, você me questiona?
Porque sou imaturo.
Voluntariamente imaturo.
E é assim que persevero.
Assim que sou.
Quem quiser que me compre.
Só não me alugue.
Isso nunca.
Esporrado por Zebedeu às
17:45
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17.1.08
Balada de uma caipirinha
Doutor,
eu não deveria estar naquele lugar. Estava tudo errado. Lugar errado. Decoração errada. Iluminação errada. Música errada. Pessoas erradas. Tudo. E minha presença lá era o maior erro de todos. Como é que eu me deixei convencer a vir?
- Tá tudo bem?
Não, tá tudo errado. Não deu pra perceber pela minha cara, não? Não agüento mais isso. Quem estou enganando? Essa não é minha vida, não é o que eu gosto. Não sou eu aqui nesta mesa arrumadinha, limpinha, bonitinha, com estas pessoas fresquinhas, limpinhas, arrumadinhas, idiotinhas. A gola da camisa está pinicando meu pescoço. Odeio sapato social. E que merda de gosma é essa que você passou no meu cabelo?
- Mais cerveja, senhor?
Quero. Não! Espera. Chega de cerveja. Empapuçou. Preciso de algo mais forte. Dá aqui o cardápio. Puta bar caro do caralho! Assim não é possível. Tem que ter alguma coisa mais forte que cerveja a um preço que eu possa pagar. Calma, não vai embora. Aqui. Pronto. Me faz uma caipirinha.
- Claro, senhor. De quê?
Como é? Caipirinha. Não sabe o que é caipirinha? Como assim "de quê"? E você, tá rindo por quê? Acha engraçado um garçom que não sabe o que é uma caipirinha? Eu acho triste, isso sim. Babaca...
- Zê...
Me deixa! Olha cara, pedi uma caipirinha. Não dá pra ser mais direto que isso! O que mais você precisa saber?
- De vodca, saquê, rum, gim...
Como é que é? Esse cara tá me tirando. Eu pedi uma caipiroska? Ou uma caipiríssima? Não. Nada disso. Eu pedi uma caipirinha! Deixa eu ser mais claro: CAI-PI-RI-NHA. Entendeu agora? É com pinga, porra! Pinga! Cachaça! Cana! Mé! Água que a PORRA do passarinho não bebe! Saquê? Quem é que inventou essa merda? Caipirinha com saquê?
- Saiquirinha...
Pára! Não, aí já é demais! Saiquirinha? Isso é nome de bebida séria? Parece nome de suco de caixinha! Não, sem essa de saquê. Coisa de viado. É com pinga mesmo. Pinga.
- Muito bem. E com que fruta?
Isso é sério? É pegadinha? Cadê as câmeras? Como assim com que fruta? Eu não fui claro o suficiente? Você é gringo? Retardado? Bebe Diabo Verde no café da manhã? Com que fruta você acha que eu quero a PORRA da minha caipirinha? Hein? Adivinha?
- Bom, temos morango, abacaxi, kiwi, carambola, lima da pérsia, cupuaçu...
Cupuaçu? Que merda é essa? Não faço a menor idéia do que é cupuaçu! Isso é fruta? Me larga, porra! Será que chegamos a tal ponto nessa BOSTA de país onde nem mesmo uma caipirinha tem mais identidade? É a bebida nacional! Aposto que se eu fosse num bar na Tanzânia e pedisse uma caipirinha o garçom não ia ficar me azucrinando com essas perguntas cretinas!Limão, caralho! Limão! Sabe o que é limão? Aquela fruta verde que quando a gente chupa fica com a cara da tua mãe! Sabe?
- Caipirinha de pinga com limão. Perfeito.
Isso. E, por favor, não precisa falar desse jeito. Só "caipirinha" já basta. O próprio nome pressupõe pinga e limão. Não, eu tô mais calmo. Desculpe. Me desculpem. É que tem certas coisas que me tiram do sério. Não, eu tô melhor. Obrigado...
- Senhor?
Você tá aí ainda? O que foi agora?
- Açúcar ou adoçante?
Levantei e fui embora. Aí já era demais. Só me faltava agora tomar uma caipirinha diet! Não tem jeito. Não era meu lugar. Não era. Estava tudo errado. Está tudo errado. Comigo. Com o mundo. Depois reclamam quando alguém perde a cabeça e sai atirando em todo mundo na rua. Caipirinha com adoçante?! Sacrilégio! Esse mundo tá perdido.
Me deixa!
Esporrado por Zebedeu às
09:05
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14.1.08
Sim, eu sou egoísta
Doutor,
éramos apenas eu e a televisão na madrugada. Eu assistindo a mim mesmo. Eu estava lá. Era eu. Sou eu? Quase. Bem quase. O ator não se parece nada comigo. É indubitavelmente mais bonito. Mas fora o físico todas as outras idiossincrasias estão lá. Todas. Eu assistindo a mim mesmo numa noite insone.
E era uma boa história.
Vendo-me de fora percebo que não tenho do que reclamar. Mesmo quando eu reclamo na tela vejo que são reclamações pueris. Bobagens que só servem para o roteiro seguir em frente. Crises medíocres que se resolvem com a geração de novas crises. Ganchos de vida. Coisas que fazem os capítulos correrem. A história continuar. Uma justificativa para a continuidade. Para alegria dos patrocinadores. Dos espectadores.
"Na terra dos preguiçosos o tempo prega peças em você.
Um dia se está sonhando.
No outro já é realidade.
Foi a melhor época de todas.
(Se ao menos alguém tivesse me avisado...)
Erros foram cometidos,
corações foram partidos,
licões difíceis foram aprendidas.
Minha família segue em frente sem mim,
Enquanto eu me afogo num oceano de bocetas insignificantes.
Não sei como cheguei aqui.
Mas aqui estou eu.
Há coisas que preciso entender.
Ao menos pelo bem dela.
O relógio está correndo.
A distância aumentando.
Ela não vai sempre me amar incondicionalmente."
(Como eu queria ter escrito isso!)
Apenas na madrugada solitária a televisão corre o risco de transmutar em espelho. Em quase-experiência de pré-morte. Ou pré-experiência de quase-morte. Tanto faz. Mas no final não há a solução final. Há outro capítulo ainda. Outra temporada talvez. Com sorte. Azar.
Olho de relance para o relógio. Três da manhã. Preciso dormir. Amanhã eu trabalho. Na tela eu durmo. Sozinho e cheio de pensamentos conflitantes. Na realidade perco o sono. O que acontecerá amanhã? Que crises irei contornar com meu humor ácido, meu sarcasmo incurável e um estranho carisma que faz com que as pessoas não saiam de perto, mesmo quando essa é a alternativa mais racional? Não entendo. Não racionalizo. Os saltos temporais não permitem. Nova situação. Nova crise. Novas soluções e resoluções que apenas geram novas crises.
Malditos fractais.
Sou eu e estou feliz em ser. Estranho isso? Claro que é. Especialmente pra mim. Algo de muito errado vai acontecer. Alguma hecatombe se prenuncia no horizonte. Não pode ser uma história tão boa. Algo precisa acontecer para estragar essa coerência. Bebo demais. Escrevo de menos. Magoo as pessoas que me importam. Mas de algum as coisas caminham prum rumo certo, uma solução satisfatória. Isso não pode ser assim. A vida não tem revisões de roteiro. Não tem coincidências coerentes permeadas de referências obscuras. Não sou eu. Não pode ser eu. O polegar sobre o botão emborrachado do controle remoto treme de leve. Desliga isso, Zebedeu. Não é você. Não pode ser.
Eis que então eu na tela falo comigo mesmo:
"Você reclama até de não ter do que reclamar."
Aperto o botão. A tela apaga. Agora sou só eu novamente. Com meus pensamentos de travesseiro.
Bosta de vida. Não serve nem para virar um filme. Apenas um seriado idiota. Apenas uma metalingüagem rala e egoísta.
Bosta de vida.
Esporrado por Zebedeu às
13:08
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3.1.08
Palavras Suicidas
Doutor,
éramos apenas duas pessoas, deitados numa cama em um quarto pequeno demais para nós, mas grande o suficiente para se tornar um microverso particular. Uma entropia pessoal. Éramos apenas nós dois. E era o suficiente.
- Quer sair?
Nem fodendo. Não me imagino em nenhum outro lugar além desse onde eu gostaria de estar agora.
- Nem eu.
Continuamos abraçados. Olhando a parede. Em silêncio absoluto. Lá fora as primeiras explosões prenunciavam a revolução apocalíptica inevitável. Aqui dentro apenas nosso silêncio.
- Gostou do quarto?
É alto.
- Sabia que a maioria dos suicídios acontece em quartos de hotel?
Sabia. Já li esse gibi. E já me hospedei sozinho em quartos de hotel como esse.
- E por que será que é assim?
É simples. Primeiro tem o lance da sujeira. Ninguém gosta de bagunçar a própria casa. A maioria dos suicídios são sujos. Bala na cabeça. Pulsos cortados. Enforcamentos...
- Enforcamentos são sujos?
São. Nojentos. A pessoa perde o controle dos intestinos. Se caga toda. E ninguém gostaria de pendurar um lustre cagado em sua própria casa. Já num quarto de hotel ninguém liga. Na manhã seguinte a arrumadeira chega e tudo volta a sua ordem natural. O bom suicida não quer chamar a atenção. O gerente do hotel também não. É tudo muito simples, muito discreto, muito efetivo.
- Você fala como se já tivesse pensado nisso...
E você não? Quando se está num ambiente estéril como um quarto de hotel, sozinho e com mágoas para remoer esse pensamento é quase inevitável. Somos humanos. Guardamos coisas que não deveríamos. Tristezas. Arrependimentos. Feridas que só abrem quando estamos sozinhos. Abandonados à nossa própria sorte. Às nossas próprias reminiscências.
- Hum, adoro seu cafuné.
O segredo é não focar em um único ponto. Tem que variar. Explorar. Mexer em cada canto da cabeça até que nada fique incólume. Bagunçar. Aqui podemos. A arrumadeira vem de manhã.
- Haverá uma manhã?
Isso importa? Lá fora o mundo explode. Pode ser que vejamos o sol nascer novamente. Pode ser que não. Não importa. Não interessa. Interessa o agora. Interessa nós dois, aqui, juntos, sozinhos, isolados em nossos pensamentos compartilhados. Em nossas palavras suicidas. O resto é detalhe. Cenário. Foda-se o resto da humanidade. São todos figurantes. Extras. Descartáveis. São grafitos na parede, contornos semi-amorfos de criaturas que nunca deveriam ter existido. São sombras.
- Esse gibi eu também li.
São moldes em gesso de Pompéia. Reflexos de nada que voltaram ao pó. Uma nuvem de elétrons. Que orbitam involuntariamente a nossa volta. Somos o núcleo do universo. Um próton e um nêutron, abraçados e dançando uma dança eterna. Prestes a explodir numa hecatombe atômica sem precedentes na história do universo.
- Não pára...
Não paro. Não consigo parar. Está além de meu controle. De nosso controle. Inevitabilidade cósmica. Malditos fractais! É quase hora. É quase. Vem, me dá um beijo. Um último beijo. Misturemos nossos fluidos corporais. Saliva. Suor. Porra. Somos um só caldo primevo. Somos a massa primordial. Vem. Junte-se para que nos separemos em uma explosão. A única explosão que interessa nesse mar de explosões. Iniciemos a reação em cadeia que iniciará tudo mais. Vem. Agora. Vai...
- Mmmmmmm...
Lá fora as explosões se intensificam. É a hora zero. A hora da virada. A hora do recomeço. Elétrons colidem uns nos outros. Atraem-se e se repelem. O caos toma conta. O caos se torna realidade.
Aqui, no quarto de hotel, nós dois viramos um por um instante.
Então explodimos.
Mas nada muda no mundo.
Apenas aqui.
Esporrado por Zebedeu às
09:03
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28.12.07
O Cúmulo da Ironia
Doutor,
eu, no caixa do banco, saco o talão de cheques e ouço:
- Desculpe. Não aceitamos cheques.
- Não? - perguntei, em minha infinita inocência. - Por que não?
- Se banco aceitasse cheque ia à falência!
Se nem caixa de banco confia em cheque, por que raios essas merdas são emitidas?!?
Depois reclamam quando são assaltados com armas de brinquedo...
Esporrado por Zebedeu às
12:01
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10.12.07
Um raso sacrifício
- Bom?
Bom? Mais que bom. Perfeito. Mais que perfeito!
- Perfeito demais pra ser realidade?
O que ele quer dizer com isso? Nada é perfeito demais pra ser realidade depois de se tornar realidade. Por mais irreal e idealizado que algo possa ser, depois de realizado é algo alcançável. É passado. História. Realidade.
- Nem sempre. A realidade é subjetiva.
Isso quer dizer que ele não achou tão bom? Que ele está com dúvidas?
- Eu não. Você que está. Eu já estou decidido.
Por que é sempre assim? Por que sempre me envolvo com os malucos? Por que não posso ter uma vida normal como qualquer outra?
- Porque você é bidimensional. Restrita. Limitada. É uma criaturinha medíocre e fadada a um destino prosaico e sem grandes conseqüências para a humanidade. Você é simplesmente uma bolha no oceano. Um nada cheio de nada. E sabe disso.
Sei? Não sei mais nada. Que papo é esse, meu Deus? Estava tudo tão perfeito, tão idílico, tão ideal! Depois de tanto procurar, quebrar a cara, me decepcionar, eu finalmente encontro o homem perfeito. E agora, depois de tudo o que passamos juntos, ele vem com esse papo. É demais pra minha cabeça. É demais pra mim. Não agüento mais. Acho que vou explodir!
- Quer suas pílulas?
Quero. Dá aqui esse frasco. Vou tomar todas. Na sua frente. Vou morrer de uma forma grotesca para que você não possa mais me machucar assim. Nem a mim nem a nenhuma outra. Quem você pensa que é pra falar assim com uma mulher? Uma mulher como eu! Que absurdo.
- Desce melhor com uísque. Toma.
Dá aqui essa porra! Você vai ver, seu puto. Vou estrebuchar e vomitar em cima de você. Vou morrer em seus braços de uma maneira que você nunca vai esquecer. Ah, se vou. E eu achando que tinha encontrado o homem perfeito, aquele que finalmente abriria meu coração e com quem eu passaria o resto da minha vida.
- E estou realizando seu desejo.
Está? Está. Não, não posso terminar assim. Não posso morrer agora. Preciso vomitar. Me leva prum hospital. Isso não pode estar acontecendo. Parece um roteiro de filme ruim. Não tem sentido. Você é um personagem de um filme ruim?
- Não, eu não sou.
Ufa!
- Você é quem é.
Levanta a cabeça. Abre os olhos. Como é? Como é? Você está louco? Louco, louco, eu só conheço loucos. Será que a louca sou eu?
- Não. Não é louca. Só é pouco desenvolvida. Uma personagem ruim, só isso. Não quero criar nada para você. Não quero usar você. Estou descartando-a. Apagando sua participação ridícula em minha trama. Você não presta nem como alívio cômico. E nada do que eu possa fazer pode melhorá-la. Nada. Como eu disse, bidimensional, fútil, esquecível. Está me ouvindo ainda?
Na... Estou. Isso não pode ser verdade. Não, não. Eu sou interessante. Mereço pelo menos uma ponta na sua trama. Escreva sobre mim? Por favor? Qualquer coisa. Qualquer uma...
- Eu acabei de fazê-lo.
--
Doutor,
será que isso pode ser contabilizado como uma vítima?
Esporrado por Zebedeu às
15:08
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5.12.07
Antiplatonismo aplicado
Doutor,
ela podia ser feia. Podia ser gorda demais, daquelas boas para destrinchar na faca. Ou magra demais, para que eu passasse alguns dias só mascando seu tutano. Deformada, para que eu aloprasse psicologicamente sua já destruída auto-estima. Vesga. Caolha. Com protuberâncias ou pelos em lugares estranhos. Verruguenta. De cabelos ruins e buço gritante. Bochechuda, para levar uns bons tabefes. Corcunda. Manca, para que eu me divertisse ao vê-la se desequilibrando numa patética tentativa de fuga. Podia. Claro que podia.
Ela podia ser burra. Totalmente ignorante. Uma besta quadrada até para os padrões mais permeáveis. Cheia de preconceitos, achismos e teorias surrupiadas de canais abertos de televisão. Uma autêntica anta, que não conseguiria conversar dois minutos sem soltar uma gafe histórica. Podia falar 'menas', 'a nivel de' e extrapolar todos os limites do gerundismo. Podia só ler revistas de fofoca e Paulo Coelho. Podia achar que se cortasse o cabelo na lua cheia um santo qualquer iria tirá-la do atoleiro.
Ela podia gastar todas as economias em cartomantes e videntes. Podia ser evangélica, adventista, católica ou qualquer outra merda dessas. Ela podia acreditar em duendes, fadas, elfos, morlocks ou em espíritos reencarnados de guerreiros da Lemúria. Pode ter chorado assistindo "Quem somos nós?" ou tido várias idéias cretinas com "O Segredo". Podia ter uma amiga macumbeira e ser viciada em fazer simpatias esdrúxulas. Podia ter medo de ter idéias próprias. Podia ser domesticada. Podia ser uma total ameba.
Podia sonhar em casar e em constituir família. Podia achar que o máximo de sucesso seria se ela fosse mãe de um casal de moleques ranhentos e estúpidos. Que ter um marido gordo, mal-humorado e que não sai de dentro do puteiro é bom, pois ele traz dinheiro pra casa. Podia achar que chorar sozinha na cama de madrugada era um preço barato pela felicidade. Que masturbação era uma aberração do demônio. Que drogas são o mal da sociedade. Que o máximo de arte que ela tem acesso é novela. Que ela sofre nessa vida mas terá uma muito melhor depois de morrer.
Além de tudo isso ela podia ser uma pessoa boazinha. Querida por todos. Uma autêntica flor, que nunca na vida soltou um único palavrão. Podia ser delicada, cheia de pudores e frescuras. Podia só fazer amor com as luzes apagadas. De babydoll. E só em ocasiões especiais, pois sexo por prazer é pecado. Podia lavar a boceta com água benta enquanto o maridão ronca alto no quarto. Podia fazer gargarejo e usar Vagisil. Podia fazer parte de um grupo de senhoras de bairro. Podia ajudar em obras assistenciais. Podia ser canonizada em vida. Podia envelhecer mal. Ficar varizenta. Caída. Assustadora. Mas adorável. Podia ser mais uma velhinha horrenda e adorável da sociedade.
Podia ter esqueletos no armário. Taras particulares nunca extravasadas. Traumas idiotas. Sonhos desfeitos por inação. Podia ter uma paixão não correspondida na juventude. Podia ter vontade de se matar de vez em quando. Ou de matar outros. Podia ir se confessar depois. Podia se sentir bem com isso. Satisfeita.
Podia tanta coisa.
Podia.
Só tem uma coisa que ela não podia ser.
Ela não podia ser ela.
E nem eu tão covarde.
Esporrado por Zebedeu às
15:12
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4.12.07
O sentido de uma fuga sem sentido
Doutor,
ando fugindo. Fugindo de tudo. Fugindo de mim. Tudo é desculpa para fugir. E a fuga é a única desculpa que tenho. Fujo, corro, me escondo, desapareço. Nem sombra sou, pois sombra é na verdade a imagem de algo. Não sou nada. Não faço nada. Não existo.
E fujo dessa inexistência também.
São comichões, doutor. Sintomas esparsos entre as fugas. Momentos de lucidez depressiva. Julgo tudo o que faço. E só faço merda. Afogo-me em litros de álcool e quantidades abusivas de drogas. Não vejo mais sentido. Não encontro mais sentimento.
Já não me apaixono mais.
Não, não sinto falta de alguém em minha vida. Não. Seres humanos não me convém. Tampouco animais. Muito menos você, que ora lê essas linhas e já pensa no comentário que fará a seguir. Não me interessa. Pense a mediocridade que quiser. Pouco me importa se você ou toda a humanidade de repente desaparecer num último suspiro ignóbil. Foda-se. Fodam-se.
Por alguma razão um pensamento se repete. Uma idéia sem nexo, sem motivo, cisma em ressurgir nessas sinapses caóticas. Imagino-me enfiando lascas de madeira embaixo de minhas unhas. Vejo-me enfiando-as bem fundo, até a raiz. O sangue escorrendo, a unha se desprendendo da carne juntamente com as lágrimas em meus olhos. Tento imaginar a dor mas não consigo. Outro dia enfiei a ponta da faca de meu canivete sob a unha de meu polegar esquerdo. Doeu, mas foi como uma dor de dente de leite mole. Uma dor punctual. Medíocre. Mas não tive coragem de continuar. Nem sei por que. Parei, simplesmente, como sempre. Não fazia sentido. A dor permaneceu e depois aumentou o suficiente para que eu novamente fugisse. Uma dose exagerada de analgésicos me anestesiaram na dose certa para que o tormento permanecesse. E a dor não trouxe nenhuma realidade. Trouxe apenas mais um caminho de fuga. E eu, covarde que sou, rapidamente o acolhi. Entre sorrisos bestas e idéias desconexas. Inação e inanição.
Niilista que sou, parei de buscar sentido nas coisas. Mas esta falta de sentido torna a vida um quadro branco. Não há estímulos, não há reações. O que todos fazem não importa. O que faço não interessa. Nada, nada, simplesmente nada. A tinta teima em secar na ponta da caneta, forçando-me a lambê-la. A mancha em minha língua é a única impressão que existe, o único traço da realidade. E mesmo assim é efêmera. Engulo-a rapidamente. Fagocito-a. E o quadro permanece em branco. Nulo. Inexistente. Desnecessário. Inominável.
Tal como eu.
E você.
Esporrado por Zebedeu às
18:12
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6.11.07
Regras para que te quero!
Doutor,
desde que começamos a compreender o mundo que nos rodeia uma das primeiras coisas que nos ensinam são as REGRAS. Regras para tudo. Regras para convivência, para sobrevivência, de consciência, etc. Isso tudo começa quando você se assusta com o primeiro NÃO! que sua mãe lhe grita. NÃO derruba a papinha! NÃO enfia o dedo na tomada! NÃO martela a cabeça da tua irmã! NÃO mostra o pinto pras coleguinhas no recreio! NÃO sobe aí, moleque! NÃO olha pro lado! NÃO tenha idéias próprias! NÃO PENSE!
Daí a gente cresce e essas regras vão se mesclando a nossa personalidade, tal qual um cabresto invisível amalgamado a seu sistema nervoso periférico. É a MORAL se entranhando em sua psique. É quando os mais espertinhos começam a formular os primeiros questionamentos, pois normalmente estas regras foram apenas outorgadas a nós, sem maiores explicações. E quando analisamos cada uma delas percebemos finalmente que "Porque sim!" não é resposta para porra nenhuma.
Mas essa constatação não nos livra do surgimento de novas regras. Regras sociais. Regras de acasalamento. Regras profissionais. Regras e mais regras, que nem de longe são causadas pelo bom senso, e sim por um senso comum deturpado pela tal MORAL citada acima.
Ou seja, no final das contas ouvimos muito mais "Porque sim!" quando adultos do que quando moleques. É a resposta da ausência de argumentos. É a resposta da pré-violência. Se o argumento vazio falhar, só na porrada mesmo, mermão. Não tem jeito. É assim desde o início dos tempos. Pensar sempre foi visto como a estratégia dos fracos, dos frescos, dos frutinhas. Nada que resista a uma boa machadada entre os cornos.
O que a maioria das pessoas ainda não conseguiu compreender é que em tese as regras deveriam ser criadas para AUXILIAR nossa existência, e não castrá-la, como comumente é feito. É preciso saber quando é hora de jogar tudo para o alto e agir de acordo com determinada situação, independente de quaisquer regras imputadas anteriormente. É a SUA vida, porra! Assim como serão SUAS as conseqüências de determinado ato. Isso é ter bom senso.
Nem é tão difícil assim, é?
Regras simplesmente servem para privar nossa audácia, nossa coragem. As seguimos apenas porque é "certo" ou "errado". Ou seja, por conceitos subjetivos e elásticos demais para serem tomados como pedras fundamentais de QUALQUER COISA!
Traduzindo: quando chegar a hora certa, cala a boca e beija logo. Pra não se arrepender depois.
E viva a vida desregrada.
Esporrado por Zebedeu às
14:06
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5.11.07
Momento Conan
Doutor,
uma amiga minha passou em casa e, juro que não sei por que, decidiu fazer meu mapa astral (não ria). Em certo momento do discurso aconteceu o seguinte diálogo:
- ... e você se sente atraído por coisas como Poder, Morte e Sexo...
- Poder, Morte e Sexo?
- É.
Daí utilizei meu magnífico poder de síntese e traduzi isso numa frase simples:
- Eu MATO o FILHO DA PUTA que tentar ME FODER!
Nem preciso dizer que a leitura do mapa astral terminou aí, né?
Esporrado por Zebedeu às
16:58
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31.10.07
Anos Vazios
Doutor,
Ele é daquele tipo de cara sobre o qual você ouve falar por aí. Do tipo que abandona a família por um motivo qualquer. É triste, mas a verdade é que nenhum dos dois percebeu os sinais. E ele nunca disse uma palavra, pois não poderia deixar para outro dia.
- Leve-me em direção à praia - ele disse. - Enterre-me na areia. Conduza-me sobre a água. E talvez você compreenda.
Tomei o último gole e pedi mais uma dose antes de continuar.
- Sabe, cara, uma vez que a pedra sob a qual você está rastejando for retirada de cima de seus ombros e a nuvem preta sobre você desaparecer, o barulho que você ouvirá será o desmoronar destes anos vazios.
Levou um tempo até ele digerir a informação. Mas o fez. Rapaz esperto.
- Ela não é uma tipo de garota sobre a qual você ouve falar. Ela nunca... nunca desejará outro. E nunca estará sozinha. Ela mostrará a você todos os sinais e lhe contará tudo. E então virará as costas e irá embora.
Eu não tinha mais o que dizer então me calei, deixando-o lá com aquelas dúvidas corrosivas. Não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-lo. Pois eu o compreendia mais do que gostaria de assumir. Mas eventualmente eu virei as costas e fui embora.
Não entendeu, doutor? Tudo bem, não era para você entender mesmo.
Mas eu espero que ela compreenda.
Esporrado por Zebedeu às
09:26
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8.10.07
Like a Rolling Stone
Doutor,
sabe quando a gente chega a uma certa idade e certos pensamentos começam a tomar conta de nossas mentes, especialmente nas noites insones?
Tive um surto desses neste final de semana.
De repente me peguei pensando em me estabelecer. Sabe como é, conhecer alguém especial, casar, constituir família, almoço de domingo, supermercado, rotina, visita dos sogros, comprar fralda, limpar cocô, etc. Tive mesmo. Daqueles momentos em que se diz: "Chega de putaria! Vou colocar minha vida nos trilhos!".
Daí fui salvo por um diálogo:
- O que você acha?
(Ela faz bico enquanto pensa. Linda.)
- Minha mãe me disse que quando ela era jovem as garotas tinham dois sonhos: casar com um Beatle e ir pra cama com um Rolling Stone.
- E aí? O que isso tem a ver?
- Que você definitivamente é um Rolling Stone.
Será, doutor?
Esporrado por Zebedeu às
12:24
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4.10.07
Meu Segundo Roubo
Doutor,
um amigo meu (ando cheio de amigos ultimamente, né?) me fez uma visita outro dia. Entre cervejas e papos ébrios ele acendeu um cigarro. Estranhei logo de cara seu isqueiro: um daqueles mini-bic padrão, branco, igual a zilhares por aí, mas inteiro enrolado em fita isolante. Tipo coronha de revólver roubado, saca? Perguntei na hora por que ele tinha feito aquilo e sua resposta era de uma lógica irrefutável:
- Pra ninguém querer roubar, oras.
Oras! Que óbvio! Como eu não tinha percebido isso? Se tem uma coisa que sempre desaparece no ar são os isqueiros. Não, não acho que elas sejam sondas alienígenas nem porra nenhuma disso. Nada tira da minha cabeça que se os alienígenas forem implantar sondas será diretamente no nosso rabo. Não pergunte porque. Talvez seja por isso que tenha crises de pânico quando esqueço de colocar cueca...
Já sei, já sei, muita informação irrelevante. Preciso aprender a divagar menos.
Voltando, achei aquele isqueiro "à prova de furtos" quase uma afronta pessoal. Sério. Quem aquele cara achava que era para jogar na minha cara uma solução porca como aquela e se achar o supra sumo da esperteza tabagista? Eu simplesmente TINHA que roubar aquele isqueiro! Nem que fosse apenas para provar que aquele sistema de merda não funcionava.
O doutor bem sabe que nesse assunto eu sou uma completa negação. Tremo, suo, gaguejo, só faço merda. Lembra quando contei aqui mesmo a respeito de meu primeiro roubo? Eu sei que faz tempo e não vou recontar o caso pois... bem, não vem realmente ao caso. Resumindo, eu não tinha roubado absolutamente nada. Apenas achava que sim. Mais um coito interrompido nessa minha vida nas coxas.
Mas eu ia virar o jogo. Ah, se ia!
Esperei até a hora de ele ir embora. Fui maquiavélico. Fui frio, calculista e clichê. Esperei com a paciência ansiosa de um virgem num puteiro. Cheguei a ir ao banheiro dar um barrão de tanta ansiedade. Mas eu sabia que conseguiria. Eu seria o melhor ladrão de mini-bics da História! Uma hora depois ele deu aquela espreguiçada clássica antes de levantar do sofá e foi ao banheiro mijar pra ir embora. Assim que ele fechou a porta estiquei a mão, peguei o isqueiro e enfiei no bolso. Assim, sem mais nem menos, na caruda mesmo. Ele saiu do banheiro, se despediu e foi embora.
(Côro de "Aleluia")
Eu tinha conseguido!
("... aleluia, aleluia, aleluuuia!")
Eu sei, doutor, foi uma coisa tão imbecil, tão cretina que não dá nem pra considerar roubo. Para quem cobra o valor de suas sessões deve ser mesmo. Mas para mim foi a primeira vitória em muito tempo. Foi a queda de um muro na Berlim sináptico de meu cérebro. Acho que até berrei de alegria. Endorfina, endorfina, quer uma breja? Ah, eu tinha conseguido!
Usei o isqueiro a semana toda, respondendo cheio de orgulho quando perguntavam sobre a fita isolante: "Um amigo achou que assim não roubavam. Mas eu ROUBEI!".
Que satisfação, que satisfação!
No final de semana seguinte calhou de eu ir à casa deste mesmo amigo. Planejei tudo pelo caminho, como desmascararia seu estratagema, como esfregaria em sua cara que a cretinice ele tinha bolado de nada tinha adiantado. Pois eu, EU, tinha burlado seu sistema e ROUBADO a porra de seu isqueiro! Ah, tudo que eu queria ver era a cara dele.
Segui à risca o script mental que criei. Entrei, esperei um pouco, acendi um cigarro com o isqueiro e deixei-o sobre o maço, bem à vista do babaca. Ele olhou e não deu a mínima. Como assim? Como assim?!? Ele nem tinha dado pela falta? Apelei.
- Não reconhece o isqueiro?
Ele o olhou sem entender.
- Arrã.
- O que me diz do seu sistema anti-furtos agora? Hein?
Acho que demorou alguns segundos pra ele realmente entender.
- Você acha que roubou o isqueiro?
- Eu ROUBEI o seu isqueiro de merda! Bem debaixo da sua fuça! O que me diz dessa sua BOSTA de sistema anti-furtos agora, hein?
Ele caiu na risada. Eu fiquei mudo. Ele explicou assim que conseguiu recuperar o fôlego.
- Cara, esse isqueiro é seu!
- Hã?
- Quando você foi no banheiro dar um barro meu isqueiro acabou. Não sei por que, mas tirei a fita do meu isqueiro e enrolei no teu. Achei que você tinha percebido!
- ...
Pois é, doutor. Foi isso que aconteceu. Meu segundo roubo TAMBÉM não foi um roubo. Não entendeu? Eu explico:
EU TINHA ROUBADO O MEU PRÓPRIO ISQUEIRO!
Quer coisa mais idiota que essa?
Chega, essa foi minha última tentativa de roubar algo. Não é minha praia, não tem jeito. Não nasci pra isso. Estou condenado a comprar tudo que eu quero, a ser um babaca honesto pelo resto da vida.
Tá, pode parar de rir agora.
Esporrado por Zebedeu às
17:58
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28.9.07
20.9.07
Reencontro
Doutor,
estava eu retornando calmamente de meu novo emprego, às 23hs (ou seja, cedo) quando me deparo com o hall de entrada do prédio completamente às escuras. Tinha alguém por lá, um vulto indecifrável, que podia tanto ser a simpática velhinha do sexto andar quanto um corongo africano prestes a me matar e sugar o tutano de meus ossos. E o elevador estava longe. Você bem conhece minha faceta paranóica e então consegue imaginar como ficou minha cabeça naquele momento. Décimo terceiro, décimo segundo... Porra de elevador demorado!
- Será que queimou a lâmpada?
O vulto não respondeu, talvez fazendo pilhérias mentais de minha ignorância em circuitos elétricos prediais. Me deu vontade de retornar ao carro e dormir lá mesmo. Dane-se meu ciático. Melhor dolorido do que morto por um assassino que eu nem tinha visto a face. Nono, oitavo... E se eu acendesse meu isqueiro? Trechos de filmes de terror ruins passaram a milhão em minha memória. O assassino sempre atacava quando alguém conseguia acender alguma luz, juntamente com um acorde estridente da trilha sonora e um corte rápido para outra cena que nada tinha a ver com nada. Melhor não arriscar. Morrer já era uma péssima idéia, mas morrer num clichê era pior ainda. Quarto, terceiro... Porque o vulto não falava nada? Qualquer coisa, nem que fosse pra quebrar o gelo. Conversa de elevador mesmo. Fala do tempo, faz uma piadinha sem graça, qualquer coisa! Primeiro, térreo, finalmente!
Quando a luz interna do elevador incidiu sobre a figura misteriosa eu percebi que teria sido melhor se ela fosse um maldito corongo-chupador-de-tutano. Quem apareceu, em toda sua graça e plenitude, foi a maluca que havia vandalizado meu apê naquele dia fatídico. Ela mesma, doutor, a destruidora de aquários, a pirada que tive que escoltar para o hospital numa viatura de polícia. Eu sei que você se lembra da história.
Ela entrou. Pensei seriamente em não segui-la, mas por alguma razão inexplicável entrei. Ela apertou o botão do segundo andar, eu apertei o meu. Fiquei quieto, Se desse sorte ela não me reconheceria, tão lesada ela estava aquele dia. Claro que não dei sorte.
- Ei! - gritou ela, me apontando. - Você!
Bati as costas na parede do elevador com o susto. Fodeu! Não tenho pra onde fugir! Ela continuava me olhando com aqueles olhos insanos, aquele dedo gorducho em riste na direção de meu nariz. Pensa, Zebedeu, pensa! Ela se aproximou. Não me mata!
- Olha - começou ela - você me desculpe por aquele dia, hein? Você sabe, eu tenho uns problemas...
Respondi a primeira coisa que me deu na cabeça.
- Tá tudo bem...
Bem o caralho, sua puta! Graças a você tive um dos piores dias de minha vida! Eu devia te estrangular agora! Eu devia...
A porta se abriu. Ela pediu licença e saiu. Da porta de seu apartamento ela ainda me mostrou sua bolsa, que tinha escrito "Psicologia" em letras garrafais em um dos lados.
- Eu faço Psicologia - explicou o óbvio. - E você sabe como é, né? Quem faz psicologia...
Calou-se, talvez se dando conta do que estava quase assumindo. Não me fiz de rogado e complementei seu raciocínio:
- Tem mais é que ser louco mesmo. Entendi. Passar bem.
Antes que ela conseguisse retrucar a porta do elevador se fechou, elevando-me.
É por isso que mandei trocar a fechadura de casa, doutor. Saiu caro mas confesso que valeu a pena.
Ah, se valeu...
Esporrado por Zebedeu às
16:09
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10.9.07
Retrato de um fornicador quando macho
Doutor,
era noite de baladinha inconseqüente. Sim, eu ainda faço isso. Saio para encher a cara e rir da mediocridade alheia. Escapismo etílico, e daí? É uma tradição humana. Dez mil anos de porres homéricos não podem estar tão errados. Temos mais é que queimar mais uma dúzia de Persépolis.
A balada em si foi meia boca. Banda ao vivo tocando músicas aos mortos pasteurizados e bem arrumados. Eu, lá no meio, como uma verruga cabeluda no meio do nariz da top model. Ninguém assume mas todos estão lá apenas por causa do sexo. EU estava lá por causa de sexo. Nem no escapismo abdicamos de nossos desejos mais primitivos. Só os rotulamos como algo "social" para evitar que cada um cheire o rabo do outro no meio da pista. Mas é quase isso.
Um amigo meu dá uma sorte daquelas e cola numa loirinha. Cinco minutos de papo e já estão se esfregando como bichos-preguiça com epilepsia. Sobra uma amiga. Morena, peitão, bundão, linda, linda. A matemática é mais rápida que meu raciocínio. Tudo muito certo. Não era possível. O que está acontecendo?
Resumindo a história: uma hora de papo desperdiçado e ela beija outro.
Frustrado e com desejo de invadir o palco para quebrar a guitarra na cabeça do vocalista, decido comprar uma cerveja. No caminho encontro o Palito. "Preciso da tua ajuda". Manda. "Olha lá", e aponta para os escarros do demo. 'Cê tá brincando? "Não. Vamo lá que sozinho eu não encaro".
Fazer o quê?
Com ele foi rápido. Chegou, colou e beijou. Deu nojo. Olhei para a outra. Feia como encoxar a avó no tanque. Chata e desagradável como uma pizza estragada esquecida no fundo da geladeira. Braços cruzados. Cara de chupar limão. Me olhou com aquela cara de "E aí? Qual o xaveco que eu vou rechaçar agora?". Como se tivesse alguma moral pra esnobar. Mandei tomar no cu antes mesmo de dar oi. Só me faltava tentar convencer dragão a me dar um beijo. Sei que não sou nada demais, mas péra lá! Tudo tem limite. Desisti e fui pra minha cerveja.
Fim da balada, todos na rua. O Palito já tinha se livrado da mina e tava com fome. Hora do dogão. Mas ele precisava comprar cigarro. Fui agilizar o esquema do rango, pois minha tolerância a pessoas já estava no limite e eu queria ir logo pra casa. Chego lá e reencontro as recepcionistas do inferno. É, doutor, as mesmas. A mina que o Palito beijou me dá um cutucão assim que me vê.
- Vacilão!
- Ei, vai se foder!
- Fiquei te paquerando a noite toda e você nem me deu bola. Tive que beijar seu amigo.
- Problema seu! Cada uma que me arrumam...
- Vem cá, vem...
Não sei se por causa da frustração por causa da morena ou por completa falta de noção, fui lá e beijei. Na hora me arrependi. Nossa, o que foi que eu fiz? Assim, na frente de todo mundo? Eu REALMENTE tinha achado meu pau no lixo?
Claro que o Palito chegou naquela hora. Foram dois segundos de perplexidade e em seguida ele já estava em movimento. Colou na mocréia azeda e beijou. O Palito é um cara corajoso. Gosta de mulher mesmo. Não interessa qual. É algo a ser respeitado. Postumamente até.
O que aconteceu em seguida ficou meio nebuloso. Vamos pra casa? A minha ou a sua? A minha. Vamos. Pra dela. Meu, eu tô cansado... Vamos nessa! Fomos.
Boca do lixo. Não tenho outra maneira de descrever o lugar. O Palito, que estava dirigindo, desistiu assim que viu a bocada que ele ia ter que deixar o carro dele. Não, véio, tô fora. Eu já tinha decidido ir às vias de fato de qualquer jeito. Se for só pra beijar aquela tranqueira eu sairia no prejuízo. Fiquei. Ele foi embora. A Azeda fez um bico enrugado. Nem olha pra mim que já vai ser dureza ficar de pau duro com tua amiga! Se você se juntar não sobe nem fodendo! Grosso! Entramos.
Alvoroço. Elas começam a se ajeitar pra uma dormir e a outra trepar. O arrependimento aumentou desde o momento que entrei naquele pulgueiro travestido de apê. A bebedeira tava baixando. Pedi uma cerveja. Ela deu e eu bebi mais rápido do que deveria. Quase gorfei no tapete vagabundo. Hora do sexo. Tirei a blusa dela e levei um puta susto. Seus peitos tinham aquelas cicatrizes de plástica malfeita. Não hora a palavra "traveco!" gritou na minha mente. Pior que podia ser. E se fosse? Eu mataria as duas. Na paulada. Homicídio completamente justificável. Mas felizmente não era. Ufa! Ela me explicou que eram de uma cirurgia de redução de seios. Eca! Não precisava explicar! A imagem daquilo com os peitos murchos quase me fez fugir gritando. Chega de papo. Botei a camisinha, tuque-tuque e boa noite. Só isso? De manhã tem mais. Agora cala a boca e dorme. Obedeceu. Hora de fugir.
Já sei o que você deve estar pensando doutor, e quero que se foda. Ela já era horrenda toda maquiada e produzida. Imagina ela acordando? Não ia dar. Não sou o Palito. Esgueirei pra fora da cama. Demorei uns cinco minutos só pra tirar meu braço de baixo da sua cabeça sem acordá-la. Consegui. Recolhi minhas roupas no chão e me vesti no banheiro, logo depois de dar uma bela mijada. Catei dez mangos da bolsa dela, além de meio maço de cigarros. Saiu barato, fofa! Ah, se saiu. Você nem imagina quanto. Passei perto da cama e a porca roncava como uma motosserra. Queria ter algum objeto pesado pra esmagar aquela cabeça de uma só vez. Pra evitar que outro bêbado incauto caísse naquela armadilha. Melhor não. A outra poderia acordar e eu teria que matá-la também. Podia dar merda. Melhor só sair mesmo.
Na sala a Azeda dormia de boca aberta. Parecia um cadáver atropelado. Tive que me controlar para que a impressão não se tornasse fato. Calma, Zebedeu, não vale a pena se enrolar por tão pouco. Passei por cima dela na sala apertada, torcendo para que não acordasse, e saí pela porta da frente. Doze andares depois estava no térreo. Consegui! Agora some e não volta nunca mais pra esse lugar, Zebedeu! Testei a porta da frente do prédio. Trancada. Do lado da porta tinha um interruptor para abertura. Quebrado. Eu estava preso!
Doutor, o senhor não imagina o grau de meu desespero naquele momento. Não podia simplesmente voltar pro apartamento das morféticas porque se voltasse ia ser uma chacina. Daquelas. Não podia ir embora por razões óbvias. Eu estava preso num limbo no meio da boca do lixo. No meio da noite.
Sem opções sentei no chão e fiquei esperando alguém aparecer e abrir a porta. Só aconteceu às oito da manhã, quando eu já estava dormindo e com a bunda quadrada de ficar sentado no piso frio. Uma velhinha chegou e abriu a porta. Fingi uma educação que não tenho e segurei pra ela a porta aberta.
- Perdeu a chave, meu filho?
- Hã, não. Eu tava na casa de umas amigas...
A expressão da velha se transformou de simpática para julgadora em milésimos de segundo. Dava pra imaginar claramente ela me chamando de "fornicador de putas da babilônia!". Não que estivesse tão longe da verdade. Além do mais ela devia conhecer bem as vizinhas que tinha. Não que isso justificasse aquele preconceito. Mas se tem uma coisa que eu não consigo ter raiva é de velhinhas. O doutor que explique o motivo. Pergunta pro teu amigo, o tal do Freud!
Mas o que importa é que eu tinha conseguido sair. O sol de domingo já ia alto. O metrô era perto. Mas antes de completar minha fuga parei numa padoca do lado do prédio e tomei um café com pão na chapa. Você acha que eu roubei os dez reais pra que? Comprei também um cigarro decente e fui na direção do metrô, me achando um merda, um idiota, um porra dum viciado em sexo sem escrúpulos. Pouco antes de chegar no metrô vomitei o café e o pão na calçada. Alguém riu. Ignorei e entrei no metrô com a boca ainda com gosto de bílis. Uma hora depois estava em casa. Fim do relato.
Por que a gente faz isso, doutor? É uma forma de auto punição? Ou apenas porque podemos?
Ainda não sei. Mas vou continuar fazendo até mesmo depois de saber a resposta.
Então foda-se.
Esporrado por Zebedeu às
16:19
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